22 de dezembro de 2008

Um balanço.

Um comentário:
Vamos dar uma saída pelo mundo afora. É recesso de fim de ano. Em janeiro, volto à carga. Tanto no ofício como aqui, no blog. 
Desejo boas festas a todos!  
Depois de 421 postagens (contando com essa aqui), faço um balanço desses 09 meses de blog. Não é fácil registrar nossas impressões, idéias, posturas e desabafos em um blog. Mas depois de um tempo você vai percebendo que é um registro que tem o seu valor.    
Escrevi sobre universidade, sobre a manipulação da mídia, sobre economia, política e História, claro. 
Você aprende com outros blogueiros, começa a enxergar um outro mundo. Para mim blog era coisa de artista ou de adolescente. Depois percebi que não, que não é só isso. Tem pessoas que usam os blogs para além da fofoca ou da vulgarização da vida alheia. 
Fazem-nos perceber que há outro lado nas informações. Que o PIG - Partido da Imprensa Golpista tem interesses muito maiores do que aparenta. Mas que é possível construir alternativas e continuar na luta. 
Quero registrar aqui algumas das atividades que mais realizei enquanto espectador e leitor desse mundo virtual e também outras que marcaram o ano de 2008, ano em que iniciei minhas atividades "blogueiras". 
Blogs que mais acessei: 
  • Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim. 
  • Viomundo, de Luiz Carlos Azenha. 
  • Projeto BR, de Luis Nassif. 
  • Blog do Mino, de Mino Carta. 
  • O Escrevinhador, de Rodrigo Vianna. 
  • O Fazendo Média. 
Mais recentemente, criado no ultimo mês, o do meu camarada Waltécio Almeida, o macaco-alfa.
Sites que mais acessei:
 
  • Do PIG: O Globo, Folhaonline, Estadão, Diário do Nordeste. 
  • URCA.
  •  CNPq.     
  • Vermelho.
  • Google.
  • Agência Carta Maior.
  • Brasil de Fato.
  • Orkut. 
  • Terra. 
  • Oi. 
Mas o mais importante foi que em 2008 redescobri o prazer da pesquisa histórica. Prazer que havia quase que abandonado pelas contingências de participar de uma administração universitária, onde aprendi bastante, mas também me decepcionei com as pequenezas de alguns personagens.  Mas o resultado final é positivo para mim. 
Muitas atividades  e projetos vislumbram-se para 2009. 
Em janeiro estaremos de volta! 
Saudações!  
  

Para os defensores do neoliberalismo.

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Essa é para os defensores do neoliberalismo. E seus capachos. 
Transcrito do Portal Vermelho. 

Madoff, o vigarista que vendeu o mundo

Poderia haver um fim mais apropriaqdamente terríveI para o pior ano do capitalismo americano desde a Grande Depressão? O esquema operado por Bernard Madoff, outrora um homem acima de qualquer suspeita em Wall Street, não é só uma das maiores fraudes - talvez o maior - na história dos EUA. É também uma metáfora perfeita para os males e excessos que o sistema financeiro trouxe ao país e sua economia nos miseráveis dias que correm. Por Rupert Cornwell, correspondente em Washington do jornal britânico The Independent
Madoff, em seus tempos de celebridade
Desde a prisão do escroque em 11 de dezembro, cresce cada vez mais a lista dos engabelados pelas sempre pródigas promessas de retorno oferecidas aos investidores do Madoff Investment Fund. Como convém à nossa era globalizada, as vítimas vêm de todos os continentes. Elas incluem não apenas de alguns dos maiores bancos e ''hedge funds'' [fundos ''heterodoxos''] do mundo, mas também pessoas físicas e pequenas organizações, até de caridade, dirigidas por celebridades como Steven Spielberg - e mesmo, ao que parece, o próprio fundo de pensão do Hampshire County Council, pungado em US$ 10 milhões. Libertado sob fiança de US$ 10 milhões A comunidade judaica foi especialmente afetada, ainda mais porque ninguém menos que Carl Shapiro,  velho amigo de Madoff,  introduziu-o junto a muitos dos seus futuros investidores no exclusivo resort de Palm Beach, Flórida, onde eles e outros muitos ricos personagens da costa nordeste passam o inverno. Shapiro e sua fundação beneficiente podem ter perdido mais de US$ 500 milhões, uma fraude estimada num total de nada menos que US$ 50 bilhões. Os dez dias do final do annus horribilis de 2008 podem trazer, se não  conforto, com pelo menos alguma elucidação para o caso. Madoff, 70 anos, ex-presidente da bolsa de valores Nasdaq e em outros tempos uma figura creditada como a melhor garantia de bons negócios para os investidores comuns, está livre, após pagar uma fiança de US$ 10 milhões, mas sob prisão domiciliar de fato, em seu apartamento no Upper East Side de Manhattan. Entretanto, ele foi condenado a produzir até o fim do ano uma lista detalhada dos seus ativos e passivos - uma primeira pista para descobrir quanto dinheiro foi perdido o que sobrou, se é quye sobrou alguma coisa. O financista desfrutava de um estilo de vida mais do que opulento, possuindo  meia dúzia de residências na Flórida, Nova York outros lugares, e dois jatinhos privados. Mesmo assim, teria dado algum trabalho torrar, ainda que em duas décadas, US$ 50 bilhões. Pela mesma razão, é difícil imaginar que ele agiu sozinho. Um esquema tão sofisticado e duradouro requeria pilhas de documentação para seus clientes, inclusive comprovantes e demonstrativos apresentados a cada mês. Então, quem eram os cúmplices? Isso também é um mistério que os investigadores mal começaram a desvendar. Uma pirâmide como o esquema Ponzi Mas não há qualquer mistério sobre o que fazia Madoff Bernard. Ele usou o chamado esquema Ponzi, em uma versão mais sofisticada do estratagema empregado pelo famoso trapaceiro de Boston Charles Ponzi, logo após a 1ª Guerra Mundial. O mecanismo é direto: atrair fundos prometendo fabulosos dividendos, e saldar os primeiros investidores com o dinheiro os que ingressam a seguir. Mas, mais cedo ou mais tarde qualquer regime deste tipo entrará em colapso, quando a demanda dos investidores existentes ultrapassar o dinheiro que entra por meio de novos aplicadores. O esquema de Ponzi durou um ano. O de Madoff pode ter se estendido por todo o período do fim da década de 1980 até 2008, quando veio a maior implosão financeira desde os anos 30, todo mundo quis seu dinheiro de volta e o mercado quebrou. Assim, Madoff atuou por tanto tempo que muitos de seus clientes fizeram de fato belos lucros, desfrutando de retornos que invariavelmente superaram até os polpudos índices de mercado desses anos. Habilmente entanto, ele parece ter tido o cuidado de não superar os outros em excesso, o que permitiu que sua credibilidade se mantivesse. Madoff como espelho dos EUA Inc Para os clientes - muitos dos quais eram seus amigos –, e as entidades beneficientes que mantinham, ele não era um vigarista: era simplesmente um administrador financeiro apenas um pouco melhor  que seus pares. Como todos os investidores ao longo dos tempos, eles queriam as informações de cocheira, e acreditavam que Madoff dispunha delas. A natureza reservada e boca-a-boca de seu procedimento apenas incrementava seu fascínio. Mas no final mesmo um esquema tão esperto não poderia desafiar a lei da gravidade financeira. E, em muitos aspectos, a ascensão e queda de Bernard Madoff é um espelho daquela dos EUA Inc. O setor financeiro tornou-se a força motriz da economia americana numa escala que no mundo desenvolvido só teve paralelo na Grã-Bretanha. O dinheiro, não a manufatura, é onde estão as riquezas. O setor financeiro gerou enormes lucros, salários e gratificações, mesmo com o resto da economia estagnado. Arquitetou-se esquemas tão sofisticados que pareciam extrair dinheiro do ar. A barafunda dos subprimes que detonou a crise atual foi pouco mais que um esquema Ponzi. Os primeiros envolvidos - os agentes e corretores hipotecários, as pessoas que amealharam créditos duvidosos - se deram fantasticamente bem. Os retardatários, que ficaram com os títulos micados na mão na hora em que a música parou, perderam até suas camisas. Todo o castelo de cartas estava erguido sobre um mito, de que o valor das propriedade iria subir para sempre – tal e qual os miraculosos dividendos de Ponzi supostamente durariam toda a eternidade. Para facilitar as coisas, havia dinheiro fácil e uma regulamentação permissiva, promovida não apenas pelo fútil George Bush, mas pela administração Clinton antes dele. O credo de Gordon Gekko do credo, ''A ganância é boa'', que resumiu a Wall Street dos anos 1980, transmutou-se sem problemas no mantra de Bush, de que o mercado tem sempre razão. Os sinais de alarme sobre as operações de Madoff datam de uma década atrás, mas a Securities and Exchange Commission (SEC), a instituição supostamente incumbida de ser a guardiã dos mercados, não fez nada. A própria SEC admite que seu desempenho foi uma vergonha. Também neste sentido, a história de Bernard Madoff é a história de nossa época. ''Você pode ir em frente, mas não voltar'' Mas o que vai mudar? Haverá som e fúria no Congresso, e muitas mãos a se esfregarem. Belos livros serão escritos também, e o brado de ''nunca mais'' subirá aos céus. Mas coisas semelhantes vão voltar a acontecer. Mais cedo ou mais tarde, os mercados decolarão uma vez mais, e novos Madoffs virão junto. Tanto os orquestradores de fraudes como aqueles que vão atrás deles são movidos por forças que nenhuma legislação controla. Investidores, até veneráveis bancos e casas financeiras que se presume que saibam das coisas, sempre hão de ser dominados pelo instinto de rebanho, pela compulsão do dinheirinho fácil e a capacidade de esquecer a antiga verdade: quando algo parece bom demais para ser verdade, é isso mesmo. O autor da fraude é impulsionado por uma dinâmica igualmente irresistível. Já abundam teorias sobre Madoff - como ele foi capaz de ''compartimentar'' sua vida, parecendo absolutamente normal apesar do enorme stress interno derivado da vigarice. Talvez ele pensasse que era mais esperto que todos os outros. Talvez fosse era apenas um apostador por natureza. Mas a dinâmica básica é a mais simples possível. No filme de suspense Transiberian há uma frase maravilhosa, dita por um policial russo anti-drogas: ''Você pode ir em frente neste mundo com mentiras, mas não pode voltar''. Em outras palavras, uma vez que inicia um esquema fraudulento, é impossível parar. Bernie Ebbers, da WorldCom, Jeffrey Skilling e o resto da gangue da Enron, que se autodenominavam ''os caras mais inteligente do pedaço'', e mesmo o caçula Roberto Calvi do Banco Ambrosiano, precocemente - todos foram presas de suas próprias fraudes. E sem dúvida foi este o caso de Bernard Madoff. Depois que começou, não tinha escapatória. As partículas radioativas; uma por uma, as vítimas aparecem: Steven Spielberg: a Fundação Wunderkinder, entidade beneficiente do diretor do filme ET, perdeu com Madoff uma quantia não revelada. Nicola Horlick: chamada de supermulher por equilibrar cinco filhos com uma carreira na City [a rua das finanças em Londres]; seu fundo, o Bramdean, estava entre  os primeiros a declarar prejuízos devido a Madoff, da ordem de US$ 14 milhões. Emilio Botín: chefe do banco espanhol Santander, que perdeu mais de US$ 2,8 bilhões com Madoff;  depois do Santander, proprietário da Abadia, ter sido escolhido como ''banco do ano'', em julho, Botin proferiu um discurso sobre como ser um bom banqueiro, dizendo: ''Se você não entender um instrumento, não o compre''. Arpad Busson: o suave playboy dos hedge funds, atualmente comprometido com Uma Thurman; tinha US$ 1200 milhões investidos com Madoff. Mort Zuckerman: o dono do New York's' Daily News perdeu US$ 30 milhões a partir de sua fundação beneficiente; planeja processar Madoff. Christopher Cox: o presidente do órgão regulador, a Securities and Exchange Commission, amplamente criticada por não ter detectado a multibilionária fraude. Fonte: The Independent; intertítulos do Vermelho

21 de dezembro de 2008

A juventude grega vai à luta

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Fonte: Portal Vermelho. 

Dirigente do PC passa em revista a rebelião dos jovens gregos

Em entrevista ao programa, In Orbit, da rádio AM venezuelana YVKE Mundo, o dirigente  Partido Comunista da Grécia Babis Angurakis comenta a rebelião da juventude grega: ''O crescimento deste movimento é um grande perigo para o governo da Grécia e também para os países europeus, e assim tentam dar a impressão de que não é realmente um movimento social e político, mas outra coisa.'' 
Angurakis: proteto pode ganhar a Europa
In Orbit:  Assistindo aos principais meios de comunicação é quase impossível compreender o que se passa na Grécia, porque pintam a situação como se milhares de anarquistas tinham saído subitamente às ruas para semear o caos. Quais são realmente os componentes desta crise?
Babis Angurakis: É verdade. Essa sensação não é apenas internacional, a mesma coisa acontece na Grécia. Existe uma clara tentativa por parte dos principais meios de comunicação e dos partidos políticos da burguesia na Grécia de dar a impressão de que todo o problema são os ataques com coquetéis molotov contra as lojas, nada mais. A idéia é que todo o protesto é só contra o policial isolado que assassinou um jovem há pouco mais de uma semana. 
A realidade é completamente diferente. Esta forma de cobrir os eventos responde ao desejo de evitar a profunda consciência política e o desenvolvimento de um grande movimento antiimperialista, necessário em nosso país. Como essas forças, a mídia eo governo, não podiam ignorar o conflito social e o confronto social, tentam dar a impressão de que tudo não passa de grupos anarquistas, ataques a lojas e bancos. 
A verdade é que os grupos que estão gerando vandalismo em Atenas, não têm nenhuma relação com o movimento dos anarquistas, comunistas, ou antiimperialistas. São grupos bem conhecidos na Grécia há muitos anos: em todas as grandes manifestações e antiimperialistas – e temos várias todo ano, diante da embaixada os EUA, com milhares de pessoas –, em todas estas manifestações esses grupos usam coquetéis molotov, e se indispõem com o povo. 
É o que acontece agora em Atenas. A novidade é que eles estão recebendo uma enorme cobertura internacional, por diferentes motivos. Na França, por exemplo, como se sabe, o governo reacionário de direita enfrenta uma enorme mobilização estudantil contra a privatização das escolas. O mesmo é verdade para a Alemanha, Itália e Espanha. E dado que o movimento na Grécia tem uma longa tradição de luta contra a privatização da educação, estamos convencidos de que vários governos de direita na Europa têm medo de qu os protestos na Grécia sejam apoiados por movimentos semelhantes em seus países. 
Esta é a explicação, e repito, há uma tentativa de ocultar a natureza do movimento, que é antiimperialista, são as demandas sociais. Toda essa ação busca isolar o movimento juvenil do movimento operário, exatamente contra o que o nosso partido está lutando. Naturalmente, rejeitamos qualquer ato de destruição e condenamos o vandalismo. O que dizemos é que o movimento deve permanecer ligado à classe trabalhadora.
In Orbit: É impressionante ver pessoas tão jovens, de 15, 16 anos, nas ruas, lutando, com um discurso político, com reivindicações. A frase que mais repetem é que eles não vêem futuro.
Angurakis: Não é só que eles não vêem futuro, esse é um problema geral em toda a Europa, Oriental e Ocidental. Acreditamos que a diferença na Grécia é que temos um movimento juvenil que tem organizado grandes batalhas no passado recente, com exigências muito avançadas quanto à educação. O crescimento deste movimento é um grande perigo para o governo da Grécia e também para os países europeus, e assim tentam dar a impressão de que não é realmente um movimento social e político, mas outra coisa. Por outro lado, você tem razão: os jovens têm medo do futuro; mas sabem que a única solução para o problema deles é a luta política e a organização antiimperialista.
In Orbit:  Desde os anos 90, o movimento trabalhista na Europa, as centrais sindicais e partidos de esquerda se enfraqueceram, entraram na defensiva, perdendo cada vez mais terreno. Como é o movimento operário grego atual e como se articula com os estudantes?
Angurakis: É verdade, mas isso não é uma situação geral, ou digamos que há exceções. Na Grécia, em Portugal, temos sindicatos e partidos comunistas da classe bastante fortes. Acreditamos que isso ajuda muito o movimento juvenil. 
O fato é que nos principais países europeus havia um consenso entre a social-democracia e os governos de direita, em implementar medidas muito antipopulares, principalmente as do chamado Tratado de Maastricht. Por isso os sindicatos e partidos de esquerda perderam credibilidade e não conseguem responder a esses graves ataques que estão acontecendo hoje na Europa. 
No nosso país é diferente. É verdade que a maior parte do movimento sindical, controlada pelos sociais-democratas, porque tivemos um governo social-democrata durante 20 anos, tentou criar a mesma situação aqui, com a colaboração de outros partidos da esquerda européia, visando evitar a luta de classe e qualquer ação contra a política dominante.
Nosso partido lutou contra estas políticas por muitos anos, com os camponeses, estudantes, a classe operária... tentando mobilizar as pessoas. Pensamos que agora estamos obtendo alguns resultados positivos neste sentido e que é exatamente isso que assusta a classe dominante na Grécia e na Europa, em Portugal, Grécia, Espanha, mas também na Itália, novos setores da classe operária saem às nas ruas e se reencontram com a luta de classe, o que pode ser muito perigoso para a classe dominante na Europa, devido à crise econômica.
In Orbit:  A crise econômica tem impacto na sociedade grega, na taxa de desemprego, etc?
Angurakis: Sim, especialmente porque gera incertezas sobre o futuro. A Grécia teve nos últimos cinco ou seis anos um crescimento bastante elevado do produto interno bruto, cerca de 4%. Hoje está claro que o próximo ano será inferior a 1%. Em segundo lugar, a taxa de desemprego tradicionalmente têm tido elevada, mas no futuro as coisas serão muito piores, especialmente entre os universitários. 
In Orbit: Você vê aí algo parecido co movimento de maio de 1968 na Europa?
Angurakis: Não, não penso assim. As coisas são completamente diferentes. Quero dizer, há muitos aspectos diferentes. 
O mais importante é que maio de 68 foi um movimento otimista. Já agora o grande problema da nova geração na Europa – e esta é a explicação da violência na Grécia, Itália, Espanha e outros países –, é que ela tem a certeza de que sua vida será muito pior que a dos seus pais. É isso que torna as pessoas tão desesperadas. E, evidentemente, outra diferença é que agora os sindicatos nem sequer apóiam a luta dos jovens, porque eles ajudaram a implementar as políticas governamentais dos países europeus, de modo a que os jovens estão buscando novas formas de organização. E o último elemento, que achamos muito importante, é que qualquer pessoa que desafie o sistema, questionando o capitalismo e buscando novos caminhos, é tachado mais ou menos de terrorista, de criminoso. Este é o resultado de uma enorme campanha anticomunista que a Europa enfrenta nesta fase e que torna as coisas muito diferentes do que eram em 68.
In Orbit: Em uma situação tão explosiva quanto a um, e tendo em conta o grande número de trabalhadores imigrantes na Europa, como você acredita que é possível evitar uma onda de racismo e do fascismo, que é o recurso do capitalismo quando está desesperado?
Angurakis: Você está certo. Existem tais tentativas de jogar a culpa de todos os problemas nos imigrantes. Mas o interessante, e talvez esta seja uma lição da história, em Atenas, é que nesta luta que estamos vivendo ninguém tem questionado os imigrantes, apesar de termos um número muito elevado de trabalhadores estrangeiros: nos últimos 10 anos chegaram à Grécia mais de um milhão de trabalhadores estrangeiros, 10% da população da Grécia. E existem forças racistas e fascistas, mas, na presente crise ninguém usa este argumento. 
Na Grécia, a tarefa que assumimos no Partido Comunista foi organizar os imigrantes nos sindicatos. É um caminho muito difícil, mas colhemos alguns sucessos, e pensamos que ele é a única solução para evitar esse perigo de que você fala. 
In Orbit:  Você acredita que é possível que esta crise social e econômica, resulte em uma crise política? O primeiro-ministro Costas Caramanlis até pediu desculpas por casos de corrupção no governo dele...
Angurakis: Parabéns! Você está muito bem informado sobre o que se passa na Grécia. Em qualquer caso, deve saber que o problema os social-democratas não são uma alternativa; por isso não há muito apoio para a demanda de George Papandreou, o líder social-democrata, que está pede novas eleições. 
Em todo caso, esta situação já abalou o governo, existem sondagens de opinião que confirmam isto. 
Por outro lado, temos de ser realistas. Esse jeito do governo tentar gerir a crise, pintando uma grande ameaça para o país, pode levar algumas pessoas para posições mais conservadoras. Isso ocorreu dois anos atrás, quando tivemos grandes incêndios e pensámos que o governo perderia a maioria, jea que a direita não resolveu o problema: tivemos eleições mas o partido da direita voltou a ganhar. Por isso é demasiado cedo para tirar conclusões sobre se o governo de direita vai perder a maioria ou não.
In Orbit:  Nas eleições parlamentares de 2007 o PC da Grécia teve mais de 8% dos votos, o que é muito para um Partido Comunista sozinho. Você vê a possibilidade de chegar a um ponto de ruptura do bipartidarismo na Grécia?
Angurakis: O sistema bipartidário está esfrangalhado, esta é uma realidade. Os votos dos dois principais partidos, o da direita e o social-democrata, não são suficientes para governar Grécia. 
A questão é como construir um forte movimento antiimperialista  e anticapitalista, que garanta que, quando ocorram as eleições, os votos não retornem aos dois principais partidos. Para nós, não é apenas uma questão de quebrar o sistema bipartidário, porque, em geral, se olharmos para a Europa, você verá que todos os partidos políticos tradicionais, neoliberais, conservadores e social-democratas estão perdendo influência sobre o povo, e é por isso que temos uma fraquíssima participação nas eleições.
O problema é saber como construir uma ampla maioria em favor de mudanças radicais, anticapitalistas, com um sentido popular e antiimperialista, como é o caso da Venezuela, por exemplo. Porque pensamos que só com estas políticas se pode resolver os problemas colocados pela juventude e da classe trabalhadora. Eu diria que, sem se impor condições à União Européia, ao capital monopolista e às grandes empresas capitalistas, nenhuma das demandas pode ser resolvida e a situação vai continuar. 
In Orbit: Imagine que o Partido Comunista ganhe uma eleição amanhã e chegue ao poder. O que faria mudar a situação? Qual seria a agenda de um governo comunista na Grécia?
Angurakis: Faz muito tempo que lutamos e dizemos às pessoas que, para resolver os problemas, precisamos de uma economia apoiada numa base social. Uma economia que tem determinados objetivos e prioridades, como educação, saúde, progresso social. 
Mas, para ter uma economia como esta, temos de socializar os meios de produção. Se você não toca no grande monopólio, nada é possível. Estamos lutando pela socialização dos grandes meios de produção, peloo controle popular sobre eles, a fim de ter os recursos necessários para lançar o programa social de que o povo e o país necessitam. E, claro, achamos que vamos enfrentar um grande ataque da parte da União Européia e dos  imperialismo dos Estados Unidos. Nosso povo deve estar preparado para isso. É por isso acho que precisamos de novas formas de organização e novas alianças políticas, que nos permitam enfrentar uma situação semelhante.
In Orbit: O que a Grécia, berço da democracia, pensa sobre a qualidade democrática da Venezuela, e sobre a integração latino-americana, a proposta de uma moeda única, tendo em conta a experiência da Europa?
Angurakis: Cabe ao povo venezuelano decidir o que é melhor para seu país. Mas posso dizer-lhe agora que o grau de democracia na Venezuela é muito superior ao presente na Grécia capitalista. E, acreditem-me, por isso, o grau de democracia não é uma questão de quantos partidos políticos existem. A questão principal é saber se o padrão de vida da maioria melhora ou piora, este é o último critério. 
Para falar da Grécia Antiga e do país onde a democracia nasceu, era exatamente esse o critério para julgar qualquer governo na Grécia antiga: se a maioria vivia melhor ou pior, nada mais. 
No que diz respeito à Grécia, tivemos a monarquia a junta militar, a república presidencial. A diferença do sistema político é e em que medida a classe trabalhadora e os jovens podem realmente participar na tomada de decisões que afetam suas vidas. 
Temos certeza de que as forças do progresso socialista na Venezuela vão encontrar a melhor solução para continuar, digo-o abertamente, o processo da revolução bolivariana, que é muito importante, não só para a América Latina, é muito importante aqui na Europa. Se as coisas estão se mexendo um pouco na Europa, isso também se deve ao fato de que a experiência da Venezuela é inspiradora para muitas pessoas aqui.
No que diz respeito à integração, são coisas completamente diferentes [do cenário europeu]. Por isso que nos congratulamos com o que acontece na América Latina em termos de integração regional. Porque ali nossa impressão é que se trata de uma cooperação em bases igualitárias, onde todos os países têm os mesmos deveres e direitos.
Não é este o caso da chamada ''integração européia'' . Aqui na Europa temos dois ou três grandes países que ditam as condições a todos os demais, e isso é considerado normal. Porque esta é uma integração ditada pelos interesses do grande capital monopolista e das grandes empresas. Essa é a grande diferença entre o processo de integração europeu e o que está acontecendo na América Latina. Em segundo lugar, esperamos que a integração latino-americana irá servir às necessidades da sociedade. Na Europa, esta integração serve apenas às grandes empresas, e seu resultado está se vendo agora na Grécia e noutros países.
Tomado de http://www.rebelion.org 

19 de dezembro de 2008

Vice-campeã em desigualdade social

2 comentários:
 A cidade do Crato (onde eu resido) é a vice-campeã do Ceará em desigualdade social e a 38ª do Brasil! 
Deu no Diário do Nordeste (dados do IBGE): 
"Desigualdade O município com maior desigualdade no Ceará, medida pelo índice de Gini, é Fortaleza, ocupando o 12º lugar no País. Em segundo lugar no Estado, figura o Crato (o 38º no ranking nacional), seguido por Santana do Cariri (65º), Sobral (73º) e Brejo Santo (117º). No Brasil, a cidade com maior desigualdade era Parati (RJ), enquanto a menor era Lajeado Grande (SC)." 
Leia na íntegra: 
Lembrando, o Brasil tem mais de 5000 municípios!
Por outro lado:  "Dos 14 municípios com menor incidência de pobreza, após a liderança de São João do Jaguaribe, Limoeiro do Norte é o segundo com 39,9% da população vivendo na pobreza, seguido por Tabuleiro do Norte (41%), Icapuí (41%), Fortaleza (43,2%), Crato (44,3%), Russas (45,2%), Quiterianópolis (47,4%), Ibiapina (48,7%), Aracati (48,8%), Jaguaribe (49,2%), Aurora (49,2%), Sobral (49,3%) e Alcântaras (49,5%)."  (Fonte: Diário do Nordeste)  Ou seja, é um dos municípios do Ceará com menos pobres na sua população, 44,3%.  Se o Crato tem perto de 110 mil habitantes, temos mais ou menos 48500 pessoas que vivem por mês com menos de 100 reais. Ao mesmo tempo é um dos campeões da desigualdade social.

Discussão sobre Trotsky

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Um documento de Manuel Urbano Rodrigues faz uma análise interessante sobre Leon Trotsky. 
Está no site do PCB. Clique aqui para ter acesso.  
Um pequeno aperitivo: 
"Paradoxalmente, Trotsky continua a ser um tema que fascina muitos intelectuais da burguesia,
alguns progressistas, e dezenas de organizações trotskistas na Europa e sobretudo na
América Latina.
Sobre o homem e a obra não foram nas últimas décadas publicados livros importantes que
acrescentem algo de significante aos produzidos pelos seus biógrafos, nomeadamente a
trilogia do Historiador polaco Isaac Deutscher.
Nem um só dos partidos e movimentos trotskistas conseguiu afirmar-se como força politica com
influência real no rumo de qualquer país.
Porquê então a tenaz sobrevivência, não direi do trotskismo, mas do nome e de algumas teses
do seu criador no debate de ideias contemporâneo? Isso não obstante ser hoje pouco
frequente a reedição dos seus livros.
A contradição encaminha para uma conclusão: uma percentagem ponderável dos modernos
trotskistas desconhece a obra teórica e a trajectória politica de Trotsky.
Cabe chamar a atenção para o facto de a maioria dos intelectuais burgueses das grandes
universidades do Ocidente que assumem a defesa e a apologia da intervenção de Trotsky na
História serem anticomunistas." 

As intenções de Obama...

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 Charge de Duke para O Tempo 

16 de dezembro de 2008

Eu digo não!

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Existem pessoas que são indispensáveis, já dizia o poeta. Existem pessoas que lutam e não abandonam o que é justo, o que é correto.  Sabem que há um preço a pagar mas não se rendem.   
Nem todas são assim. Se o fossem, o mundo não seria do jeito que é. Parece puro idealismo mas não é.  
Tudo tem a hora certa. É preciso saber dizer sim, mas é preciso saber dizer não. Alguns não conseguem.  Não resistem.
 Se vendem e se entregam ao que há de mais podre.  E é por tão pouco... 
Outros fingem resistir e inventam desculpas, as mais tacanhas para defenderem o que há de mais mesquinho. 
Mas esses passam. A História reserva um lugar que sabemos qual é. 
O lixo da História. 
O que importa são os que lutam e não se entregam. Existe muita Olga Benário, Che Guevara, Fucik, Ho Chi Min, Niemeyer, Saramago, Fidel, Evo e muitos outros por aí.  A estes, rendo a minha homenagem, citando Eduardo Galeano na introdução de seu livro Nós dizemos não
"Nós dizemos não ao medo. Não ao medo de dizer, ao medo de fazer, ao medo de ser. O colonialismo visível proíbe dizer, proíbe fazer, proíbe ser. 
O colonialismo invisível, mais eficaz, nos convence de que não se pode dizer, não se pode fazer, não se pode ser. 
O medo se disfarça em realismo: para que a realidade não seja irreal, dizem os ideólogos da impotência, a moral haverá de ser imoral.  Frente à indignidade, frente à miséria, frente à mentira, não temos outro remédio além da resignação. 
(...) 
E neste estado de coisas, nós dizemos não à neutralidade da palavra humana. Dizemos não aos que nos convidam a lavar as mãos perante as cotidianas crucificações que ocorrem ao nosso redor.
(...) 
Seria bela a beleza, se não fosse justa? Seria justa a justiça, se não fosse bela? 
Nós dizemos não ao divórcio entre a beleza e a justiça, porque dizemos sim ao seu abraço poderoso e fecundo. 
Acontece que nós dizemos não, e dizendo não estamos dizendo sim. 
Dizendo não às ditaduras, e não às ditaduras disfarçadas de democracias, nós estamos dizendo sim à luta pela democracia verdadeira, que a ninguem negará o pão e a palavra, e que será bela e perigosa como um poema de Neruda ou uma canção de Violeta Parra. (...) 
Dizendo não à paz sem dignidade, nós estamos dizendo sim ao sagrado direito de rebelião contra a injustiça e contra sua longa história, longa como a história da resistência popular no longo mapa do Chile."         
Eu conheço alguns que sabem dizer o não na hora certa. E você? Conhece alguém assim?          
 

15 de dezembro de 2008

O que move o mercado

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Texto de Delfim Netto com uma avaliação sobre a crise capitalista, para o site da Revista Carta Capital, que reproduzo aqui: 
"Quando os homens se reúnem para cumprir qualquer objetivo, nasce espontaneamente uma certa divisão de tarefas que leva à especialização e aumenta a produtividade de cada um. Já em A República, Platão (no terceiro século a.C.) mostra a necessidade da divisão do trabalho e da especialização para produzir os bens e serviços que levarão ao bem-estar da sociedade. E sugere que isso deve ser facilitado com o uso dos mercados e de uma moeda que torne possíveis as trocas. Depois dele, todos os curiosos que cuidaram dos problemas econômicos (no Ocidente e no Oriente) chamaram a atenção para os mesmos fatores. 
Foi com Adam Smith (em 1776) que a divisão do trabalho se transformou, definitivamente, na explicação do próprio processo de desenvolvimento econômico. A partir daí, nunca mais os economistas deixaram de lado as condições que o propiciam: os estímulos à incorporação do conhecimento científico e tecnológico no sistema produtivo, a construção de uma unidade monetária com valor estável e o uso cada vez maior dos mercados. 
A pesquisa dos fatores que produzem o desenvolvimento econômico abriu várias avenidas para a nação dos economistas. Acabaram na diáspora que hoje os separa em várias tribos. O lamentável é que a mais influente delas (que ocupa os nossos livros didáticos e condiciona a formação dos nossos economistas) tenha esquecido a velha lição do historiador e general Xenofonte (contemporâneo de Platão), que ligava a divisão do trabalho (e o aumento da especialização que ela produz) ao crescimento das aglomerações urbanas e sugeria que estas alteram a natureza da demanda dos bens e serviços. Talvez tenha sido a primeira intuição da verdade afirmada por Smith, de que a “divisão do trabalho é limitada pelo tamanho do mercado”, da qual muitos economistas se recusam a tirar as conseqüências. Ignoram a forte ligação entre a divisão do trabalho e a especialização produzidas pela urbanização e, principalmente, pela industrialização e o aumento da produtividade do trabalho, ou seja, o próprio desenvolvimento econômico. 
Como é evidente, a visão da evolução social aqui exposta recusa as grandes filosofias da História, com suas elegantes e inevitáveis leis do desenvolvimento. A ordem social é o resultado não intencional da cooperação entre indivíduos com a mesma necessidade e com conhecimentos e habilidades limitados, que procuram seus próprios interesses em um sistema de trocas entre si. Um fato muito interessante é que os economistas nunca exploraram o que está por trás dessa possibilidade de organização social e econômica. Ou seja, a necessária confiança de cada um no comportamento de todos os outros. Nas aulas de Sociologia do grande professor Herando Barbuy, na FEA/USP, nas memoráveis manhãs dos sábados de 1948, aprendi que foram Durkheim (1857-1917) e Georg Simmel (1858-1918), dois sociólogos com algum envolvimento em problemas econômicos, que pensaram o assunto. Para o primeiro, a confiança seria uma espécie de elemento pré-contratual da vida social ou a base da solidariedade que a constrói. O segundo (autor de um célebre trabalho de 1900 sobre a moeda, mas só traduzido para o inglês em 1978) tratou a confiança como uma categoria analítica. Para ele, a estabilidade monetária era fundamental para a escolha racional dos indivíduos no mercado – compatível com a liberdade individual – e produto não intencional da confiança criada no próprio processo de desenvolvimento social. A instituição moeda transcende, portanto, as estreitas funções que lhe atribuíam os economistas: unidade de conta, meio de troca e reserva de valor. A confiança e a moeda dela decorrente eram a base sobre a qual se assentava todo o funcionamento da economia de mercado. 
A dificuldade de se entender a crise que estamos vivendo decorre de ignorarmos o papel fundamental da morte da confiança, que liga o principal (o que confia) ao agente (em quem ele confiava). Ela foi destruída pela política monetária laxista dos bancos centrais, que surfaram no aumento da liquidez enquanto fingiam acreditar que os economistas-financeiros haviam descoberto equações diferenciais estocásticas capazes de precificar corretamente os riscos. 
Hoje, todos já deveriam saber que a confiança é parte importante do capital social. É ela que acelera o desenvolvimento, diminui os custos de transação e os custos de substitutos (como o monitoramento regulatório legal), que reduzem a eficiência dos mercados. Infelizmente, não é isso o que revela a pobreza do verbete Trust in experiments da nova e formidável edição de The New Palgrave Dictionary of Economics (2008)."

Do socialismo científico ao socialismo utópico

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Do site da Agência Carta Maior, reproduzo artigo de Flávio Aguiar.

Do socialismo científico ao socialismo utópico

"Sob os escombros do socialismo ainda jaz a única esperança para que a humanidade não se destrua. O que jaz sob esses escombros é, sobretudo, a mensagem ética da construção de uma melhor página para a história humana, com suas contradições e limites.

“O Capital”, de Karl Marx, compartilha com a Bíblia, além de questões de estilo, editoração, exegeses interpretativas e até propósitos, um destino peculiar: é livro muito citado e pouco lido. Os da minha geração que começamos a sua leitura fomos muito poucos; os que, além disso, passamos do primeiro volume, menos ainda. Explica-se: o primeiro livro foi o único de fato aprontado e revisto pelo próprio Marx. Os outros foram publicados postumamente. Apesar do nobre esforço editorial de Engels, os livros posteriores ao primeiro são mais descosidos e de leitura mais árdua.

O nosso catecismo doutrinário, o nosso Vade-Mecum, foi o pequeno livro de Engels, “Do socialismo utópico ao socialismo científico”. Ele era um excerto de outro, o Anti-Dühring, mas continha informação suficiente para dele se extrair uma visão geral do processo histórico de formação do proletariado e da burguesia da Europa, de como se chegou às grandes revoltas operárias do século XIX, e de como se forjaram as propostas do socialismo marxista.

Tínhamos uma tendência a ler tudo em preto e branco, e com um mínimo de nuances. Assim fizemos uma leitura algo positivista (na melhor tradição brasileira) do livro. Esse modo de lê-lo começava por tomar suas descrições como a da linha civilizatória por excelência. A formação da moderna luta de classes na Europa era “a” formação histórica por excelência, algo assim como na nossa infância, ao brincarmos com aqueles tijolinhos coloridos com que montávamos um burgo de aspecto europeu e medieval, construíamos sem querer nas nossas almas um modelo ideal de cidade. Durante muito tempo tudo o mais em estilo urbano nos pareceria necessariamente um desalinho do modelo original. Estendendo a metáfora, podemos entender porque até hoje existe uma resistência muito grande, tanto aí como aqui, na Europa, a aceitar o atual processo latino-americano como algo de fato original que está levantando desafios e propostas não previstos nos modelos originais.

O segundo passo daquela leitura era o de fazermos uma leitura, por assim dizer, em linha reta. Víamos o livro apenas a partir de seu ponto de chegada, a inevitabilidade do processo histórico que levava à grande revolução proletária e à liderança pelo socialismo que (até de um modo um tanto positivista...) reivindicava sua própria cientificidade. Tudo o mais que o livro continha era levado de roldão por esse verdadeiro turbilhão da história, nele se dissolvendo como uma espécie de bagaço cujo sumo fora entregue para a nova garapa de onde sairia o melaço que, fermentado e destilado, daria origem à nova sociedade. Literalmente nos embriagamos com tais visões; os mais ousados, os mais generosos até, chegaram a ofertar suas vidas nessa espécie de embriagues coletiva, uma vez que tudo era inevitável, e apocalipticamente a história socialista nos redimiria.

Foi um porre. Generoso, inesquecível, quem nele bebeu jamais se esquecerá. Mas foi um, afinal, um porre, de onde muitos, na ressaca, saíram arrependidos pela culatra de suas armas mentais, aderindo ao vai-da-valsa que se instalou quando o socialismo desabou no mundo inteiro, exceto em Cuba e em muitos corações e mentes sobreviventes.

Naquela leitura em que se via a história como um ciclone que tudo arrebatava e redimia, nos escaparam (a mim pelo menos) certas finuras do texto do Engels em que, revisitado anos depois, elas rebrilham com intenso e inusitado fulgor.

Assim em toda a primeira parte do texto, que líamos apenas como a cabal demonstração da pobre insuficiência dos proclamados “utópicos”, refulge hoje a comovente homenagem ética que Engels faz a Robert Owen, Charles Fourier e ao Conde Saint-Simon. Querendo demonstrar que eles não tinham condições materiais ou espirituais para imaginar a cientificidade do socialismo, Engels põe em destaque as extraordinárias pilastras éticas que levaram esses “precursores do marxismo” a enveredar pelos caminhos que escolheram, movidos pela generosidade, pelo espírito cívico, por acreditar de fato nos valores levantados pelas grandes revoluções européias dos séculos XVII e XVIII como patrimônio da humanidade, e não apenas como arrimo do assalto ao poder por uma determinada classe emergente, a burguesa.

Essa releitura hoje é obrigatória, tanto quanto a outra o era 40 ou 50 anos atrás. A cientificidade de índole positivista, grudada no marxismo como chicle na sola do sapato, caiu, junto com a inevitabilidade do rumo socialista. Derrubou-a não só a queda do Muro de Berlim e o desmembramento da União Soviética. Derrubou-a também a falência interna do mundo comunista na construção daquilo que seria a sua quintessência: o novo homem, o homem do futuro. O socialismo de resultados que emergiu da práxis do socialismo científico pariu ratos que hoje devoram, como máfias organizadas, o que restou entre os escombros dos sonhos mais generosos que a humanidade já ergueu e destruiu. Deu muita outra coisa também, é certo, pois sem aquele socialismo o nazi-fascismo não teria sido derrotado, e isso é apenas um exemplo. Sem sua alavanca Cuba não existiria, nem o povo vietnamita teria derrotado a maior potência imperial do mundo.

Mas hoje, a partir do arraso que contemplamos, aqueles primeiros “socialistas utópicos” nos lembram do compromisso ético (que Marx, Engels e tantos outros tinham) indispensável na construção de qualquer nova proposta socialista. Não se trata apenas de uma ética ou de uma questão acadêmicas. Olhemos para os horizontes. Que compromisso ético tinham os jovens que invadiram Mumbai na Índia, atirando a esmo?

Em que eles se diferenciam, do ponto de vista ético, dos adoradores do Mercado? É difícil dizer. Parece que nessa vala comum da destruição da política o único compromisso ético que interessa é aquele com a própria corporação. Na neblina contemporânea é difícil ver além do próprio nariz? Então façamos dele nosso farol, limite e também baluarte ético.

Como se posicionar diante dos acontecimentos na Tailândia, em que grupos se digladiavam misturando posições de um governo corrupto, de um exército que só não assalta de novo o poder porque caiu em descrédito e agentes avançados de um líder midiático, em cujas hostes pululavam desde reivindicações de puros favores pessoais até saudades da fanada monarquia?

A lista de perplexidades é longa, enquanto o tirocínio disponível é curto. É verdade que sob os escombros do socialismo ainda jaz a única esperança para que a humanidade não se destrua, como atesta a presente crise financeira que, mutatis mutandis ao revés, está prevista nas páginas do nosso opúsculo preferido, “Do socialismo utópico ao socialismo científico”. Mas o que jaz sob esses escombros é, sobretudo, a mensagem ética da construção de uma melhor página para a história humana, com suas contradições e limites. Por isso, fica o convite para se reler o livro de Engels, mas de fato dialeticamente, isto é de trás para diante mas também de diante para trás, para que nas contradições que o socialismo científico nos deixou como legado possamos encontrar o perdido, mas não desaparecido, veio da utopia socialista."

Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior.

10 de dezembro de 2008

O ceticismo histórico.

Um comentário:
O ceticismo histórico tão em voga nos dias de hoje é uma das posturas preferidas dos historiadores que estão na onda pós-moderna. Eu que sou um quase moderno porque acredito que nem chegamos à modernidade ainda, fico aqui no meu canto achando estranho e até engraçado a sofreguidão deles que tÊm uma vontade enorme de cair no nada, no individualismo e por fim no niilismo. 
Cito István Mészáros que explica bem esse tipo de postura, a do ceticismo histórico: 
"Assim, o ceticismo histórico, por mais extremo, é absolutamente seletivo em seus diagnósticos e na definição de seus alvos. Pois, se o assunto em questão envolve a possibilidade de vislumbrar transformações estruturais fundamentais, então prega a 'carência de sentido' de nossa situação de apuro e a inelutabilidade da conclusão de que 'se há sentido, ele escapa à nossa percepção'. (...) 
A própria idéia de 'fazer história' é descartada, com franco desdém por todos aqueles que podem ainda aceitá-la, uma vez que a única história que deve ser contemplada é aquela já feita, a qual deve permanecer conosco até o fim dos tempos. (...)
E, finalmente, o resultado irônico de tudo isso no que diz respeito aos historiadores é que também seu próprio empreendimento perde completamente a raison d'être.  Um apuro que eles causam a si mesmos ao tentar destruir o fundamento daqueles que se recusam a abandonar os conceitos intimamente interconectados de 'sujeito histórico',  'fazer história' e 'entender a história', rompendo com isso, necessariamente, também todos os vínculos com os aspectos positivos da tradição filosófica a que pertencem." 
(MÉSZÁROS, István. O desafio e o fardo do tempo histórico: o socialismo no século XXI. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 46-47)
A postura dos que adotam essa posição "cética": 
  • evasão programática dos problemas, 
  • pessimismo e ironia no discurso, 
  • ideologia da carência de sentido, 
  • fragmentação da História. 
   

6 de dezembro de 2008

"Golpistas canalhas".

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Reproduzo artigo de Eduardo Guimarães do site Cidadania.com
(Cópia do site  Viomundo)

EDUARDO GUIMARÃES: "GOLPISTAS CANALHAS"

Atualizado em 06 de dezembro de 2008 às 11:14 | Publicado em 06 de dezembro de 2008 às 11:11

por EDUARDO GUIMARÃES

"Desde o dia 15 de setembro, os brasileiros fomos submetidos a um bombardeio incessante e crescente de más notícias nos jornais, nas revistas, nas tevês, nas rádios, na internet e, em certa medida, até em nosso cotidiano.  Não é por outra razão que pesquisa Datafolha divulgada hoje pelo jornal Folha de São Paulo revelou que 72% da população está ciente da crise econômica internacional.
Desde que a crise se apoderou da mídia, também temos visto duas formas distintas de encará-la. E são essas duas formas o assunto central aqui, pois uma delas derrotou a outra, segundo o Datafolha.
Enquanto que, do lado da mídia e da oposição a Lula, o discurso é o de que a crise mostrará que, ao contrário do que se pensa, o presidente atual é ruim e só conseguiu bons resultados econômicos até aqui porque o mundo vinha em bonança econômica - o que fica cada vez mais claro que era mentira, pois a crise já vem se espalhando pelo mundo há um ano -, do  lado do governo Lula o discurso vinha sendo o de que a crise nos atingirá com muito menos força porque o país está economicamente arrumado.
A pesquisa Datafolha publicada hoje mostra que a popularidade de Lula foi aumentando na medida em que a crise foi se agravando no mundo e, em boa medida, também aqui no Brasil. Mas o que explica esse fenômeno? Não deveria ser o contrário?
A pesquisa em questão deverá servir para acordar a direita brasileira, ainda que no mesmo jornal que divulgou a notícia sobre a aprovação recorde de Lula (70%)  tenha sido divulgado, com destaque, artigo do ex-patrão do mastim da Veja Reinaldo Azevedo, do ex-ministro de FHC  Luiz Carlos "no limite da irresponsabilidade" Mendonça de Barros no qual ele, muito bondosamente,  "aconselha" Lula :
(...)Nestes momentos de insegurança em relação ao futuro, o governo deve liderar, com autoridade e responsabilidade, a sociedade. Tentar enfrentar tempos mais bicudos escondendo da opinião pública a realidade dos fatos sempre acaba muito mal. O presidente Lula e seus ministros estão fazendo uma aposta de alto risco ao vender uma economia que não existe mais.
Quanta bondade do inimigo político de Lula, não? Vocês não ficaram comovidos? Vejam o empenho dele em "ajudar" o presidente...
Aliás, Mendonça de Barros entende muito bem de "Tentar enfrentar tempos mais bicudos escondendo da opinião pública a realidade". Foi seu grupo político que, em 1998, então no poder, vendeu à população a mentira de que não haveria a desvalorização do real que Lula, adversário de FHC na disputa pela Presidência, dizia então que ocorreria de uma forma ou de outra, ainda que depois das eleições. Enfim, foi o PSDB que disse que seria o petista que desvalorizaria a moeda se ele fosse eleito presidente naquele ano.
Lula não está enganando ninguém. Mendonça de Barros sabe disso, FHC sabe disso, a Folha sabe disso, a mídia inteira sabe disso. E a pesquisa Datafolha revela que a parte mentalmente sadia da população também sabe muito bem disso e que essa parte é majoritária no país, respondendo por cerca de 70% do total dos brasileiros.
Ora, mas há, sim, problemas na economia, dirão alguns. E eu responderei que sim, que há problemas sérios, é claro, mas as pessoas têm capacidade de discernimento, pois sabem quanto os problemas que atingem o Brasil são muito mais sérios nos países ricos do que aqui, e sabem como o país está hoje diante de como estão países poderosos e ricos, e sabem, finalmente, que estamos melhor do que a maioria porque o país é bem governado.
Qualquer pessoa mentalmente sadia é capaz de entender que os problemas na economia vêm de fora e que só não são maiores aqui dentro porque o país está bem economicamente. Talvez seja por isso que um dos grupos sociais entre os quais Lula mais melhorou sua avaliação foi entre os mais escolarizados, apesar de que sua aprovação positiva melhorou em todos os setores regionais, por escolaridade, renda, idade e sexo.
E não é só isso: o país também enxerga como a mídia tem que brigar com os fatos para tentar provar que estamos sofrendo e que sofreremos mais do que se pensa.
O país que aprova Lula também demonstra estar politicamente maduro. Vê-se que as pessoas entendem perfeitamente o contexto em que o Brasil está no cenário internacional e sua posição de liderança hoje no mundo.
Todos enxergam mais claramente agora como é ruidoso esse grupo político que se assanhou só porque elegeu um reacionário de direita em São Paulo neste ano, na cidade e no Estado mais reacionários do país. No conjunto da sociedade, porém, essa gente representa pouco. Só fala tão alto porque é dona de meios de comunicação.
Contudo, a maioria esmagadora do país acaba de dar um recado ao Partido da Imprensa Golpista (PIG),  de que não acredita no que ele diz e de que acredita no que diz Lula.
Enfim, para resumir tudo,  usarei agora um dos termos usados ontem por Lula num discurso. São termos que escandalizaram a moça da foto acima e todo o resto da imprensa golpista, sem falar na oposição tucano-pefelenta: todos essa gente "sifu", ou seja, todos eles se deram muito, mas muito mal. O termo "sifu" descreve à perfeição o que aconteceu com esses golpistas canalhas."