28 de maio de 2009

"Quem enfrentará os EUA e Israel?"

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Texto do site Viomundo

27/5/2009, Paul Craig Roberts, Counterpunch – http://www.counterpunch.org/roberts05272009.html

Paul Craig Roberts foi secretário-assistente do Tesouro no governo Reagan.

É co-autor de The Tyranny of Good Intentions. Recebe e-mails em PaulCraigRoberts@yahoo.com

"Obama conclama o mundo a enfrentar a Coreia do Norte" – diz a manchete. Os EUA, disse Obama, estariam firmes "para defender a paz e a segurança do mundo". Palavras de 'duplifalar', de 'duplipensar', à moda de 1984.
A Coreia do Norte é país muito pequeno e pobre. A China, sozinha, pode varrer do mapa a Coreia do Norte, em minutos. E o presidente dos EUA acha que precisa do mundo inteiro para enfrentar a Coreia do Norte?
Estamos assistindo a mais uma operação dos gângsters de Washington, inventando ameaça nova, como Slobodan Milosevic, Osama bin Laden, Saddam Hussein, John Walker Lindh, Hamdi, Padilla, Sami Al-Arian, o Hamás, o presidente Máhmude Ahmadinejad e os desgraçados prisioneiros demonizados por Rumsfeld como "os 700 mais perigosos terroristas da face da Terra", que foram torturados durante seis anos na prisão de Guantanamo, para, afinal, serem libertados... sem jamais terem sido julgados. Epa! Sorry, foi um engano.
O complexo militar/de segurança que governa os EUA, associado ao Lobby israelense e ao lobby das finanças, sempre precisa ter longa lista de inimigos perigosos, para que o dinheiro dos contribuintes não pare de correr para seus cofres.
O lobby da segurança interna depende de haver infindáveis 'ameaças' para convencer os americanos a ceder suas liberdades civis em troca de qualquer segurança que o lobby deseje vender.
A questão importante é: quem enfrentará o governo dos EUA e de Israel?
Quem protegerá os cidadãos norte-americanos e israelenses, sobretudo os israelenses que se opõem ao atual governo e os cidadãos israelenses árabes?
Quem protegerá os palestinos, os iraqueanos, os afegãos, os libaneses, os sírios, contra a ameaça dos EUA e de Israel?
Não Obama, nem os camisa-verde-oliva-caqui que governam Israel.
A ideia de Obama, de 'conclamar' o mundo a "enfrentar" a Coreia do Norte é insana, mas essa ideia insana empalidece, se comparada à 'garantia' de que os EUA podem garantir "a paz e a segurança do mundo".
São os mesmos EUA que bombardearam a Sérvia, inclusive a embaixada chinesa e trens de passageiros; que entregaram a Sérvia a uma gang de traficantes muçulmanos, emprestando-lhes soldados da Otan para proteger a 'operação'... do tráfico?
São os mesmos EUA responsáveis pela morte de um milhão de iraqueanos, e que deixam órfãos e viúvas onde quer que apareçam, e que converteram em refugiados 1/5 da população do Iraque?
São os mesmos EUA que impedem o mundo de condenar Israel pelo ataque assassino contra civis libaneses em 2006 e contra civis em Gaza em 2009, os mesmos EUA que dão cobertura ao assalto israelense contra a Palestina, que já dura mais de 60 anos, assalto e roubo que já produziu quatro milhões de refugiados palestinos, arrancados de suas casas, vilas, cidades, pelo terror e pela violência de Israel?
Os mesmos EUA que fazem hoje manobras militares em repúblicas ex-soviéticas e estão cercando a Rússia com um anel de bases de mísseis?
Os mesmos EUA que bombardearam o Afeganistão até converter o país num amontoado de ruínas, com milhares de civis mortos?
Os mesmos EUA que criaram um ano novo infernal no Paquistão, ataque que, só nos primeiros dias, produziu um milhão de refugiados?
“Paz e segurança do mundo”? Mundo de quem?
Ao retornar de consulta com Obama em Washington, o ministro camisa-verde-oliva-caqui de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou que seria "responsabilidade" de Israel "eliminar" a "ameaça nuclear" iraniana.
Que ameaça nuclear? Todas as agências de inteligência dos EUA concluíram, unanimemente, que o Iran não tem qualquer programa nuclear militar desde 2003. Os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica já relataram que não viram nem sinal de bombas atômicas no Iran.
Quem está sendo bombardeado pelo Iran? Quantos refugiados vagam pelo mundo, tentando salvar a própria vida, por ataque comandado pelo Iran?
Quem está sendo bombardeado pela Coreia do Norte?
Os dois países que mais matam e que mais refugiados geram no mundo hoje são EUA e Israel. EUA e Israel, mais que qualquer outro país no mundo, já mataram e expulsaram milhões de pessoas que jamais foram ameaças a alguém e jamais atacaram alguém.
Não há país no mundo que rivalize com EUA e Israel, na prática corriqueira da violência assassina mais bárbara.
Mas Obama garante que os EUA protegerão "a paz e a segurança do mundo". E Netanyahu, armado com bombas atômicas, garante que Israel salvará o mundo da "ameaça iraniana".
Onde está a mídia? Por que os que lêem jornais não estão rolando de rir?" 

(Tradução de Caia Fittipaldi) 


26 de maio de 2009

Julius Fucik

Um comentário:
Julius Fucik é um militante comunista. Nascido em 1903, na cidade de Praga, na atual República Tcheca, com 18 anos entrou para o Partido Comunista. 
Quando as tropas de Hitler invadiram a Tchecoslováquia, entrou para as fileiras armadas da Resistência Comunista, então clandestina. 
Fui um grande combatente. Em 1942, foi capturado e enviado para uma prisão da GESTAPO, em Pankrác. Sofreu a tortura nazista.  No cárcere, escreveu um livro secretamente. Quando as tropas do Exército Vermelho libertaram os prisioneiros dos campos de concentração, foram encontrados os manuscritos. 
Não houve tempo de libertar Julius Fucik. Ele foi executado na cidade de Berlim, no dia 08 de setembro de 1945. Mas seu registro escrito no cárcere nao se perdeu. Se tornou um livro que tem o título "Reportagem sob a Forca". 
Um livro que quando é lido pelos que lutam por uma sociedade justa e fraterna, aí sim, esses entendemos  o verdadeiro significado da palavra liberdade e da palavra esperança. 
Em 1950, assim falou Pablo Neruda, no II Congresso dos Defensores da Paz: "Vivemos na época que amanhã se chamará a época de Fucik, época do heroísmo simples... Em Fucik há o sentido não só de um cantor da liberdade mas de um construtor da liberdade e da paz..."      
Aconselho todos a lerem o relato de Julius Fucik, Reportagem sob a Forca. E aí entenderão o significado do que é ser comunista. 
Deixo aqui um trecho, digitado por mim, diretamente do livro: 
"Capítulo V 
FIGURAS E FIGURINHAS I 
Só peço uma coisa: que os que sobreviverem a esta época não esqueçam. Não esqueçam nem os bons nem os maus. Reúnam pacientemente os testemunhos dos que caíram por si e por vós. Um dia o hoje pertencerá ao passado e falar-se-á de uma grande época e dos heróis anônimos que fizeram história. Gostaria que toda gente soubesse que não houve heróis anônimos. Eram pessoas que tinham o seu nome, o seu rosto, os seus desejos e as suas esperanças, e a dor do último deles não foi menor do que a dor do primeiro, cujo nome perdura. Gostaria que todos eles estivessem juntos de nós, como membros de nossa família, como nós próprios. 
    Foram exterminadas gerações inteiras de heróis. Amem ao menos alguns deles, como se fossem um filho ou uma filha, e sintam-se orgulhosos dele como de um grande homem que viveu para o futuro. Cada um dos que serviram fielmente o futuro e caíram para o tornarem mais belo é uma figura esculpida em pedra. E cada um daqueles que, com o pó do passado, quiseram construir um dique para deter a revolução não é mais do que uma figurinha de madeira, ainda que tenha os braços carregados de galões dourados. Mas é necessário ver também as figurinhas vivas na sua infância, na sua imbecilidade, na sua crueldade e no seu ridículo, porque é um material que nos servirá para o futuro. 
Eu só posso contribuir com o material que corresponde à declaração de uma testemunha. É limitado e sem espaço no tempo, tal como pude vê-lo na minha pequena frente de luta. Mas contém traços de uma verdadeira imagem da vida: os traços dos grandes e dos pequenos, das figuras e das figurinhas." 
De tudo o que já escrevi nos blogs da vida, este tópico, sem dúvida, foi o que mais emocionou. Julius Fucik nunca será esquecido bem como todos os outros que assim como ele, lutaram pelo justo, pelo bom e pelo melhor. 
Termino com o trecho final do livro de Fucik: 
"Também minha obra se aproxima do fim. Não posso descrevê-lo. Não o conheço. Já não é uma obra. É a vida. 
E na vida não há espectadores. 
A cortina sobe. 
Homens: amei-vos. Estai vigilantes!  
09-VI-1943" 
Julius Fucik  

25 de maio de 2009

"A atualidade do anticomunismo"

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Texto de Carlos Pompe, originalmente no Portal Vermelho
"Manifestações recentes atacam o comunismo e tentam desqualificar os comunistas. A Santa Aliança estabelecida entre o papa, chefes de estado, teóricos e militares a serviço da burguesia demonstra o temor desta classe diante da alternativa proletária ao capitalismo e aponta para a necessidade – e por isso atualidade – do anticomunismo. De quebra, joga por terra as ilusões dos que acham que as classes dominantes serão persuadidas da necessidade de superação do sistema baseado na exploração do trabalho pelo capital.

Mesmo após o fim do socialismo na Europa, mesmo sem a existência de organizações comunistas fortes nos países capitalistas centrais, mesmo com as esquerdas à procura do melhor caminho revolucionário (revolução! a própria palavra anda confinada aos dicionários), mesmo com as concepções direitistas e religiosas avançando sobre as mentes de novas e velhas gerações... Mesmo com tudo isso e mais, o espectro do comunismo continua rondando o mundo capitalista. As classes dominantes e seus ideólogos e agentes em todos os continentes, e no nosso país inclusive, necessitam do anticomunismo para se manter no poder, pois a atual sociedade precisa ser substituída, e a sua substituta mais avançada é a sociedade comunista.

 

 

Os ataques são os mais diversificados – de elaboração sofisticada, como no caso de uma encíclica papal; de aparente ingenuidade, como a do presidente que pede “liberdade” em Cuba; de grosseira estupidez, como a do general que saiu da ativa saudoso da ditadura Médici.

 

 

Nos momentos em que as contradições se agudizam e, mesmo sem a necessária unidade de ação e de propósitos, a presença dos proletários e demais trabalhadores se faz mais marcante no cenário político e social, a burguesia tenta isolar os socialistas e os representantes da esquerda no parlamento e no conjunto da ação social.

 

 

No embate político, são tratados com descrédito ou rebaixados à condição de personagens cômicos – mas perigosos – os que, no poder, comprometem-se com o socialismo. É o que ocorre nas investidas em “defesa da liberdade” contra o governo chinês (contrapondo a ele – mirem só! – o medievalismo anacrônico e místico do damaiilismo; nas calúnias contra Cuba ou na ridicularização dos discursos e posicionamentos do bolivariano Hugo Chávez.

 

 

No embate ideológico, recorre-se à única arma encontrada para refutar o marxismo: desvirtuá-lo, desfigurá-lo, aproveitar do desconhecimento que mesmo estudiosos têm de seu conteúdo e método materialista-dialético. Com isso, a obra e os pressupostos teóricos de Marx e Engels já teriam sido ultrapassados e ido para a lixeira da história. Mas nada de citar os autores! Nada de transcrever trechos de suas obras! Jamais!

 

 

Na sua encíclica Spe Salvi (Salvos pela Esperança), de 30 de novembro de 2007, o papa Bento XVI vitupera contra “o erro fundamental de Marx”, que não soube dizer como construir uma sociedade justa, sem Deus. Segundo o chefe da Igreja Católica, Marx “supunha simplesmente que, com a expropriação da classe dominante, a queda do poder político e a socialização dos meios de produção, ter-se-ia realizado a Nova Jerusalém. Com efeito, então ficariam anuladas todas as contradições; o homem e o mundo haveriam finalmente de ver claro em si próprios. Então tudo poderia proceder espontaneamente pelo reto caminho, porque tudo pertenceria a todos e todos haviam de querer o melhor um para o outro. Assim, depois de cumprida a revolução, Lenin deu-se conta de que, nos escritos do mestre, não se achava qualquer indicação sobre o modo como proceder. É verdade que ele tinha falado da fase intermédia da ditadura do proletariado como de uma necessidade que, porém, num segundo momento ela mesma se demonstraria caduca. Esta ‘fase intermédia’ conhecemo-la muito bem e sabemos também como depois evoluiu, não dando à luz o mundo sadio, mas deixando atrás de si uma destruição desoladora. Marx não falhou só ao deixar de idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo; com efeito, já não deveria haver mais necessidade deles. O fato de não dizer nada sobre isso é lógica consequência da sua perspectiva. O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis”.

 

 

Deixando de lado os disparates da interpretação papista do marxismo – Marx nunca disse que o homem é só produto de condições econômicas e nem pretendia uma Nova Jerusalém (deus nos livre!) no mundo e Lenin sempre recorreu aos textos e à metodologia marxista para desvendar os caminhos para a construção do socialismo –, o que chama a atenção é a necessidade de, mais de 150 anos depois, o papa continuar a conjurar o comunismo, como registraram Marx e Engels do Manifesto do Partido Comunista, em 1847.

 

 

Em 23 de maio de 2008, quando ainda disputava o comando do imperialismo estadunidense, o candidato do Partido Democrata, Barack Obama, discursou na Fundação Nacional Cubano-Americana, criada pelo ex-presidente, Ronald Reagan, do Partido Republicano, e se comprometeu: ''Juntos vamos buscar a liberdade para Cuba; essa é minha palavra; esse é meu compromisso… É hora de que o dinheiro estadunidense faça com que o povo cubano seja menos dependente do regime de Castro. Vou manter o embargo.''

 

 

À época, o líder da revolução cubana, Fidel Castro, escreveu: “Alguém teria que dar uma resposta serena e sossegada, que deve navegar hoje contra a poderosa maré de ilusões que na opinião pública internacional despertouObama” (os negritos são dele, Fidel). Obama venceu e vem pondo fim à administração terrorista e de trevas de seu antecessor, George W. Bush, à frente dos EUA. Mas no seu discurso de posse, em 20 de janeiro de 2009, num trecho pouco citado pelos analistas que insistem em não ver o caráter de classe de seus posicionamentos, lembrou que “gerações que nos antecederam enfrentaram o fascismo e o comunismo, não apenas com mísseis e tanques, mas com alianças robustas e convicções duradouras. Eles compreendiam que o poder sozinho não pode nos proteger e nem nos dá o direito de fazer o que quisermos. Em vez disso, eles sabiam que nosso poder cresce por meio de sua utilização prudente; nossa segurança emana da justiça de nossa causa, da força do nosso exemplo, das qualidades temperantes da humildade e do autocontrole. Somos os guardiões desse legado”.

 

 

Vale-se do surrado, mas não desacreditado, recurso de comparar o fascismo com o comunismo (quando os comunistas foram os primeiros e dos mais acirrados combatentes pela liberdade, contra os fascistas). E ainda nos impinge que os imperialistas norte-americanos, que tantos crimes cometeram e cometem no continente americano e em todos os cantos do mundo, movem-se animados pela “justiça de nossa causa” e que ainda são exemplares, humildes e autocontrolados. Quanta desfaçatez!

 

 

No Brasil, o general Paulo César de Castro, até então o principal responsável pelo ensino no Exército e membro do Alto Comando do Exército, disse no início do mês, irado, na sua despedida da tropa para vergar o pijama, que os ''arautos da sarna marxista'', a quem considera inimigo ''astuto e insidioso'', continuam em ação. Não deixa de ter razão ao considerar os marxistas seus inimigos, saudoso que é da ditadura militar que enlutou e entristeceu o país de 1964 a 1985; não há que negar também que os comunistas tiveram que ser astutos, caso contrário teriam sucumbido ao terrorismo dos militares no poder. Mas, insidiosos?

 

 

Insidiosos são enganadores, traiçoeiros, pérfidos. E o Manifesto do Partido Comunista – se é que este general que andou deformando corações e mentes de novas gerações de militares já o leu ou permitiu que seus pupilos o lessem – encerra com esta declaração de propósitos nada insidiosa:

 

 

“Os comunistas consideram indigno dissimular as sua idéias e propósitos. Proclamam abertamente que os seus objetivos só podem ser alcançados derrubando pela violência toda a ordem social existente. Que as classes dominantes tremam ante a idéia de uma Revolução Comunista! Os proletários não têm nada a perder com ela, além das suas cadeias. Têm, em troca, um mundo a ganhar.

 

 

Proletários de todos os países, uni-vos!”

 

 

Penso, logo insisto 
Encerro com uma homenagem a Mario Benedetti (1950 - 2009), imortal poeta e lutador uruguaio. Melhor, encerro com um poema de Mario Benedetti que homenageia a nós, mortais e lutadores.

 

''Oda a la mordaza

... pienso 
luego insisto

a tu custodia queda  mis labios apretados 
quedan mis incisivos 
colmillos 
y molares

queda mi lengua 
queda mi discurso 
pero no queda en cambio mi garganta

en mi garganta empiezo 
por lo pronto 
a ser libre 
a veces trago la saliva amarga 
pero no trago mi rencor sagrado

mordaza bárbara 
mordaza ingenua 
crees que no voy a hablar 
pero si hablo 
solamente con ser 
y con estar...''

20 de maio de 2009

Explorados na História.

3 comentários:
No desenrolar do processo histórico em que vive a humanidade, o advento da desigualdade social provocou o surgimento das classes sociais. Isso, se pensarmos em classes sociais enquanto uma relação entre pessoas. 
Não é prudente confundir diferença com desigualdades. São condições que não se equivalem. Diferenças entre os seres humanos são várias. Existem diferenças culturais e naturais. Alguns nascem com a cor de pele clara, olhos azuis, cabelos loiros, outros tem uma pele mais escura, olhos e cabelos negros e uma infinidade de matizes na pele e outras partes do corpo.
Observe estas imagens e não obstante todas as gritantes diferenças políticas, culturais, humanísticas, tente reparar apenas nos traços físicos: 
 George W. Bush
Gilberto Gil
  Diante da observação dessas personalidades, percebemos rapidamente as diferenças físicas. 
Eu poderia usar imagens de pessoas desconhecidas, mas propositadamente escolhi as imagens dessas pessoas. Mesmo com trajetórias diferenciadas quero marcar apenas as diferenças físicas. 
E as diferenças entre as pessoas não param. Existem inúmeras diferenças. Existem aqueles que se intitulam sertanejos, outros que se dizem metaleiros. Existem os que gostam de cachaça e outros que não bebem nem licor. São pessoas com gostos diferentes, hábitos diferentes. 
Culturalmente não existe uma sociedade melhor do que a outra. Existem sociedades diferentes. Em algumas se come arroz, feijão, uma carne e verduras na hora do almoço, em outras, esse é um prato estranho...
E as diferenças não param por aí. Existem ateus e crentes, esportistas e sedentários, heterossexuais e homossexuais, homens e mulheres, professores, jogadores de futebol, médicos, motoristas, bailarinas etc. 
 
Enfim, toda uma série de diferenças nos imprime a feição humana, o que nos torna ao mesmo tempo, singulares e universais. E todo o discurso em defesa da diversidade é considerado válido nos dias atuais. 
 
Quando falamos de desigualdade estamos nos referindo a outro aspecto da existência humana. No caso da desigualdade social, nos remetemos à exploração. E isso não é um caso de diferença.  
Com certeza, um defensor da manutenção do status quo tentará vender a ideia de que a desigualdade social é apenas mais uma "diferença". Com certeza, existirão aqueles como eu que refutarão essa "hipótese".
         
A desigualdade social como dissemos provocou o advento das classes sociais na História. Daqui para a frente, começaremos uma série de postagens sobre os explorados com exemplos de algumas situações de classe. 
Fruto da apropriação dos excedentes por um determinado grupo em detrimento de outro, a exploração social só foi possível a partir da geração permanente de excedentes econômicos. É por isso que nas comunidades comunistas primitivas não havia a possibilidade da ocorrência da desigualdade social. Não se tratava de uma "consciência elevada" ou do "espírito de fraternidade" daquelas comunidades, mas sim da impossibilidade de expropriação do excedente por um grupo minoritário. 
A desigualdade social é um acontecimento histórico e não uma questão da "natureza humana". Da natureza humana  vem a necessidade de vivermos, de nos alimentarmos,  de nos reproduzirmos, de morrermos para cumprir essa função natural. 
Pobreza, riqueza, trabalho forçado para sustento da ociosidade parasitária não é uma questão de "natureza humana" ou fatalidade divina. É uma questão de exploração social. 
Começaremos a série sobre os explorados falando dos escravos. Em breve.   

14 de maio de 2009

Ser Vasco.

Um comentário:
Texto do escritor e jornalista Artur da Távola, “Ser Vasco”.
“Ser Vasco é ser intrépido tanto quanto leal. É ter o sentido da história do Brasil a fundir povos e raças sem preconceito. É ser navegante da esperança, não temer aventura, futuro, conquistas, calmarias ou tempestades.
Ser Vasco é renegar o temor e ser popular sem populismo, ser valente sem arrogância e ser decidido sem soberba. É ter a vocação da vitória e a disposição necessária à qualidade e ao mérito por saber que virtudes necessitam de energia e energia, de vontade.
Ser Vasco é, pois, ser virtude, vontade, valor e vanguarda: tudo com o v de vida, o mesmo de Vasco.
Ser Vasco é conhecer o grito do entusiasmo, esperar a hora de vencer e sentir o cheiro do gol. É incendiar estádios e extasiar multidões. É adivinhar instantes decisivos e saber decidir.
Ser Vasco é ser mais povo do que elite, mais tradição do que novidade, mais segurança do que aparência, mais clube do que time, mais vibração do que delírio, mais vigor do que agressão.
Ser Vasco é ousar, insistir, renovar-se, trabalhar para construir a vitória não como forma de superioridade, mas de aperfeiçoamento da vida e do esporte. É gol, é gala, é garbo de uniforme original, cruz no peito, sonho n’alma e amor no coração.
Ser Vasco é emoção recompensada porque vitória bem planejada, é lance, é lança, liberdade, impulso e convicção.
Ser Vasco é sentir o gosto da felicidade, da vitória e do grito maiúsculo de gol. É ter sabedoria e prudência, unidas na tática certeira ou na organização eficaz. É viver a emoção de lembrar nomes, lendas, heróis e legendários craques, troféus, títulos, retratos, faixas, taças, copas e vitórias imortais.
Ser Vasco é ter idênticos motivos para cultuar o passado tanto quanto crer no futuro.
Ser Vasco, enfim, é saborear com humildade o orgulho sadio da vitória merecida, do entusiasmo com motivo e da grandeza como destino“.

12 de maio de 2009

Historiador recebe maior prêmio da Ciência brasileira.

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O historiador José Murilo de Carvalho recebeu o maior prêmio de Ciência e Tecnologia do Brasil. 

Matéria do CNPq: 

  

"CNPq entrega maior prêmio de Ciência e Tecnologia do país

O presidente do CNPq, Marco Antonio Zago (D), entrega o prêmio ao historiador José Murilo de Carvalho

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) entregou, nesta terça-feira (05/05) a mais importante honraria em ciência e tecnologia do Brasil, o Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia. A concessão do prêmio aconteceu durante a cerimônia de posse dos novos membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio de Janeiro.

Presidente do CNPq, Marco Antonio Zago

“O Prêmio Almirante Álvaro Alberto é a mais importante distinção outorgada pelo CNPq em associação com a Fundação Conrado Wessel para celebrar o conjunto da obra de um pesquisador brasileiro”, disse o presidente do CNPq, Marco Antonio Zago, durante seu discurso.  O Prêmio, que conta com a parceria da Fundação Conrado Wessel, homenageou este ano o pesquisador José Murilo de Carvalho, escolhido pelo Conselho Deliberativo do CNPq que, na edição referente ao ano de 2008, contemplou a área de Ciências Humanas e Sociais, Letras e Artes. “As Humanidades têm papel científico fundamental para nossa compreensão sobre o conhecimento e o funcionamento da própria sociedade e dos fenômenos sociais, entre eles economia e política”, lembrou Zago.  O presidente do CNPq ressaltou que a concessão do Prêmio ao professor José Murilo mantém a tradição de homenagear pesquisadores que tenham sua contribuição para a ciência brasileira unanimemente reconhecida. Para ele, as obras do pesquisador José Murilo, no domínio da história, o fizeram reconhecido pelo grande público, mas apresentá-lo apenas como um historiador seria desconhecer parte significativa de sua ampla contribuição à vida científica e cultural do país. “Para o pesquisador, nada é mais gratificante do que ser reconhecido pelo pares por seu trabalho”, afirma o homenageado. A posse dos novos acadêmicos durante a reunião na Academia Brasileira de Ciências (ABC) ocorreu no Hotel Copacabana Palace, do Rio de Janeiro, e contou com a presença do governador do Estado do RJ, Sergio Cabral, dos ministros da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, da Educação, Fernando Hadadd, dos secretários da Fazenda e da Ciência e Tecnologia do RJ, Joaquim Vieira Levy e Alexandre Aguiar Cardoso, respectivamente, dos presidentes da CAPES, Jorge Guimarães, da FINEP, Luis Fernandes, da Academia Brasileira de Ciências, Jacob Palis, da SBPC, Marco Antonio Raupp, da Fundação Conrado Wessel, Américo Fialdini, e do embaixador e ex-ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardemberg, além dos acadêmicos, pesquisadores, comunidade científica e demais autoridades. 

Pesquisador José Murilo de Carvalho

José Murilo de Carvalho Nascido na cidade de Andrelândia, em Minas Gerais, o sociólogo e historiador José Murilo de Carvalho formou-se em sociologia e política pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1965. Mestre e doutor pela Stanford University, Estados Unidos, e pós-doutor em história da América Latina na University of London, Inglaterra, foi um dos membros fundadores da pós-graduação em Ciência Política da UFMG e do doutorado em Ciência Política e Sociologia do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro.  Suas pesquisas e sua produção concentram-se na história do Brasil Império e Primeira República, com ênfase nos temas da cidadania, republicanismo e história intelectual. Entre as homenagens recebidas, foi Pesquisador Emérito do CNPq, em 2008; Comendador da Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, pela Presidencia da República do Brasil, em 1998; e da Ordem de Rio Branco, pelo Ministério das Relações Exteriores, em 1981. Atualmente é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Brasileira de Letras.  Maior honraria da ciência brasileira

(E/D) Embaixador e ex-ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardemberg, presidente da SBPC, Marco Antonio Raupp, presidente da FINEP, Luiz Manuel Fernandes, secretario de C&T do RJ, Alexandre Aguiar Cardoso, ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, governador do Estado do RJ, Sergio Cabral, presidente da ABC, Jacob Palis, ministro da Educação, Fernando Hadadd, presidente do CNPq, Marco Antonio Zago, presidente da Fundação Conrado Wessel, Américo Fialdini, e presidente da CAPES, Jorge Guimarães.

O Prêmio Almirante Álvaro Alberto é uma parceria entre o Ministério da Ciência e Tecnologia, o CNPq e a Fundação Conrado Wessel. É um reconhecimento e estímulo a pesquisadores brasileiros pelo trabalho realizado ao longo de sua carreira em prol do progresso da ciência e pela transferência de conhecimento da academia ao setor produtivo. Concedido anualmente, o prêmio contempla pesquisadores das grandes áreas do conhecimento, em sistema de rodízio, são elas: Ciências da Vida; Ciências Exatas, da Terra e Engenharias; e Ciências Humanas e Sociais, Letras e Artes.  O importante diferencial do prêmio é não aceitar inscrições. O agraciado escolhido recebe diploma, medalha e R$ 150 mil, quantia concedida pela Fundação Conrado Wessel, em cerimônia pública que este ano se realizou na Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio de Janeiro.  A cada ano, uma Comissão de Especialistas é designada para indicar os nomes dos candidatos merecedores do prêmio. A comissão é formada por representantes da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Associação Nacional dos Docentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES), do Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de Ciência, Tecnologia e Inovação (CONSECTI), do Conselho Nacional das Fundações de Amparo à Pesquisa dos Estados (CONFAP) e dos Comitês de Assessoramento do CNPq. Este ano, a comissão foi formada pelos pesquisadores Gilberto Velho (presidente), Ismail Xavier, Virgílio Almeida, Aldina Prado Barral, Elisa Pereira Reis, Roque Laraia, Malvina Tuttman, Eliane Barbosa, Maria Amélia Teles, Roberto Kant Lima, Eudenilson de Albuquerque e Rui Curi.  Criado em 1981, o Prêmio vem sendo concedido aos mais destacados pesquisadores brasileiros, entre eles Sergio Henrique Ferreira, Fernando Galembeck, Carlos Chagas Filho, Celso Monteiro Furtado, Aziz Nacib Ab'Saber, Ozires Silva, Florestan Fernandes, Caio Prado Júnior, Otto Richard Gottlieb, Mário Schenberg, Herch Moysés Nussenzveig, José Leite Lopes, Eduardo Moacyr Krieger, Jacob Palis Júnior, Maria Isaura Pereira de Queiroz, entre outros (veja a lista completa emhttp://www.cnpq.br/premios/2008/alvaro_alberto_2008/index.htm) Veja aqui o discurso completo do presidente do CNPq, Marco Antonio Zago." 

 

Assessoria de Comunicação Social do CNPq

 

9 de maio de 2009

O dia em que Mandela foi eleito.

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Foi em um  dia 09 de maio de 1994 que Nelson Mandela foi eleito presidente da África do Sul. Mais do que um homem, Mandela se tornou um símbolo da resistência dos que lutam por um mundo melhor. Passou 27 anos na cadeia por lutar contra o regime do apartheid.
 Sofreu assim como todo o seu povo. E depois de tanta dor, conseguiu dar a volta por cima. 
É a certeza que depois de um tempo de terror, eis que um novo dia  surge, fruto da luta dos povos.
E Mandela não lutava somente contra o racismo mas contra toda forma de opressão. E ainda luta por uma África do Sul mais justa e solidária. 
Viva a luta do povo sul-africano.  Salve, Nelson Mandela.   
Também foi em um 09 de maio, mas de 1453, que os turcos tomaram a cidade de Constantinopla, pondo fim ao Império Bizantino e marcando o início da Idade Moderna. 
  

8 de maio de 2009

Dos partidos comunistas.

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Ensinamento do camarada Álvaro Cunhal (1913-2005), escritor e durante muitos anos, secretário-geral do Partido Comunista Português - PCP, sobre as 6 características de um verdadeiro partido comunista. 
É o que incomoda a ordem social do capital.    
 
1ª - Ser um partido completamente independente dos interesses, da ideologia, das pressões e ameaças das forças do capital.
"Trata-se de uma independência do partido e da classe, elemento constitutivo da identidade de um partido comunista. Afirma-se na própria acção, nos próprios objectivos, na própria ideologia. A ruptura com essas características essenciais em nenhum caso é uma manifestação de independência mas, pelo contrário, é, em si mesma, a renúncia a ela." 
2ª - Ser um partido da classe operária, dos trabalhadores em geral, dos explorados e oprimidos .
"Segundo a estrutura social da sociedade em cada país, a composição social dos membros do partido e da sua base de apoio pode ser muito diversificada. Em qualquer caso, é essencial que o partido não esteja fechado em si, não esteja voltado para dentro, mas, sim voltado para fora, para a sociedade, o que significa, não só mas antes de mais, que esteja estreitamente ligado à classe operária e às massas trabalhadoras.
Não tendo isto em conta, a perda da natureza de classe do partido tem levado à queda vertical da força de alguns e, em certos casos, à sua autodestruição e desaparecimento. 
A substituição da natureza de classe do partido pela concepção de um “partido dos cidadãos” significa ocultar que há cidadãos exploradores e cidadãos explorados e conduzir o partido a uma posição neutral na luta de classes – o que na prática desarma o partido e as classes exploradas e faz do partido um instrumento apendicular da política das classes exploradoras dominantes."
3ª - Ser um partido com uma vida democrática interna e uma única direcção central.
"A democracia interna é particularmente rica em virtualidades nomeadamente: trabalho colectivo, direcção colectiva, congressos, assembleias, debates em todo o partido de questões fundamentais da orientação e acção política, descentralização de responsabilidades e eleição dos órgãos de direcção central e de todas as organizações.
A aplicação destes princípios tem de corresponder à situação política e histórica em que o partido actua.
Nas condições de ilegalidade e repressão, a democracia é limitada por imperativo de defesa. Numa democracia burguesa, as apontadas virtualidades podem conhecer, e é desejável que conheçam, uma muito vasta e profunda aplicação." 
4ª - Ser um partido simultaneamente internacionalista e defensor dos interesses do país respectivo.
"Ao contrário do que em certa época foi defendido no movimento comunista, não existe contradição entre estes dois elementos da orientação e acção dos partidos comunistas.
Cada partido é solidário com os partidos, os trabalhadores e os povos de outros países. Mas é um defensor convicto dos interesses e direitos do seu próprio povo e país. A expressão “partido patriótico e internacionalista” tem plena actualidade neste findar do século XX.
Pode, na atitude internacionalista, incluir-se, como valor, a luta no próprio país e, como valor para a luta no próprio país, a relação de solidariedade para com os trabalhadores e os povos de outros países." 
5ª - Ser um partido que define, como seu objectivo, a construção de uma sociedade sem explorados nem exploradores, uma sociedade socialista.
"Este objectivo tem também plena actualidade. Mas as experiências positivas e negativas da construção do socialismo numa série de países e as profundas mudanças na situação mundial, obrigam a uma análise crítica do passado e a uma redefinição da sociedade socialista como objectivo dos partidos comunistas ." 
6ª - Ser um partido portador de uma teoria revolucionária, o marxismo-leninismo, que não só torna possível explicar o mundo, como indica o caminho para transformá-lo.    

7 de maio de 2009

Ricardo III

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"Prezado Paulo Henrique,

          Diante da coragem do seu blog, envio esse artigo expondo minha visão do affair.

                                                                  Theófilo
 
 
A RISADA DE RICARDO III
 
 
“A mente só repousa na solidez da verdade”
Samuel Johnson

 
Ricardo III é uma das personagens mais cruéis de Shakespeare. Só perde em maldade para Lady Macbeth e para Iago, em Othelo. Ricardo é mais um gangster perverso da família dos Yorks, o quarto na linha de sucessão ao trono da Inglaterra. Em sua busca pelo cetro, ele elimina um irmão e dois sobrinhos até ser coroado rei.

A peça Ricardo III gozou de enorme popularidade em sua época e é, ainda hoje, uma das peças mais encenadas de Shakespeare. Ricardo é uma figura assustadora, capaz de todas as maldades para atingir seus objetivos. Feio e curvado, com um braço paralisado, alia a deformidade física à de caráter. Sua única qualidade é um traço de fino humor que permeia seu discurso.

No monólogo inicial da peça, Ricardo, sem meias palavras, revela a própria personalidade. “Eu, que não fui talhado para habilidades esportivas nem para cortejar um espelho amoroso; pois bem, eu, nestes dias de serena e amolecedora paz, não acho delícia em passar o tempo, exceto expiar minha sombra ao sol e dissertar sobre minha deformidade! (…) E urdir conspirações”. 

Quando acusado por Lady Anne de ter matado o seu marido, ele, de espada na mão, responde ironicamente que o mandou para o céu: “Que ele me agradeça o favor que lhe prestei, enviando-o para lá! Nascera para essa mansão e não para a terra”. Cruel, mas bastante engraçado, não é mesmo?
Curiosamente, Ricardo, como Macbeth tem uma espécie de torcida, pois o seu humor acaba humanizando-o, fazendo com que a platéia ou o leitor torçam em algum momento, por ele.
Diferentemente de Iago, ele tem pesadelos ao final da peça.

Por que estou falando de senso de humor? Estou falando porque não tenho como deixar de comentar o “affair” Joaquim x Gilmar, que mexeu com o país nos últimos dias. Para dizer que a reação do juiz Joaquim Barbosa não foi uma resposta às palavras do Juiz Gilmar, que disse: “O senhor não tem condições de dar lição de moral”.

O ataque verbal teve uma importância secundária no ocorrido. O que fez com que Barbosa perdesse a postura não foram as palavras ditas, mas a risada dada por Gilmar; sarcástica, cheia de escárnio, deboche, profunda arrogância e desprezo. E isso, olhando na cara de Joaquim. Uma risada como aquela fere muito mais profundamente do que uma espada medieval iguais às que Ricardo usava para assustar seus pares, como fez com Lady Anne.

A risada não atinge o corpo, como um soco recebido, mas a alma, e lá dói muito mais. É dificíl não reagir a uma risada excessivamente mordaz. Assistam ao vídeo e vejam se estou enganado. Joaquim estava exaltado, no entanto, foi a gargalhada que o tirou do sério e o fez perder a serenidade de juiz. Claro que há discórdia nos bastidores, mas ninguém se segura diante de tamanho sarcasmo. E, entre pares! Isso não interessa ao Direito, mas ao Teatro e à Literatura, sim. E, se interessa ao Teatro, interessa à vida.

É preciso saber sorrir. A força do senso de humor faz com que até um monarca cruel como Ricardo possa ter a simpatia de alguém. Se Shakespeare escreveu catorze comédias e pôs figuras cômicas em todas as suas peças, mesmo na sombria Macbeth, é porque ele sabia da enorme importância do riso da vida dos homens.

Sorrisos amáveis, nunca sarcásticos. O sarcasmo é perverso, desprezível e desagregador.
 
Theófilo Silva é presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília e colaborador da Rádio do Moreno." 

Ciro Gomes no Portal Vermelho.

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Entrevista de Ciro Gomes ao Portal Vermelho

   

Você, sem razão, foi citado entre os parlamentares que utilizaram passagens aéreas do mandato para viagens de parentes – no caso, sua mãe. A seu ver, foi apenas erro ou foi má-fé? 
A imprensa misturou alhos com bugalhos, acusou pessoas que não estão envolvidas, como foi o meu caso – e isso é só lateral. Minha mãe tem 80 anos e nunca viajou com um centavo de ninguém, nem sequer tinha visto para fazer as viagens das quais ela foi acusada.

 

Toda a violência intimidatória veio para cima de mim, embora eu já esteja acostumado. Da minha parte, eu me garanto. Tenho 30 anos de vida pública decente e não fui lá (no plenário) falar sobre isso. Minha pergunta é: a quem interessa esse tipo de generalização nas denúncias? Que serviço se presta à opinião pública com essas generalizações?

 

A grande imprensa errou a mão?
Evidentemente, em um país de gente sofrida como o povo brasileiro, qualquer privilégio é intolerável, e há que se consertar, que se corrigir, que se denunciar. Entretanto, o que se fez em relação a esse assunto foi uma absurda generalização. Talvez os jornalistas não percebam – o que eu duvido. A esta altura, já vejo uma inflexão, pelo menos no jornal Folha de S.Paulo.

 

Peguemos um exemplo prático, que é muito pequeno – o que não quer dizer que eu perdoe qualquer desvio. Acho o (senador Pedro) Simon (PMDB-RS) um homem público decente, mas ele viajou com a esposa. Eu acho o (deputado federal Fernando) Gabeira (PV-RJ) um homem decente, mas viajou com a esposa ou com a amiga. Não acho que ter viajado com parentes para o estrangeiro seja o melhor critério de avaliação de quem é e quem não é decente na vida pública.

 

Porém, mesmo aceitando que o critério seja este, o fato é que metade da Câmara Federal – metade! – não viajou nenhuma vez com parente para o estrangeiro. Se a manchete dos jornais fosse “Metade da Câmara cometeu abusos”, já seria uma grande colaboração para preservar os valores democráticos. A população, na hora em que soubesse que metade viajou, imediatamente ressalvaria a instituição, a Câmara, preservaria a política como linguagem fundamental da democracia.

 

Será mesmo que essa única mudança faria tanta diferença para as pessoas?
Eu não sou contra que a imprensa denuncie com todo o azedume possível os malfeitos, os erros, os defeitos. Repito: se você disser “foi a metade”, a instituição está ressalvada. No meio do povo, o que aconteceria? Uma sadia discussão nos bares, nos ônibus, nas filas, para saber se o deputado em que eu votei está envolvido, se o seu está ou não. A imprensa pode ajudar o povo a separar o joio do trigo. A democracia é uma obra de homens e mulheres falíveis, mas também capazes de serem nobres.

 

Você não acha que...
Olha, me desculpe, eu preciso dizer mais uma coisa, e talvez vocês sejam os únicos que publiquem essa reflexão. Mas é preciso que você olhe – eu fui olhar – a lista da metade que viajou para o estrangeiro.

 

Vermelho também olhou.
Numa ponta, em dois anos e meio, fulano de tal viajou uma única vez para Bangladesh e levou a esposa – foi a uma reunião para debater a fome no mundo. Na outra ponta, tem um deputado que viajou 40 vezes para Miami com a família toda, gato, sapato, galinha, cachorro, etc. e tal.

 

Não vou cair na bobagem, num moralismo pequeno-burguês falso, de dizer que quem rouba R$ 1 rouba R$ 1 milhão. Claro que não é verdade. Tenho a experiência de professor de Direito. Quem rouba R$ 1 às vezes tem nisso a única alternativa para comer. Quem rouba R$ 1 milhão quer ficar rico, e isso é completamente diferente.

 

Mas vamos supor de novo, arbitrariamente, que você eleja um novo critério – não é decente quem fez de cinco viagens para cima neste período. Aí você reduz para uma minoria, e essa minoria é a responsável pela distorção. Ela é que deve pagar caro, mas passa batida, passa protegida.

 

E por quê? Porque se generalizou para Simom, para Gabeira ou eu, que fui citado falsamente. Nós três estamos igualados àquele que achou ótima essa generalização, vai passar impune e, provavelmente, vai repetir suas malversações em outros cantos. A generalização não cuidou de fazer essa pedagogia.

 

Folha cometeu um erro grave e ofensivo à ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Na edição de 5 de abril, o jornal divulgou uma ficha criminal falsa, supostamente dos tempos em que Dilma atuava na luta armada. Retomo a primeira pergunta: foi só descuido ou foi irresponsabilidade mesmo? 
Descuido há, e a Folha é um jornal muito leviano, como quase todos. Não podemos esperar que um jornal seja exato. Mas, em qualquer caso de inexatidão ou erro, o jornal pode tirar um exemplar amanhã e, se tiver boa-fé, permitirá a correção. Um eventual prejuízo, ainda que grave, pode ser atenuado.

 

Claro que devia haver uma responsabilidade maior. Se você quiser difamar uma pessoa, a responsabilidade é muito grave. Na vida pública, é mortal – equivale a uma sentença de morte. Se a população acreditar em certas leviandades, você destrói uma biografia pura e simplesmente com uma mentira. É disso que se trata nesta vida moderna e substantivamente midiática. Porém, na minha opinião, corrigir o erro cometido ontem está de bom tamanho – já que ainda não temos aquela democracia tão madura como a que eu ajudo a construir.

 

A maior parte dos jornais não faz assim. Quando a Folha publicou que a minha mãe tinha feito uma viagem que não fez, eu mandei uma carta ao jornal, e eles publicaram na seção de cartas dos leitores (“Painel do Leitor”). Ok, há um certo desequilíbrio – o escândalo é na primeira página e o esclarecimento fica na seção de cartas. O erro da Dilma eles corrigiram também, eu li. Houve um erro, houve a pressa, um certo descuido. Porém, corrigiram.

 

Mas vou dar um outro exemplo prático de agora. O jornal O Globo fez um grande escândalo com o nome da minha mãe, que tem 80 anos e não viajou com as passagens aéreas. Eu mandei uma carta ao Globo, e eles não publicaram. Veja bem: não publicaram uma linha. Isso é grave."