29 de abril de 2009

Dom Hélder Câmara.

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"Quando dou de comer aos pobres, me chamam de santo; quando pergunto por que são pobres, me chamam de comunista" - Dom Hélder Câmara. 
Minha homenagem ao centenário de nascimento desse grande homem. 

A pior imprensa do mundo II: a carta não publicada.

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SAIU NO BLOG DO NASSIF. 

DE DILMA ROUSSEFF

Senhor Jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva
Ombudsmann da Folha de São Paulo,

1.    Em 30/03/2009, a jornalista Fernanda Odilla entrevistou-me, por telefone, a pedido do chefe de redação da Folha de São Paulo, em Brasília, Melchíades Filho, acerca das minhas atividades na resistência à ditadura militar.

2.    Naquela ocasião ela me informou que para a realização da matéria jornalística, que foi publicada dia 05/04/09, tinha estado no Superior Tribunal Militar – STM. No entanto, eu soube posteriormente que, com o argumento de pesquisar sobre o Sr. Antonio Espinosa, do qual detinha autorização expressa para tal , aproveitara a oportunidade e pesquisara informações sobre os meus processos, retirando cópias de  documentos que diziam respeito exclusivamente a mim, sem a minha devida autorização

3.    A repórter esteve também no Arquivo Público de São Paulo, onde requereu  pesquisa nos documentos e processos que me mencionavam, relativos ao período em que militei na resistência à ditadura militar. Neste caso, é política do Arquivo de São Paulo disponibilizar livremente todos os dados arquivados e, em caso de fotocópia, autenticar a cópia no verso com os dizeres “confere com o original”, com a data e a assinatura do funcionário responsável pela liberação do documento.

4.    Os documentos pesquisados pela jornalista foram aqueles relativos ao Prontuário nº 76.346 e as OSs 0975 e 0029, sendo também solicitadas extrações de cópias.

5.    Apesar da minha negativa durante a entrevista telefônica de 30/03 sobre minha participação ou meu conhecimento do suposto seqüestro de Delfim Neto, a matéria publicada tinha como título de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro do Delfim”. O título, que não levou em consideração a minha veemente negativa, tem características de “factóide”, uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu. Tal procedimento não parece ser o padrão da Folha de São Paulo.

6.    O mais grave é que o jornal Folha de São Paulo estampou na página A10, acompanhando o texto da reportagem, uma ficha policial falsa sobre mim. Essa falsificação circula pelo menos desde 30 de novembro do ano passado na internet, postada no site www.ternuma.com.br (“terrorismo nunca mais”), atribuindo-me diversas ações que não cometi e pelas quais nunca respondi, nem nos constantes interrogatórios, nem nas sessões de tortura a que fui submetida quando fui presa pela ditadura. Registre-se também que nunca fui denunciada ou processada pelos atos mencionados na ficha falsa.

7.    Após a publicação, questionei por inúmeras vezes a Folha de São Paulo sobre a origem de tal ficha, especificamente o Sr. Melchiades Filho, diretor da sucursal de Brasília. Ele me informou que a jornalista Fernanda Odilla havia obtido a cópia da ficha em processo arquivado no DEOPS – Arquivo Público de São Paulo. Ficou de enviar-me a prova.

8.    Como isso não aconteceu, solicitei formalmente os documentos sob a guarda do Arquivo Público de São Paulo que dizem respeito a minha pessoa e, em especial, cópia da referida ficha. Na pesquisa, não foi encontrada qualquer ficha com o rol de ações como a publicada na edição de 05/04/2009. Cabe destacar que os assaltos e ações armadas que constam da ficha veiculada pela Folha de São Paulo foram de responsabilidade de organizações revolucionárias nas quais não militei. Além disso, elas ocorreram em São Paulo em datas em que eu morava em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro. Ressalte-se que todas essas ações foram objeto de processos judiciais nos quais não fui indiciada e, portanto, não sofri qualquer condenação. Repito, sequer fui interrogada, sob tortura ou não, sobre aqueles fatos.

9.    Mais estranho ainda é que a legenda da ficha publicada pela Folha dizia: “Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu”. Ora, se a Folha sabia que os chamados crimes atribuídos a mim não foram por mim cometidos, por que publicar a ficha? Se optasse pela publicação, como ocorreu, por que não informar ao leitor de onde vinha a certeza da falsidade? Se esta certeza decorria de investigações específicas realizadas pela Folha, por que não informar ao leitor os fatos?

10.    O Arquivo Público de São Paulo também disponibilizou cópia do termo de compromisso assinado pela jornalista quando de sua pesquisa, ficando evidente que a repórter não teve acesso a nenhum processo que tivesse qualquer ficha igual à publicada no jornal.

11.     Mais ainda: a referida não existe em nenhum dos arquivos pesquisados pela jornalista, seja o STM, seja o Arquivo Público de São Paulo. O fato é que até o momento a Folha de São Paulo não conseguiu demonstrar efetivamente a origem do documento.

12.    Considero ainda que a matéria publicada na sexta-feira,17 de março, em que a Folha relata as minhas declarações ao jornalista Eduardo Costa, da rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, não esclarece o cerne da questão sobre a responsabilidade do jornal no lamentável e até agora estranho episódio: de onde veio a ficha que afirmo ser falsa?

13.    Após 21 dias de espera, não acredito ser necessária uma grande investigação para responder à seguintes questões: em que órgão público a Folha de São Paulo obteve a ficha falsa? A quem interessa essa manipulação? Parece-me óbvio que a certeza sobre a origem de documentos publicados como oficiais é um pré-requisito para qualquer publicação responsável.

14.    Transcrevo abaixo o texto literal do termo de responsabilidade assinado pela jornalista em 22/01/09:

“Declaro, para todos os fins de Direito, assumir plena e exclusiva responsabilidade, no âmbito civil e criminal, por quaisquer danos morais ou materiais que possa causar a terceiros a divulgação de informações contidas em documentos por mim examinados e a que eu tenha dado causa. Ficam, portanto, o Governo do Estado de São Paulo e o Arquivo do Estado de São Paulo exonerados de qualquer responsabilidade relativa a esta minha solicitação.

Declaro, ainda, estar ciente da legislação em vigor atinente ao uso de documentos públicos, em especial com relação aos artigos 138 e 145 (calúnia, injúria e difamação) do Código Penal Brasileiro.

Assumo, finalmente, o compromisso de citar a fonte dos documentos (Arquivo do Estado de São Paulo) nos casos de divulgação por qualquer meio (imprensa escrita, radiofônica ou televisiva, internet, livros, teses, etc).” (Cópia em anexo)

15.     Por último, cabe deixar claro que a ficha falsa foi divulgada em vários sites de extrema direita, como: a) Ternuma (Terrorismo Nunca Mais), blog de apoio ao Cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra, ficha falsa postada em 30 de novembro de 2008; b) Coturno Noturno – Blog do Coronel: ficha falsa  postada em 27 de março de 2009 (a ficha está “atualizada” apresentando uma foto atual) (http://coturnonoturno.blogspot.com/2009/04/desta-parte-dilma-lembra-tudo.html). A partir daí, outros sites na internet também divulgaram a ficha: a) http://fórum.hardmob.com.Br/showthread.php; b) http:/www.viomundo.com.Br/blog/dilma-terrorista/

16.    Estou anexando a este memorial cópia de alguns documentos que considero importantes para sua avaliação:

➢    Termo de responsabilidade assinado pela jornalista no Arquivo de SP;

➢    Cópia de fichas onde consta a foto (ou idêntica) à utilizada para montagem da ficha usada pela Folha de São Paulo

➢    Cópia da solicitação da jornalista Fernanda Odilla ao STM de acesso a informações sobre Antonio Espinosa

➢    Autorização do Sr. Antonio Espinosa para acesso aos seus documentos

➢    Termo de Compromisso assinado pela jornalista Fernanda Odilla junto ao STM.

A pior imprensa do mundo.

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 Já podemos afirmar sem medo nenhum de erro. A pior imprensa do mundo é a corporativa, defensora dos interesses empresariais e ligada ao que existe de pior na política: a direita mais corrupta e corruptora que se possa imaginar. 
É o que Paulo Henrique Amorim designou de PIG - Partido da Imprensa Golpista. Tal partido atua em vários níveis, desde a grande imprensa até os jornalecos do interior em que você paga para falarem bem de você mesmo. 
Leia mais um exemplo do "profissionalismo" dessa pior imprensa do mundo. É o caso do "empresário" que teve um grande espaço no site do G1 - Organizações Globo, por atacar o Ministro Joaquim Barbosa. E vejam no final quem é esse "empresário" que recebeu enorme destaque do Globo. 
Mais uma do PIG.    

27 de abril de 2009

Vitória da "Revolução Cidadã".

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Notícia sobre a vitória eleitoral do presidente Rafael Correia, do Equador. Por Leonardo Wexell Severo, enviado do Hora do Povo a Quito 
Equatorianos acompanham apuração

"O povo equatoriano ratificou domingo (26) seu crescente apoio ao processo de transformações encabeçado pelo presidente Rafael Correa e seu Movimento Aliança País. Além de reeleger Correa no primeiro turno – fato que ocorre pela primeira vez em duas décadas -, com cerca de 52% dos votos, contra 28% do segundo colocado, os eleitores deram ao movimento patriótico a ampla maioria dos governos estaduais e municipais, e garantiram as maiores bancadas parlamentares no Congresso Nacional (unicameral), nas Assembléias e Câmaras Legislativas.

Entre as principais conquistas da “Revolução Cidadã” destacam-se a aprovação da Nova Constituição, em 28 de setembro do ano passado - com o fortalecimento do papel do Estado, da soberania nacional e do controle social sobre os setores estratégicos da economia -; a ampliação dos investimentos públicos na saúde, educação, moradia e obras de infraestrutura; a eliminação da terceirização e da intermediação de mão-de-obra e a reorientação da política externa, com a promoção da integração regional - através de organismos como a Unasul -, a suspensão do pagamento dos juros da dívida “ilegal e ilegítima” e a retomada, ainda neste ano, da base naval de Manta, hoje ocupada por tropas estadunidenses. Além disso, o governo decidiu realizar duas auditorias fundamentais para o pleno desenvolvimento da economia e da democracia, passando a limpo a partir de uma análise criteriosa a dívida externa - multiplicada pelos governos anteriores - e as concessões públicas de rádio e televisão, ambas comprovadamente contaminadas pela corrupção.

“Esta revolução está em marcha e nada nem ninguém a detém. Hoje renovamos o nosso compromisso com os mais pobres. Não somos excludentes, mas nosso governo tem uma opção preferencial, para que a Pátria seja, efetivamente, de todos”, afirmou Rafael Correa, logo após a divulgação da primeira pesquisa de boca de urna, que já apontava a vitória por ampla margem. “Precisamos, portanto, fazer com que este imenso capital político se transforme em organização”, enfatizou, pois “a luta é entre o povo e os que seqüestraram, venderam e traíram a Pátria”.

Desde o final da tarde de domingo, milhares de simpatizantes começaram a chegar até a sede da Aliança País, em frente à Tribuna do Parque Carolina, em Quito, para comemorar ao lado de seu presidente a acachapante  derrota imposta à campanha midiático-banqueirista e ao imperialismo norte-americano.

Mídia

Para que o leitor tenha uma idéia do monopólio midiático entrincheirado na oposição a Correa, vale lembrar que, na televisão aberta, 19 famílias ainda controlam 298 das 348  frequências existentes. “Há uma relação incestuosa entre os bancos e os meios de comunicação, especialmente na televisão, onde um dos grandes acionistas do Banco de Pichincha, o maior do país, é proprietário da cadeia Teleamazonas, que detém 43 concessões a nível nacional, além de possuir as revistas Gestión e Diners”, informou o jornalista Eduardo Tamayo, do Fórum Equatoriano de Comunicação.

Um dos compromissos da Aliança País, inscrita na nova Constituição, é precisamente o impedimento à formação de “oligopólio ou monopólio, direto ou indireto, da propriedade dos meios de comunicação e do uso das freqüências”, com expressa proibição às entidades ou grupos financeiros, seus representantes legais, membros da diretoria e acionistas de controlar seu investimento ou patrimônio. Além disso, se estabeleceu um prazo de dois anos para que o setor financeiro se desfaça das ações que possui nos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, se incentiva que na sociedade equatoriana se expressem aqueles que nunca tiveram voz, com o governo fomentando a criação de meios de comunicação públicos e comunitários, os quais são colocados, constitucionalmente, em igualdade de condições com os meios privados.

Evidentemente contrários à boa nova - que ainda está sendo gestada -, os donos das grandes redes de rádio e televisão entraram de corpo e alma na campanha. Mesmo nesta segunda-feira, quando ficou claro que deram novamente com os burros n`água, as emissoras privadas deram destaque especial a oposicionistas e à cantilena do “país dividido”, com “conselhos” e “alertas” ao presidente, a quem acusam de  “prepotente”e “arrogante”.

Comemoração

“Minhas primeiras palavras são de agradecimento ao povo equatoriano e as segundas são para ratificar o compromisso com esta revolução. Diziam que uma vez presidente eu me acalmaria, mas nós estamos aprofundando o processo. Fiquem tranqüilos pois a cada dia que passa vamos avançar mais, não haverá volta atrás. Somos e seremos mais radicais do que nunca na luta pela justiça social”, sublinhou o presidente, dirigindo-se à multidão que se assomava à sede do Aliança País.

 

Com o gigantesco respaldo popular vindo das urnas, lembrou Correa, “derrotamos mais uma vez a tentativa de linchamento midiático contra o nosso governo, levada a cabo por uma imprensa mafiosa, que quer ver crucificados os ladrões de galinha, muitos deles empurrados pela fome, enquanto dá sustentação imoral a banqueiros corruptos. Agora, após vencermos já no primeiro turno, dizem que o país está divido. A verdade é que estamos mais unidos do que nunca”.

 

Rafael Correa ressaltou que “o triunfo não teria sido possível sem o trabalho de milhões de almas, corações e mãos que lutam por esta revolução”, o que nos faz, “reafirmar que é preferível morrer do que perder a vida traindo os princípios e compromissos firmados”.

 

“Alerta, alerta que caminha, a espada de Bolívar pela América Latina”, respondeu a multidão, fazendo tremular bandeiras de Correa ao lado de cartazes de Bolívar, do herói nacional Eloy Alfaro e de Che Guevara.

 

Agradecendo a manifestação de carinho, Rafael pediu a todos que se recordassem dos três milhões de equatorianos que vivem no exterior, “expulsos da sua terra pela pobreza, pela discriminação, pela injustiça da falta de oportunidades” e agradeceu aos jovens que votaram pela primeira vez e aos estrangeiros residentes, que tiveram reconhecido o direito ao voto, da mesma forma que os policiais e militares.

 

“Tínhamos sete candidatos contra o presidente Correa, atacando o governo e as conquistas da revolução. E, do lado deles, a Imprensa corrupta, comprometida com os setores econômicos e políticos oligárquicos, inventando, caluniando e mentindo. Ao mesmo tempo, essa mídia fala em liberdade de expressão. E quanto aos cidadãos, quem os defende das mentiras desta mídia?”, questionou o presidente, sob aplausos.

 

Rafael enfatizou que o momento é de avanço, de ruptura com os anos de atraso e subserviência ao capital estrangeiro e ao sistema financeiro, de traidores que se enriqueciam às custas da miséria nacional. “Hoje temos um país com eleições, onde os cidadãos têm seus direitos políticos, esta é a democracia formal. Mas a democracia real que temos de conquistar só pode ser construída com justiça social. Sem ela não haverá democracia verdadeira. Também não haverá democracia formal que dure. Por isso reafirmo aqui o compromisso de dar minha vida se necessário para construir esta democracia real, um país mais justo no plano social, regional, étnico, com igualdade de gênero. Juntos, vamos construir uma Pátria sem opulência, porém sem esta miséria insultante que nos envergonha. Uma Pátria altiva, soberana, que nos deixe orgulhosos e da qual todos façamos parte. Ratificamos o compromisso de não retroceder jamais. Viva a revolução bolivariana e alfarista. Até a vitória sempre!”." 

 

22 de abril de 2009

Animais não tem rodas.

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E então, por que animais não têm rodas? por Richard Dawkins, publicado no The Sunday Times em Nov/96. 

"A roda é a invenção humana arquetípica, proverbial. Nós não apenas viajamos sobre rodas, são as rodas -- perdoe-me -- que fazem o mundo girar. Desmonte qualquer máquina de complexidade pouco mais que rudimentar e você achará rodas. Navio e hélices de aeronaves, brocas, tornos mecânicos, rodas de oleiros -- nossa tecnologia anda sobre rodas e pararia sem elas.  A roda pode ter sido inventada na Mesopotâmia durante o quarto milênio AC. Nós sabemos que era elusiva o bastante para precisar ser inventada, porque as civilizações do Novo Mundo ainda não a possuíam na época da conquista espanhola. A exceção alegada lá --- brinquedos de crianças -- parece tão estranha a ponto de levantar suspeitas. Poderia ser uma dessas falsas lendas, como a de que esquimós têm 50 palavras para neve, que se espelham unicamente porque é tão memorável?  Sempre que os humanos têm uma idéia boa, os zoologistas ficaram acostumados a encontrá-la antecipada no reino animal. Por que não a roda?  Morcegos e golfinhos aperfeiçoaram sistemas eco-localização sofisticados milhões de anos antes que os engenheiros humanos nos dessem o sonar e o radar. Cobras têm detectores de calor infravermelhos para sentir a presa, antedatando o míssil Sidewinder. Dois grupos de peixe, um no Novo Mundo e um no Velho, desenvolveram independentemente a bateria elétrica, em alguns casos alcançando correntes fortes o bastante para aturdir um homem, em outros casos usando campos elétricos para navegar por água turva. A lula tem jato-propulsão, permitindo-a romper a superfície a 45mph e disparar pelo ar. Grilos têm o megafone, cavando uma buzina dupla no chão para ampliar sua canção já incrivelmente alta. Castores têm a represa, inundando um lago privado para sua própria conduta segura sobre a água.  Fungos desenvolveram o antibiótico (é claro, eles são de onde nós conseguimos a penicilina). Milhões de anos antes de nossa revolução agrícola, formigas plantaram, capinaram e compostaram jardins de fungo. Outras formigas tendem a ordenham o próprio gado de afídeo delas. A evolução Darwiniana aperfeiçoou a agulha hipodérmica (picada de vespa), o bombeamento com válvula (coração), o arpão (dardo de acasalamento do caracol), a vara de pescar (peixe pescador), a pistola de água (peixes arqueiro apontam jatos de água para desalojar insetos de árvores acima), a lente de foco automática, o fotômetro, o termostato, a dobradiça, o relógio e o calendário. Por que não a roda?  Agora, é possível que a roda pareça assim maravilhosa para nós só por contraste com nossas pernas indistintas. Antes de nós termos máquinas dirigidas por combustíveis (energia solar fossilizada), nós éramos ultrapassados facilmente pelas pernas de animais. Não é surpresa que Richard III ofereceu o reino dele por transporte de quatro patas. Nós também revelamos sermos pobres contra corredores de duas pernas, na forma de avestruzes e cangurus.  Talvez a maioria dos animais não se beneficiaria de rodas porque eles podem correr tão rápido com pernas. Afinal de contas, até muito recentemente todos nossos veículos com rodas foram puxados por força de pernas.  Nós desenvolvemos a roda, não para ir mais rápido que um cavalo, mas para permitir a um cavalo nos transportar a seu próprio passo -- ou um pouco menos. A um cavalo, uma roda é algo que reduz a velocidade.  Aqui está outro modo no qual nós arriscamos sobre-estimar a roda. Ela é dependente para eficiência máxima em uma invenção anterior -- a estrada, ou outra superfície lisa, dura. Um motor poderoso permite a um veículo superar um cavalo ou um cachorro ou uma chita em uma estrada dura, plana ou trilhos de ferro lisos. Mas faça a corrida sobre o interior selvagem ou campos arados, talvez com cercas vivas ou fossos no caminho, e é uma derrota: o cavalo deixará o carro bem atrás. Tamanho por tamanho, uma aranha correndo é certamente mais rápida que qualquer veículo com rodas.  Bem então, talvez nós deveríamos mudar nossa pergunta. Por que animais não desenvolveram a estrada? Não há nenhuma grande dificuldade técnica. A estrada deveria ser brincadeira de criança comparada com a represa do castor ou a arena ornamentada da ave-do-paraíso [bowerbird]. Há até algumas vespas cavadoras que até mesmo socam a terra com força, apanhando uma ferramenta de pedra para fazer isso. Presumivelmente estas habilidades poderiam ser usadas por animais maiores para aplainar uma estrada.  Agora nós chegamos a um problema inesperado. Até mesmo se a construção de estrada for tecnicamente possível, é uma atividade perigosamente altruística. Se eu como um indivíduo construo uma estrada boa de A a B, você pode se beneficiar disto exatamente da mesma maneira que eu. Por que isto deveria importar? Isto levanta um dos aspectos mais tantalizantes e surpreendentes de todo o Darwinismo, o aspecto que inspirou meu primeiro livro, O Gene Egoísta. O Darwinismo é um jogo egoísta. Construir uma estrada que poderia ajudar outros será penalizado através da seleção natural. Um indivíduo rival se beneficia de minha estrada, mas ele não paga o custo de construí-la.  A seleção Darwiniana vai favorecer a construção de estrada apenas se o construtor se beneficiar da estrada mais que os rivais dele. Parasitas egoístas que usam sua estrada e não se aborrecem em construir a deles mesmos estarão livres para concentrar sua energia em procriar mais que você. A menos que sejam tomadas medidas especiais, tendências genéticas para exploração preguiçosa, egoísta, prosperarão às custas de construção de estrada laboriosa. O fim será que nenhuma estrada é construída. Com o benefício de previsão, nós podemos ver que todo o mundo será prejudicado. Porém, a seleção natural, diferente de nós humanos com nossos cérebros grandes, recentemente evoluídos, não tem nenhuma previsão.  O que é tão especial sobre humanos que nós conseguimos superar nossos instintos anti-sociais e construirmos estradas que todos nós compartilhamos? Nós temos governos, tributação policiada, trabalhos públicos para os quais todos nós subscrevemos quer gostemos ou não. O homem que escreveu, "Senhor, Você é muito gentil, mas eu penso que preferiria não me juntar a seu esquema de imposto de renda", ouviu novamente, nós podemos estar seguros, da Receita Federal. Infelizmente, nenhuma outra espécie inventou o imposto. Porém, eles inventaram a cerca (virtual). Um indivíduo pode afiançar o benefício exclusivo dele de um recurso se ele defender isto ativamente contra rivais.  Muitas espécies de animal são territoriais, não só pássaros e mamíferos, mas peixes e insetos também. Eles defendem uma área contra rivais das mesmas espécies, freqüentemente para isolar um chão de alimentação privado, ou um pavilhão de namoro privado ou área de aninhamento. Um animal com um território grande poderia se beneficiar em construir uma rede de estradas boas, planas pelo território do qual foram excluídos os rivais.  Isto não é impossível, mas tais estradas animais seriam muito locais para viagens de longa distância, a alta velocidade. Estradas de qualquer qualidade seriam limitadas à área pequena que um indivíduo pode defender contra rivais genéticos. Não é um começo muito bom para a evolução da roda.  Agora eu tenho que mencionar que há uma exceção esclarecedora à minha premissa. Algumas criaturas muito pequenas evoluíram a roda no senso mais exato da palavra. Um dos primeiros dispositivos de locomoção já evoluído pode ter sido a roda, dado que para a maior parte de seus primeiros dois bilhões anos, a vida consistiu de nada mais que bactérias. Até hoje, não apenas a maioria dos organismos individuais são bactérias, mas até mesmo nossas células bacterianas pessoais excedem largamente em número nossas "próprias" células.  Muitas bactérias ainda estão usando hélices espirais parecidas com linhas, cada uma movida continuamente por seu próprio eixo de hélice giratório. Pensava-se que estes "flagelos" fossem abanados como rabos, a aparência de rotação espiral resultando de uma onda de movimento passando ao longo do comprimento do flagelo, como o ziguezaguear de uma cobra. A verdade é muito mais notável. O flagelo bacteriano é preso a um eixo que é movido por um motor molecular minúsculo e gira livremente e indefinidamente em um buraco que traspassa a parede célula.  O fato de que só criaturas muito pequenas evoluíram a roda sugere o que pode ser a razão mais plausível por que criaturas maiores não a têm. É uma razão bastante mundana, prática, mas nem por isso é menos importante. Uma criatura grande precisaria de rodas grandes que, diferentes das rodas artificiais, teriam que crescer in situ em lugar de serem formadas separadamente no exterior de materiais mortos e então montada. Para um órgão grande, vivo, o crescimento in situ exige sangue ou seu equivalente. O problema de prover um órgão livremente giratório com vasos sanguíneos, para não mencionar nervos, que não se enrosquem em nós é muito vívido para precisar ser descrito em detalhe.  Engenheiros humanos poderiam sugerir passar tubos concêntricos para levar sangue pelo meio do eixo no meio da roda. Mas como teriam se parecido os intermediários evolutivos? A melhoria evolutiva é como escalar uma montanha (o Monte Improvável). Você não pode pular do fundo de um precipício ao topo em um único pulo. Mudança precipitada súbita é uma opção para engenheiros, mas na natureza selvagem o ápice do Monte Improvável só pode ser alcançado se uma rampa ascendente gradual puder ser encontrada de um determinado ponto de partida.  A roda pode ser um desses casos onde a solução de engenharia pode ser vista claramente, sendo contudo inacessível em evolução porque reside no outro lado de um vale profundo, cortando sem possibilidade de construção de uma ponte pelo imenso do Monte Improvável."  

18 de abril de 2009

As voltas que a História dá.

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Os apologistas do capitalismo sempre apregoaram sua vitória quando ocorreu o fim dos regimes socialistas do Leste Europeu. 
"Modernização", "democracia", "liberdade", eram algumas das palavras de ordem. 
O que podemos constatar, vinte anos depois? 
O portal Vermelho, em matéria do dia 17 de abril de 2009, relata que: 
"A segunda recontagem de votos das eleições legislativas efetuadas na Moldova, em 5 de abril passado, confirmou a vitória do Partido Comunista do país. A vitória foi questionada pela oposição, que realizou violentos protestos antes mesmo da primeira contagem ter sido finalizada.

Os dados da nova recontagem se diferenciam muito pouco dos resultados da contagem anterior, apenas em centésimos de um por cento, informou a secretária-adjunta da Comissão Eleitoral Central de Moldova, Renata Lapti.

Renata também informou que a respectiva ata será assinada oficialmente em 21 de abril.

O secretário da Comissão Eleitoral, Iurie Ciocan, informou que a correlação de forças no novo parlamento do país não mudou com a recontagem dos votos.

''Os dados da recontagem não descobriram nenhuma fraude e os casos de diferenças de votos são tão insignificantes que não modificaram os resultados das eleições'', disse Ciocan.

''Assim, a correlação de forças no novo parlamento segue sendo a mesma. Os comunistas obtiveram 60 assentos, os liberais e os democratas liberais obtiveram 15 cada um, e a Aliança Nossa Moldávia, 11 deputados'', completou

Em Moldova, o chefe de Estado é eleito pelo Parlamento. Para eleger o presidente da nação são necessários 61 dos 101 votos dos deputados.

Um dia após a eleição, em 6 de abril, a oposição saqueou o parlamento local, em Chisinau, e realizou violentos protestos em várias cidades do país, uma ex-república da União Soviética de língua romena." 

Outra matéria ilustra a questão da volta dos desempregados:  

"Desde 2004, com a adesão de dez novos estados à União Europeia, um número indeterminado de cidadãos destes países empobrecidos aproveitou a abertura de fronteiras para procurar melhores salários no estrangeiro.

O Reino Unido foi um dos países que acolheu mais imigrantes, a par da Irlanda e da Espanha. Embora não existam, números oficiais, a imprensa britânica assinalou a chegada de um milhão de poloneses entre 2004 e 2008, a que se somaram várias dezenas de milhares de eslovacos, letões e lituanos, entre outros.

Agora, confrontados com a falta de trabalho, o seu regresso em massa irá agravar ainda mais a situação social nos seus países de origem, onde também não há trabalho e a recessão econômica atinge proporções assustadoras.

Segundo a agência Inter Press Service, as economias do Leste europeu deverão contrair-se em cerca de 15 por cento este ano. A mesma fonte refere, como exemplo, a Bulgária, onde só em dezembro último 15 mil pessoas ficaram sem emprego nos setores metalúrgico, mineiro e têxtil.

Na Romênia, as autoridades esperam o regresso de mais de um terço dos três milhões de nacionais que fixaram residência no estrangeiro, mas não têm qualquer alternativa de emprego para lhes oferecer, embora ainda há pouco o país vivesse uma penúria de mão-de-obra.

Ou outro exemplo refere-se à Eslováquia, onde só em Abril já se registaram nos centros de emprego cerca de 1.400 pessoas regressadas do estrangeiro, agravando os números do desemprego que afeta quase dez por cento da população ativa." 

14 de abril de 2009

História do golpe militar de 1964.

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Texto do embaixador norte-americano, Lincoln Gordon, aos seus superiores nos Estados Unidos. A mensagem é do dia 27 de março de 1964: 
 
"TOP SECRET Pessoal do embaixador Gordon. Favor passar imediatamente para o secretário de Estado Rusk, o secretário-assistente Mann, Ralph Burton, secretário de Defesa McNamara, secretário-assistente de Defesa McNaughton, general Maxwell Taylor, diretor da CIA John McCone, coronel J.C. King, Desmond Fitzgerald, na Casa Branca para Bundy e Dungan, passar na zona do Canal (onde ficava o Comando Militar Sul dos Estados Unidos) ao general O'Meara. Outra distribuição só com aprovação dos acima citados.
1. Desde que retornei ao Rio em 22 de março eu tenho estudado a situação brasileira profundamente com assessores civis e militares daqui, convocando os chefes de missão em São Paulo e Brasília para ajudar e fazendo alguns contatos com brasileiros bem informados.
2. Minha conclusão é de que Goulart está definitivamente engajado em uma campanha para assumir poderes ditatoriais, aceitando a colaboração do Partido Comunista Brasileiro e outros grupos revolucionários da esquerda para esse fim. Se ele for bem sucedido é mais do que provável que o Brasil caia sob controle completo dos comunistas, ainda que Goulart possa ter a esperança de se voltar contra os apoiadores comunistas e adotar um modelo peronista, o que pessoalmente acredito que ele prefere.
3. As táticas imediatas da guarda palaciana de Goulart estão concentradas em pressões para garantir no Congresso reformas constitucionais inalcançáveis por meios normais, usando uma combinação de manifestações nas ruas, ameaças de greve ou greve, violência rural esporádica e abuso do enorme poder financeiro discricionário do governo federal. Isso vem junto com uma série de decretos executivos populistas, de legalidade qüestionável, e uma inspirada campanha de rumores sobre outros decretos, calculada para amedrontar elementos da resistência. Especialmente importante nessa conexão é a habilidade do presidente de enfraquecer a resistência no nível estadual ao segurar financiamento federal essencial. O governo também tem submetido emissoras de rádio e TV à censura parcial, aumentado o uso da agência de notícias nacional e requisitado tempo para transmitir propaganda reformista, fazendo ameaças veladas contra a imprensa de oposição. O propósito não é só de assegurar reformas econômicas e sociais construtivas, mas desacreditar a atual Constituição e o Congresso, assentando as bases para um golpe de cima para baixo que pode ser ratificado por um plebiscito fraudado e a reescrita da Constituição por uma Assembléia Constituinte fraudada.
4. Eu não descarto inteiramente a hipótese de que Goulart seja amedrontado a desistir dessa campanha e que termine normalmente seu mandato (até 31 de janeiro de 1966), com eleições presidenciais sendo realizadas em outubro de 1965. Essa seria a melhor saída para o Brasil e para os Estados Unidos, se acontecer. Os compromissos de Goulart com a esquerda revolucionária são agora tão profundos, no entanto, que as chances de alcançar esse resultado através da normalidade constitucional parecem ser de menos de 50%. Ele pode fazer recuos táticos para tranquilizar a oposição novamente, como fez no passado. Há alguns sinais de que isso aconteceu nos últimos dias, como resultado da maciça manifestação da oposição nas ruas de São Paulo no dia 19 de março, a hostilidade declarada de governadores de estados importantes e ameaças e descontentamento de oficiais, especialmente do Exército. Mas a experiência passada mostra que cada recuo tático permite ganho considerável de espaço e o próximo avanço vai além do anterior. Com o tempo do mandato acabando e os candidatos à sucessão entrando ativamente em campo, Goulart está sob pressão para agir mais rapidamente e com menor cálculo dos riscos. O desgoverno também acelera a taxa de inflação a ponto de ameaçar a quebra da economia e a desordem social. Um salto desesperado por poder ditatorial pode acontecer a qualquer momento.
5. O movimento Goulart, incluindo seus afiliados comunistas, representa a minoria - não mais de 15 a 20 por cento do povo ou do Congresso. Sistematicamente assumiu o controle de muitos pontos estatégicos, notavelmente na Petrobras (que sob um decreto de 13 de março agora assumirá as cinco últimas refinarias privadas ainda não sob seu controle), no Departamento de Correios e Telégrafos, na liderança de sindicatos do petróleo, das rodovias, dos portos, da marinha mercante, das recém-formadas associações de trabalhadores rurais e de algumas outras indústrias-chave, a Casa Civil e Militar da Presidência, unidades importantes dos ministérios da Justiça e Educação e elementos de muitas outras agências de governo. Nas Forças Armadas, há um grande número de oficiais esquerdistas que receberam privilégicos e posições-chave de Goulart, mas a grande maioria é de legalistas e anti-comunistas e há um antigo grupo de apoiadores de um golpe na direita. A esquerda tem tentado enfraquecer as Forças Armadas através da organização subversiva de oficiais da reserva e de pessoal alistado, com resultados significativos especialmente na Força Aérea e na Marinha.
 6. No dia 21 de março eu tive uma conversa com o secretário (de Estado) Rusk para avaliar a força e o espírito das forças de resistência e as circunstâncias que podem causar violência interna e um confronto. Acredito que desde o comício de Goulart com os sindicalistas no Rio, em 13 de março (o comício da Central do Brasil) houve uma polarização de atitudes, com apoio à Constituição e ao Congresso, para reformas apenas dentro da Constituição e a rejeição do comunismo, que vem de um grupo de governadores: Lacerda da Guanabara, Adhemar de Barros de São Paulo, Meneghetti do Rio Grande do Sul, Braga do Paraná e, para minha surpresa, Magalhães Pinto, de Minas Gerais. Eles foram fortalecidos pela clara declaração do ex-presidente marechal Dutra e pelo discurso de Kubistchek em sua indicação como candidato (à presidência). O grande comício pró-democracia em São Paulo, no dia 19 de março, organizado principalmente por movimentos de mulheres, deu um importante elemento de demonstração de massa pública, com reações favoráveis no Congresso e nas Forças Armadas. 7. Existe uma interdependência recíproca de ação entre o Congresso e as Forças Armadas. A resistência do Congresso a ações ilegais do Executivo e às exigências abusivas para mudança constitucional do presidente depende da convicção dos congressistas de que eles terão cobertura dos militares se assumirem posição. A tradição legalista das Forças Armadas é tão forte que elas desejariam, se possível, cobertura do Congresso para qualquer ação contra Goulart. A ação do Congresso é uma chave importantíssima da situação. 8. Enquanto uma clara maioria do Congresso desconfia das propostas de Goulart e despreza a sua evidente incompetência, o consenso presente dos líderes congressistas anti-Goulart é de que a maioria absoluta da Câmara dos Deputados não será obtida para um impeachment. Eles também se opõem à mudança do Congresso de Brasília acreditando que isso diminui o prestígio já abalado, embora mantenham aberta a possibilidade de um recuo dramático para São Paulo ou outro lugar como último recurso no caso de se aproximar uma guerra civil ou de uma guerra civil em andamento. Eles agora focam a aprovação de algumas reformas amenas como forma de enfrentar a campanha de Goulart contra o Congresso e avaliam outras maneiras de mostrar resistência ativa. Há pequena possibilidade de aprovação de uma lei de plebiscito, delegação de poderes (ao presidente), legalização do Partido Comunista, direito de voto para os analfabetos ou outras mudanças buscadas por Goulart.

9. De toda forma, a mudança mais significativa é a cristalização de um grupo de resistência militar sob a liderança do general Humberto Castello Branco, chefe de estado-maior do Exército. Castello Branco é um oficial altamente competente, discreto, honesto e respeitado, que tem forte lealdade aos princípios legais e constitucionais e até recentemente evitava qualquer aproximação com conspiradores anti-Goulart. Ele se associou com um grupo de outros oficiais bem colocados e está assumindo agora o controle e a direção sistemática de uma ampla mas ainda descentralizada organização de resistência de grupos militares e civis em todas as partes do país. 10. A preferência de Castello Branco seria de agir somente em caso de provocação inconstitucional óbvia, isso é, uma tentativa de Goulart de fechar o Congresso ou intervenção em um dos estados da oposição (Guanabara ou São Paulo sendo os mais prováveis). Ele reconhece, no entanto (e eu também) que Goulart pode evitar uma provocação óbvia, enquanto continua a se mover em direção a um fait accompli irreversível através de greves manipuladas, enfraquecimento financeiro de estados ou um plebiscito - incluindo voto para os analfabetos - para dar apoio a um tipo de poder bonapartista ou gaulista. Castello Branco está se preparando, portanto, para um possível movimento no caso de uma greve geral comandada pelos comunistas, outra rebelião dos sargentos, a convocação de um plebiscito que enfrente oposição do Congresso ou mesmo alguma grande medida governamental contra líderes democráticos militares ou civis. Neste caso, a cobertura política deve vir em primeira instância de um grupo de governadores, declarando-se o legítimo governo do Brasil, com apoio do Congresso em seguida (se o Congresso ainda puder agir). Também é possível que Goulart renuncie sob pressão de sólida oposição militar, ou para "fugir" do país ou para liderar um movimento "populista" revolucionário. As possibilidades claramente incluem guerra civil, com alguma divisão horizontal ou vertical nas Forças Armadas, agravadas pela posse disseminada de armas nas mãos de civis dos dois lados.

11. Ao contrário dos vários grupos anti-Goulart que nos procuraram durante os últimos dois anos e meio, o movimento de Castelo Branco demonstra a perspectiva de apoio amplo e liderança competente. Se nossa influência for usada para evitar um grande desastre aqui - o que pode transformar o Brasil na China dos anos 60 - nesse grupo é que tanto eu quanto meus assessores acreditamos que nosso apoio deve ser colocado (os secretários Rusk e Mann devem notar que Alberto Byington* está trabalhando com esse grupo). Nós temos essa visão mesmo que Castello Branco seja afastado de sua posição no Exército. * Alberto Byington era um industrial paulista que ajudou a articular o golpe 12. Apesar de sua força entre os oficiais, o grupo de resistência está preocupado com as armas e a possível sabotagem do abastecimento de combustível. Dentro da próxima semana vamos avaliar as estimativas das armas necessárias através de um contato com o general Cintra*, o braço direito do Castello Branco. As necessidades de combustível incluem combustível para a Marinha, que agora está sendo buscado por Byington, além de gasolina para motores e para a aviação. * General Ulhoa Cintra 13. Dada a absoluta incerteza quanto ao timing de um possível incidente-gatilho (que poderia ocorrer amanhã ou a qualquer momento), recomendamos (a) que sejam tomadas medidas o mais rapidamente possível para preparar uma entrega clandestina de armas que não sejam de origem americana a apoiadores de Castello Branco em São Paulo, assim que as necessidades sejam definidas e os arranjos feitos. A melhor possibilidade de entrega parece ser em um submarino sem identificação a ser descarregado à noite em algum ponto isolado da costa do estado de São Paulo, ao sul de Santos, provavelmente perto ou em Iguape ou Gananeia (Cananéia); (b) isso deveria ser acompanhado por combustível (a granel, embalado ou ambos), também evitando a identificação do governo dos Estados Unidos, com entrega que espere o início ativo de hostilidades. A ação (DEPTEL 1281*) deve proceder. *Telegrama enviado à Embaixada desde Washington: "Defesa (o Departamento de) providenciou a lista dos materiais solicitados e outras informações sobre o navio-tanque de petróleo discutidas com você. Urgentemente esperando sua avaliação da situação para dar os passos seguintes nesta ação e definir próximos passos vis-à-vis Brasil." 14. O atendimento às sugestões acima pode ser suficiente para assegurar a vitória de forças amigáveis sem qualquer participação aberta, logística ou militar, dos Estados Unidos, especialmente se politicamente nossa intenção é dar reconhecimento imediato ao novo governo do Brasil. Deveríamos nos preparar sem demora para a contingência de uma intervenção aberta em um segundo estágio e também contra a possibilidade de ação soviética para apoiar o lado dos comunistas. Para minimizar as possibilidades de uma guerra civil prolongada e assegurar a adesão de um grande número de "band-wagon jumpers" (os que ficam em cima do muro), nossa habilidade em demonstrar compromisso e algum tipo de demonstração de força com grande rapidez pode ser crucial. Com esse objetivo e conforme nossas conversas em Washington, no dia 21 de março, uma possibilidade parece ser o envio de uma força-tarefa naval para manobras no Atlântico Sul, a poucos dias de distância de Santos. A logística deve seguir as especificações do South Brazil Contingency Plan (USSCJTFP-BRAZIL*), revisado aqui em 9 de março. Um porta-aviões seria muito importante pelo efeito psicológico. O contingente de fuzileiros navais poderia cumprir tarefas de performance logística definidas no South Plan. Instruções são aguardadas nesse ou em métodos alternativos, desde que com os objetivos acima mencionados. * Planos de contingência militar que o Pentágono mantém em relação a todas as regiões do mundo, que passam por revisões constantes

15. Nós reconhecemos o problema de incerteza quanto ao período da necessidade dessas forças na área. Com crises quase diárias de intensidade variável aqui, no entanto, e a violência a ponto de se tornar epidêmica através de invasões de terra, confrontos entre grupos comunistas e democráticos nas ruas e com o crescendo das ações de Goulart com o objetivo de "atingir as reformas-de-base" até 24 de agosto (décimo aniversário do suicídio de Vargas), perigo real existe da irupção de guerra civil a qualquer momento. O único sinal convincente (em contrário) seria uma limpeza dos extremistas da guarda civil e militar do grupo palaciano. O episódio atual dos marinheiros rebeldes demonstra a fragilidade da situação e possível iminência de um confronto.

16. Estamos, enquanto isso, tomando medidas complementares com nossos recursos para fortalecer as forças da resistência. Isso inclui apoio clandestino a manifestações de rua pró-democracia (o próximo grande evento será no dia 2 de abril, no Rio, com outros ainda sendo programados), a difusão discreta de que o governo dos Estados Unidos está profundamente preocupado com os acontecimentos e o encorajamento de sentimento democrático e anti-comunista no Congresso, nas Forças Armadas, grupos amigáveis de estudantes e sindicalistas, igreja e empresas. Poderemos requisitar modestos fundos suplementares para outros projetos de ações clandestinas em futuro próximo. 17. Também acredito que seria útil, sem entrar em detalhes, uma resposta em entrevista coletiva do secretário de Estado ou do presidente indicando preocupação com informações sobre a deterioração econômica e a inquietude política no Brasil e a importância para o futuro do Hemisfério de que o Brasil, comprometido com suas raízes democráticas e tradições constitucionais, vai continuar seu progresso social e econômico sob a democracia representativa. Recomendamos que isso seja feito nos próximos dias. 18. Essa mensagem não é alarmista ou reação apavorada a um único incidente. Reflete as conclusões conjuntas da equipe da embaixada baseadas em uma longa corrente de ações e informação de inteligência que nos convenceram de que existe um perigo real e presente para a democracia e a liberdade no Brasil, que poderia conduzir esta nação enorme ao campo comunista. Se este fosse um país de menos importância estratégica para os Estados Unidos - tanto diretamente quanto no impacto que tem na América Latina - poderíamos sugerir um período de acompanhamento esperando que a resistência brasileira, sem ajuda, cuidasse do problema. Nós acreditamos que há uma grande possibilidade de que ela consiga fazer isso, dados os sentimentos básicos e as atitudes da maioria das pessoas e a força da democracia organizada, especialmente na metade Sul do país. O poder de Goulart e da presidência de enfraquecer e abalar a resistência é tão grande, no entanto, que nosso apoio manifesto, tanto moral quanto material e até a um custo substancial, pode ser essencial para manter a coluna da resistência brasileira. Não podemos perder tempo nos preparativos para tal ação. A alternativa de arriscar um Brasil comunista parece inaceitável, causando custos potencialmente muito maiores tanto em dinheiro quanto em vidas."

Fonte: Viomundo.