28 de outubro de 2009

As alianças de Cristo.

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Falaram tanto em Cristo e Judas nesses últimos dias e não é que o Blog Cloaca News descobriu as alianças dele?
O candidato a vereador em Porto Velho (RO) Omedino Pantoja (PRP), o Cristo da Jerusalém, não conseguiu uma vaga na Câmara de Vereadores nas últimas eleições municipais. A despeito de sua chapa abrigar uma coligação de nada menos que10 partidos - entre eles o DEMo - o Nazareno do Norte obteve apenas 420 votos, "conquistando" o 120º lugar no pleito.
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Eis a ficha do candidato, encontrada nos registros do TSE: (clique para ampliar)
Pantoja, que há 32 anos interpreta Jesus Cristo na encenação do espetáculo "O Homem de Nazaré", na Páscoa, imaginava que seu trabalho fosse fortalecer sua candidatura. Em entrevista ao portal Terra, em 08/10/2008, ele disse: "Esperava muito mais votos. Tem gente que se elegeu que não se sabe de onde veio. Sou conhecido em toda Rondônia, em todo o mundo, e fiz esta miséria de votos", reclamou. Sobre o futuro, ele afirma que não pretende desistir da política, nem do personagem. Pretende apenas rever seus diversos erros de estratégia, entre eles: "ser humilde como Jesus". "Agi como Cristo e não adiantou. Fui muito humilde, bonzinho, atencioso. Foi ignorância minha. Precisava ter pegado mais pesado", finalizou."
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Direto

27 de outubro de 2009

Cuidado: As armadilhas da pós-graduação mais fácil.

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A busca por uma melhor qualificação acadêmica e profissional é uma tarefa de muitos estudantes e trabalhadores que terminaram a graduação, seja ela um bacharelado ou uma licenciatura. Após a formatura, muitos procuram a continuidade dos estudos em cursos de pós-graduação. Existem dois tipos: a pós-graduação lato sensu, ou seja, as especializações. Esse tipo de pós-graduação não confere diploma a quem o conclui, apenas um certificado e também não é um tipo de curso que recebe investimento das instâncias governamentais e nem são avaliados pelos órgãos competentes.
Já para a pós-graduação stricto sensu, ou seja, cursos de mestrado e de doutorado, existe uma permanente fiscalização e avaliação por parte de um órgão conhecido como Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). É um órgão conhecido pela sua competência e rigor. Somente cursos reconhecidos pela CAPES tem os diplomas validados. Então meus amigos, pensem bem antes de procurar certos cursos de pós-graduação stricto sensu que prometem muitas facilidades na forma de estudo e também que escondem que os mesmos não são reconhecidos pela CAPES.
Transcrevo documento enviado pela Assessoria de Comunicação da CAPES para as universidades brasileiras e o público em geral:
"Em relação à revalidação dos diplomas obtidos no MERCOSUL, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) esclarece que:
1. A Capes não é responsável pelo reconhecimento dos diplomas
estrangeiros;
2. Para ter validade no Brasil, o diploma concedido por estudos realizados no exterior deve ser submetido ao reconhecimento por universidade brasileira que possua curso de pós-graduação avaliado e reconhecido pela Capes. O curso deve ser na mesma área do conhecimento e em nível de titulação equivalente ou superior (art. 48, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação);
3. Os critérios e procedimentos do reconhecimento (revalidação) são definidos pelas próprias universidades, no exercício de sua autonomia técnico-científica e administrativa;
4. Estudantes que se afastam do Brasil para cursarem mestrado ou doutorado no exterior com bolsas concedidas pela própria Capes e outras agências brasileiras também passam pelo mesmo processo de reconhecimento;
5. Por força de lei, mesmo os diplomas de mestre e doutor provenientes dos países que integram o MERCOSUL, estão sujeitos ao reconhecimento. O acordo de admissão de títulos acadêmicos,
Decreto Nº 5.518, de 23 de agosto de 2005, não substitui a Lei maior, portanto, não dispensa da revalidação/reconhecimento (Art.48,§ 3º, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação) os títulos de
pós-graduação conferidos em razão de estudos feitos nos demais países membros do MERCOSUL;
6. O parecer 106/2007 do Conselho Nacional de Educação orienta:
“A validade nacional de títulos e graus universitários obtidos por brasileiros nos Estados-Parte do MERCOSUL requer reconhecimento por universidade brasileira que possua curso de pós-graduação avaliado, recomendado pela Capes e reconhecido pelo MEC. O curso deve ser na mesma área do conhecimento e em nível de titulações equivalentes ou superior (Art. 48 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação)”;
7. A Capes alerta, ainda, que tem sido ampla a divulgação de material publicitário por empresas captadoras de estudantes brasileiros para cursos de pós-graduação modulares ofertados em períodos sucessivos de férias, e mesmo em fins de semana, nos Territórios dos demais Estados Parte do MERCOSUL. A despeito do que é sustentado pelas operadoras deste comércio, a validade no Brasil dos diplomas obtidos em tais cursos está condicionada ao reconhecimento, na forma do artigo 48, da LDB;
8. O Acordo para Admissão de Títulos e Graus Universitários para o Exercício de Atividades Acadêmicas nos Estados Partes do MERCOSUL, promulgado pelo Decreto nº 5.518, de 2005, instituiu a admissão de estrangeiros em atividades de pesquisa no país, como bem explicita o Parecer CNE/CES nº 106, de 2007, o qual, homologado pelo Ministro de Estado, deve ser rigorosamente cumprido por todas as instituições de ensino superior; 9. Especial cautela há de ser tomada pelos dirigentes de instituições públicas, não apenas no sentido de exigir o reconhecimento dos eventuais títulos apresentados por brasileiros, mas, também de evitar o investimento de recursos públicos na autorização de servidores públicos para cursarem tais cursos quando verificado o potencial risco de não reconhecimento posterior do respectivo título;
10. A Capes entende que quem sustenta a validade automática no Brasil dos diplomas de pós-graduação obtidos nos demais países integrantes do MERCOSUL, despreza o preceito do artigo quinto do Acordo de Admissão de Títulos e Graus Universitários para o Exercício de Atividades Acadêmicas nos Estados Partes do MERCOSUL promulgado pelo Decreto nº 5.518, de 2005 e a Orientação do MEC consubstanciada no Parecer CNE/CES nº 106, de 2007, praticando,
portanto, propaganda enganosa. "
Assessoria de Comunicação Social/Capes
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES
SBN Quadra 02 bloco L, Lote 06. CEP. 70.040-020. Brasília (DF)
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26 de outubro de 2009

Mudando o mundo de bicicleta

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"A primeira vez que dialogamos com Evo Morales numa fria noite do inverno austral de 2008, em La Paz, um de nós, após conhecer a data de nascimento do nosso interlocutor, disse: “Nesse mesmo dia, Fidel convocava o povo em Havana a criar as Milícias Nacionais Revolucionárias”. O presidente boliviano assentiu e, depois de um curto silêncio, salientou: "Isso quer dizer que eu também sou miliciano"."
Por Luis Báez e Pedro de la Hoz, no Granma

"Cinquenta anos depois de seu nascimento em 26 de outubro de 1959, Evo chega ao seu aniversário mergulhado nas tarefas de suas habituais jornadas. Acorda às 4 horas, despacha os primeiros assuntos uma hora depois e se mergulha no trabalho até a noite alta.
Talvez ele vá inaugurar uma obra nalgum ponto do território boliviano, supervisionar um programa, dialogar com os povoadores, corrigir perspectivas, resolver dificuldades e vislumbrar novas possibilidades para os seus.
Desde janeiro de 2006, Evo é o presidente da Bolívia. Galgou o poder com mais de 53% dos votos e foi ratificado por maioria no referendo de agosto de 2008.
Para as eleições de 6 de dezembro próximo, primeiras que se realizarão sob a nova Constituição Política do Estado, não se vislumbra nenhum candidato que consiga derrotá-lo. Por Evo, fala uma obra inédita na história do país, em matéria de justiça social, incentivos produtivos, educação e saúde.
Sobressai a dignidade resgatada de um povo que dispõe, afinal, dos benefícios da exploração das jazidas de petróleo e minérios. Também a dignidade dos descendentes dos povoadores originários — aimaras, quíchuas, guaranis e outra trintena de comunidades étnicas autóctones — que, sob o seu governo, passaram do abandono e da negação longamente padecidas para o protagonismo de uma gesta coletiva.
O senador Antonio Peredo, que se dedica também à análise política nos meios de comunicação, comentou-nos a respeito disso: "Neste momento, eu não vejo uma figura consistente, séria, a não ser Evo. Acontece que o único programa da direita é recuarmos. Não existe outro programa a não ser o de conseguir que os Estados Unidos nos aceitem, que a DEA volte a enfrentar os cocaleiros, que a nacionalização na teoria é certa, mas para quê nacionalizar, se não temos capitais, entregarmos os recursos ao pior lançador e outras ideias velhas? A oposição ficou sem argumentos. Não pode dizer a gente que vai sustentar a mudança e a gente tem certeza de que o caminho é o da mudança e a única pessoa que pode fazê-la é Evo Morales".
Isso não quer dizer que o caminho está limpo. Ao contrário, urdem-se manobras e pairam sobre ele ameaças. Numa exclusiva, o ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, ofereceu-nos sua opinião:
"Quando se pensa no maior inimigo, a gente deve saber que esse inimigo não tem a virtude da transparência política, mas a astúcia de não se mostrar como o grande adversário e de utilizar terceiros. Eu posso afirmar que os nossos adversários são digeríveis do ponto de vista político, porque são incapazes de criarem um projeto alternativo ao nosso. São adversários envergonhados de sua realidade, não têm identidade, carecem de doutrina própria; suas propostas são mais o fruto de lucubrações externas, têm um libreto que seguir, portanto, não nos preocupam muito. Contudo, preocupam-nos os maiores inimigos desta revolução: em certo momento, foram as transnacionais, até que um dia desferimos um golpe nelas.
Mais tarde, dedicaram-se a projetos políticos separatistas e aí se estagnaram. Hoje, agem à sombra, mas sabemos quem está tecendo o enredo. Com certeza, empregam todos os métodos impensáveis para menoscabar este processo e, é claro, isso acontece pelo golpe cívico prefeitoral, e depois, dessa aventura golpista à aventura separatista terrorista. Advirto que pode resultar numa aventura suicida."
Evo recebeu na véspera da Cúpula da Alba, efetuada há pouco, em Cochabamba, um belo presente de aniversário. A reflexão de Fidel Castro intitulada "Um Prêmio Nobel para Evo" ofereceu aos leitores de Cuba e do mundo uma informação muito pormenorizada dos méritos do presidente boliviano.
Noutra noite de confissões, Evo nos disse que, às vezes, sonhava com Fidel, e que tal qual aprendeu com seus ancestrais, eram sonhos premonitórios. Pedimos-lhe que nos falasse da primeira vez que viu o líder da Revolução:
"Aconteceu num encontro efetuado em Havana, em 1992. Com a ajuda de vários amigos, completei o dinheiro para pagar a passagem de ida e volta de Havana. Apenas fui a Havana para conhecer Cuba e Fidel. Proferi um discurso de três minutos, Fidel estava presidindo a reunião. Não pude cumprimentá-lo, mas depois fiquei sabendo que ele tinha reparado em mim. Minha volta à Bolívia se complicou. Conseguiram-me uma passagem para Lima, aonde cheguei com apenas um dólar no bolso que troquei em sóis. Por fortuna, um amigo peruano, Juan Rojas, emprestou-me US$100 para poder chegar à Bolívia."
E mais tarde?
"Tive vários encontros com Fidel. É um irmão mais velho sábio, cujo princípio básico é a solidariedade e a luta pela dignidade e justiça. Deveriam ver como se preocupa pela saúde dos outros, mas também é um grande pedagogo. Penso que Fidel é o comandante das forças libertárias da América."
No dia em que Evo foi eleito secretário-geral no seu sindicato nas plantações de coca do Chapre — antes, foi secretário de esportes e depois, presidente das seis Federações Sindicais do Trópico de Cochabamba — também não tinha dinheiro para viajar de ônibus à assembleia em Villa Tunari.
"Fui de bicicleta. Eram vários quilômetros de distância. Ao passo que pedalava, refletia. A céu aberto, brotavam as ideias. Pensava que o mundo não podia continuar assim, uns poucos com muitos recursos e muitos sem nada. Fui esclarecendo minha ideias e considerei que a luta devia ser anti-imperialista", disse.
No palco internacional, Evo ganhou um prestígio impressionante por suas posições claras e firmeza ética em defesa dos pobres e da Mãe Terra. Além disso, mereceu a classificação de políticos que se encontram nas antípodas de seu pensamento, como o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. Segundo noticiou a Efe numa informação datada em 16 de maio de 2006, nesse mesmo dia, perguntaram a Evo numa entrevista coletiva em Nova York sua opinião sobre a nacionalização dos combustíveis e a situação no país sul-americano. Clinton respondeu por sua vez com uma pergunta: "O que faria o senhor se fosse um mineiro boliviano que trabalha 60 horas por semana e tem que alimentar quatro filhos, que não têm perspectiva de progresso? Em quem o senhor tivesse votado?".
Considera, ademais, Hugo Chávez como seu irmão. Chávez também. No recente ato comemorativo por ocasião do biecentenário do grito libertário de La Paz, expressou: "Vejo Evo mais forte que nunca, mais claro que nunca, mais líder que nunca. Apóiem-no, não escutem as vozes da oligarquia, que tenta satanizar, confundir o povo a cada dia. (...) Unam-se com amor e delineiem e construam a grande Bolívia do século 21."
Evo fica maravilhado com as muitas coisas deste mundo. Seus valores supremos são a franqueza, honestidade, honradez e respeito aos idosos. Não suporta a vaidade nem a mentira. Gosta de escutar diversas opiniões antes de agir. "Eu apenas — disse-nos intimamente — faria um pedido pessoal a Cuba: Que Silvio venha cá cantar"."
Fonte: Portal Vermelho.

19 de outubro de 2009

Escravismo e escravidão.

Um comentário:
Ainda hoje em pleno século XXI recebemos todos os dias notícias sobre a escravização de seres humanos, inclusive no Brasil. Pela legislação brasileira é crime escravizar um ser humano. O artigo 149 do Código Penal estabelece o crime para quem submete uma pessoa à condição análoga a de escravo. A escravidão é uma instituição presente na história da humanidade desde os seus primórdios. Mas é preciso esclarecer algumas questões que a envolvem. Não se deve confundir o escravismo com a escravidão e muito menos com o escravo. Confusão frequente inclusive entre alguns professores de História. Ainda mais quando vemos o tratamento a que muitos trabalhadores são submetidos em nosso país, seja no campo ou nas cidades.
O Escravismo é o modo de produção em que os meios de produção - a terra, os instrumentos de trabalho - e os produtores diretos - os trabalhadores - são monopólio de uma classe social de não-trabalhadores, os senhores de escravos. Um pressuposto para esse modo de produção é a existência de um mercado de escravos, pois o mecanismo de auto-reprodução natural era ineficiente. Em outras palavras, o Escravismo matava seus agentes produtivos - os escravos, de forma que esses trabalhadores não conseguiam reproduzir-se de forma "eficiente" para os seus senhores. Nos dias atuais, a classe trabalhadora consegue se reproduzir e todos os anos vemos milhares de jovens oferecendo-se no "mercado de trabalho". É, as chances da juventude são definidas pelo "mercado"...
Mas voltando ao Escravismo, a produção depende então do trabalhador escravizado, reduzido à relação de escravidão. A relação social de produção predominante é a escravidão. Jacob Gorender apresenta de forma clara e concisa, suas características: A escravidão completa se apresenta com a propriedade, a perpetuidade e a propriedade. "Às vezes, a escravidão se apresenta como escravidão incompleta. Não há por que seguir rigidamente conceitos definitórios, quando, na vida real, suas concretizações manifestam ausência de traços e e variações aproximativas¹." Foi o caso do Brasil quando da aprovação da Lei do Ventre Livre em 1871. A partir dali, pelo menos do ponto de vista formal, cessava a transmissão hereditária da condição de escravo. A escravidão então se tornava incompleta.
A escravidão então é uma relação entre duas partes. O senhor de escravos e o escravo. Ela ocorre como relação predominante e indispensável no Escravismo, mas também ocorre em outros modos de produção tais como o M.D.P. Capitalista, o M.D.P. Asiático e o M.D.P. Feudal. No Escravismo é a relação social decisiva. Tanto que para ocorrer a expansão da produção, havia a necessidade de anexação do trabalho humano, que se dava mediante a coerção violenta. Era uma das formas de obtenção de trabalhadores, o que hoje chamamos "mão-de-obra".
Mas a escravidão não era apenas uma relação social de produção. Em um sentido lato, não apresentava características produtivas, como no caso dos escravos domésticos ou dos servi caeseri, do Império Romano. Os senhores de escravos muitas vezes tinham orgulho em possuir um plantel. Eis a fala de um escravocrata brasileiro, Luiz Peixoto de Lacerda Werneck: "O escravo não é só um agente de trabalho e de produção. É preciso desconhecer o coração humano para assim pensar; o escravo é um objeto do luxo, um meio de satisfazer certas vaidades e certos vícios da natureza do homem. Assim como a propriedade territorial tem certos atrativos, assim também o escravo oferece ao senhor um certo gozo de domínio e império, que está no coração humano, não sabemos se bem ou mal."²
Os senhores de escravos sempre se preocuparam com o controle sobre seus trabalhadores. Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, o 2º Barão de Pati do Alferes, se pronunciou sobre a necessidade de se controlar os escravos. No seu livro, Memória sobre a fundação de huma fazenda na província do Rio de Janeiro, o Barão defendeu a idéia que: "O escravo deve ter domingo e dia santo, ouvir missa se a houver na fazenda, saber a doutrina cristã, confessar-se anualmente: é isto um freio que os sujeita, muito principalmente se o confessor sabe cumprir o seu dever e os exorta a terem moralidade, bons costumes e obediência cega a seus senhores e a quem os governa.(...) Nem se diga que o preto é sempre inimigo do senhor; isto só sucede com os dois extremos: demasiada severidade, ou frouxidão excessiva, porque esta torna-os iracíveis ao menor excesso de um senhor frouxo, e aquela toca-os à desesperação.(...) O negro deve ser castigado quando comete crime: o castigo deve ser proporcional ao delito: ele que apanha, não se esquece e corrige-se com esta pontualidade. Fazei pois justiça reta e imparcial ao vosso escravo, que ele, apesar de sua brutalidade, não deixará de reconhecer.³"
A Justiça dos senhores... Eis aí algumas recomendações daquele nobre, algumas poderiam fazer parte do discurso de alguns ideólogos do conservadorismo brasileiro nos dias atuais, ou de alguma representação patronal. A classe trabalhadora ainda tem muito o que conquistar em nosso país. Em outro momento abordaremos o "ser escravo", também muitas vezes incompreendido pelos que estudam a questão.
Referências:
1 - GORENDER, Jacob. A Escravidão Reabilitada. São Paulo: Ática, 1991,p.85.
2- CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975, p. 15-16.
3- WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória sobre a fundação de huma fazenda na província do Rio de Janeiro, p. 37.

17 de outubro de 2009

Um Nobel para Evo Morales.

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"Se a Obama lhe foi outorgado o Prêmio por ganhar as eleições em uma sociedade racista, apesar de ser afro-americano, Evo é merecedor dele por ter ganho as eleições em seu país, apesar de ser indígena, e ainda cumprir o prometido. Pela primeira vez em ambos os países um ou outro de sua etnia chega à Presidência. Mais de uma vez chamei a atenção para o fato de que Obama era um homem inteligente, educado num sistema social e político no qual crê. Deseja estender os serviços de saúde a quase 50 milhões de norte-americanos, tirar a economia da profunda crise que padece e melhorar a imagem dos Estados Unidos, deteriorada pelas guerras criminosas e as torturas. Não imagina, nem deseja nem pode mudar o sistema político e econômico de seu país. O Prêmio Nobel da Paz tem sido conferido a três Presidentes dos Estados Unidos, um ex-presidente e um candidato a Presidente. O primeiro foi Theodore Roosevelt, eleito em 1901, dos Rough Riders (jóqueis duros), quem desembarcou em Cuba seus jóqueis, mas sem cavalos, no período da intervenção dos Estados Unidos em 1898 para impedir a independência de nossa Pátria. O segundo foi Thomas Woodrow Wilson, que introduz os Estados Unidos na primeira guerra pela partilha do mundo. No Tratado de Versalhes impôs condições tão severas à vizinha Alemanha, que criou as bases para o nascimento do fascismo e o estalo da Segunda Guerra Mundial. O terceiro é Barack Obama. Carter foi o ex-presidente a quem vários anos depois de ter finalizado seu mandato lhe foi outorgado o Prêmio Nobel. Sem dúvidas, um dos poucos Presidentes desse país incapaz de ordenar o assassinato de um adversário, como fizeram outros; devolveu o Canal ao Panamá, criou o Escritório de Interesses em Havana, evitou cair em grandes déficits orçamentários e esbanjar o dinheiro em benefício do complexo militar industrial, como fez Reagan. O candidato foi Al Gore, que tinha sido vice-presidente; o político norte-americano com maior conhecimento sobre as terríveis conseqüências da mudança climática. Mais para frente, quando foi eleito candidato à Presidência, foi vítima da fraude eleitoral e despojado da vitória, por W. Bush. As opiniões sobre a entrega deste Prêmio têm sido muito divididas. Muitos partem de conceitos éticos ou refletem contradições evidentes na imprevista decisão. Haveriam preferido esse Prêmio como fruto de uma tarefa realizada. Nem sempre o Prêmio Nobel da Paz foi entregue a pessoas merecedoras dessa distinção. Às vezes receberam-no pessoas ressentidas, auto-suficientes, ou pior ainda. Lech Walesa, ao conhecer a noticia exclamou com desprezo: “Quem, Obama? É muito rápido. Não tem tido o tempo suficiente para fazer alguma coisa”. Em nossa imprensa e em CubaDebate, companheiros honestos e revolucionários foram críticos. Um deles salientou: “Na mesma semana em que foi outorgado o Prêmio Nobel da Paz a Obama, o Senado dos Estados Unidos aprovou o maior orçamento militar da história: 626 bilhões de dólares.” No Noticiário de Televisão, outro jornalista comentou: “O que fez Obama para merecer essa distinção?” Mais outros perguntaram: “E a guerra do Afeganistão e o incremento dos bombardeios?” São pontos de vista baseados nas realidades. Desde Roma, o diretor de cinema Michael Moore pronunciou uma frase lapidária: “Parabens, presidente Obama, pelo Prêmio Nobel da Paz; agora, por favor, ganhe-o”. Estou certo de que Obama concorda com a frase de Moore. Possui suficiente inteligência para compreender as circunstâncias que rodeiam o caso. Sabe que ainda não o ganhou esse Prêmio. Esse dia, de manhã, declarou: “Acho que não mereço acompanhar tantas personalidades transformadoras homenageadas com este Prêmio”. Afirma-se que são cinco os membros do famoso comitê que outorga o Prêmio Nobel da Paz. Um porta-voz asseverou que foi por unanimidade. Corresponde fazer uma pergunta? O galardoado foi ou não consultado? Uma decisão dessa índole pode ser tomada sem antes a pessoa premiada ter sido advertida disso? Este não pode ser julgado moralmente de igual forma se conhecia ou não com antecedência a indicação para o Prêmio. O mesmo pode ser afirmado a respeito daqueles que decidiram premia-lo. Talvez seja necessário criar o Prêmio Nobel da Transparência.

Por outro lado ninguém mencionou o nome de Evo. É obvio que pela primeira vez na história da Bolívia, um autêntico indígena aimara exerce a presidência desse Estado, criado pelo Libertador Simon Bolívar depois da Batalha de Ayacucho, quando o último vice-rei da Espanha foi vencido pelo General Antonio José de Sucre. A Bolívia possuía, então, 2 milhões 343 mil 769 quilômetros quadrados. A sua população era integrada fundamentalmente pelos descendentes da civilização aimara-quíchua, cujos conhecimentos em diversas esferas assombram o mundo. Mais de uma vez tinham-se sublevado contra seus opressores. Os oligarcas fratricidas e pró-imperialistas dos Estados vizinhos, apesar dos vínculos comuns de sangue e cultura, arrebataram à Bolívia 1 milhão 247 mil 284 quilômetros quadrados, mais da metade da superfície. É bem conhecido que ao longo dos séculos, o ouro, a prata e outros recursos da Bolívia eram extraídos pelos privilegiados donos de sua economia. Enormes jazidas de cobre, as maiores do mundo, e outros minérios lhe foram arrebatados depois da independência em uma das guerras promovidas pelos imperialistas britânicos e ianques. Apesar disso a Bolívia conta com importantes jazidas de gás e de petróleo e possui, além disso, as maiores reservas conhecidas de lítio, minério muito necessário em nossa época para a armazenagem e uso da energia. Evo Morales, camponês indígena muito pobre, transitou pelos Andes, juntamente com seu pai, antes de completar seis anos, pastoreando lhamas de um grupo indígena. Conduziam-nas durante 15 dias até o mercado onde as vendiam para adquirir os alimentos da comunidade. Respondendo a uma pergunta minha sobre aquela singular experiência, Evo me contou que durante a viagem “hospedava-se no hotel mil estrelas”, uma bela forma de fazer referência ao céu limpo da cordilheira onde por vezes são colocados os telescópios. Naqueles duros anos de sua infância, a alternativa dos camponeses na comunidade onde nasceu, era o corte da cana-de-açúcar na província argentina de Jujuy, na qual às vezes uma parte da comunidade refugiava-se durante a safra. Não muito longe de La Higuera, onde o Che, ferido e desarmado, foi assassinado no dia 9 de outubro de 1957, Evo, que tinha nascido no dia 26 desse mesmo mês no ano 1959, ainda não completara os 8 anos. Aprendeu a ler e a escrever em espanhol, caminhando até uma escolinha pública a cinco quilômetros da choça onde num rústico quarto viviam seus irmãos e seus pais. Durante sua azarenta infância, onde quer que houvesse um professor, ali estava Evo. De sua raça adquiriu três princípios éticos: não mentir, não roubar, não ser débil. Aos 13 anos o pai autorizou-o para que se mudasse para San Pedro de Oruro e estudar o bacharelado. Um de seus biógrafos conta que era melhor em Geografia, História e Filosofia do que em Física e Matemática. O mais importante é que Evo, para custear seus estudos, acordava às 02h00 para trabalhar como padeiro, construtor ou noutra atividade física. Freqüentava as aulas à tarde. Era admirado por seus companheiros os quais o ajudavam. Desde o primário aprendeu a tocar instrumentos de vento e foi trompete de uma prestigiosa banda de Oruro. Ainda adolescente, organizou a equipe de futebol de sua comunidade, da qual foi o capitão. O acesso à universidade não estava a seu alcance por ser indígena aimara e pobre. Após ter concluído seu último ano de bacharelado, cumpriu o serviço militar e regressou a sua comunidade, localizada na altura da cordilheira. A pobreza e os desastres naturais obrigaram a sua família a emigrar para a zona subtropical de El Chapare, onde a mesma conseguiu obter um pequeno lote de terra. Seu pai morre em 1993 quando ele tinha 23 anos. Trabalhou duramente a terra, mas era um lutador nato, organizou todos os trabalhadores, criou sindicatos e com eles encheu vazios aos quais o Estado não prestava atenção. As condições para uma revolução social na Bolívia foram criadas nos últimos 50 anos. No dia 9 de abril de 1952, antes do início de nossa luta armada, estalou a revolução nesse país com o Movimento Nacionalista Revolucionário de Victor Paz Estenssoro. Os mineiros revolucionários derrotaram as forças repressivas e o MNR tomou o poder. Os objetivos revolucionários na Bolívia estavam longe de serem cumpridos. Em 1956, segundo as pessoas bem informadas, começou o declínio desse processo. Em 1 de janeiro de 1959 triunfa a Revolução em Cuba. Três anos depois, em janeiro de 1962, nossa Pátria foi expulsa da OEA. A Bolívia absteve-se. Mais tarde todos os governos, exceto o México, interromperam relações com Cuba. As divisões do movimento revolucionário internacional fizeram-se sentir na Bolívia. Eram necessários ainda mais de 40 anos de bloqueio a Cuba, o neoliberalismo e suas desastrosas conseqüências, a Revolução Bolivariana na Venezuela e a ALBA; a Bolívia precisava de Evo e do MAS.

Seria longo sintetizar em poucas folhas sua rica história. Apenas direi que Evo foi capaz de vencer terríveis e caluniosas campanhas do imperialismo, seus golpes de Estado e ingerência nos assuntos internos, defender a soberania da Bolívia e o direito de seu povo milenar a que sejam respeitadas seus costumes. “Coca não é cocaína”, disse ao maior produtor de maconha e o maior consumidor de drogas no mundo, cujo mercado tem sustentado o crime organizado que no México e custa anualmente milhares de vidas. Os maiores produtores de drogas do planeta são dois dos países onde estão as tropas ianques e suas bases militares. Na armadilha mortal do comércio de drogas não caem a Bolívia, a Venezuela e o Equador, países revolucionários que, igual a Cuba, são membros da ALBA, sabem o que podem e devem fazer para levar a saúde, a educação e o bem-estar a seus povos. Não precisam de tropas estrangeiras para combater o narcotráfico. A Bolívia leva adiante um programa de sonho sob a direção de um Presidente aimara que conta com o apoio do povo. Em menos de três anos erradicou o analfabetismo: 824 mil 101 bolivianos aprenderam a ler e a escrever; 24 mil 699 fizeram-no em aimara e 13 mil 599 em quíchua; é o terceiro país livre de analfabetismo, depois de Cuba e da Venezuela. Presta atendimento médico gratuito a milhões de pessoas que jamais o tinham recebido; é um dos sete países do mundo que nos últimos cinco anos conseguiu reduzir mais a mortalidade infantil, com possibilidades de cumprir as Metas do Milênio antes de 2015, e em uma proporção similar às mortes maternas; operou da visão 454 mil 161 pessoas, delas 75 mil 974 brasileiros, argentinos, peruanos e paraguaios. Na Bolívia foi estabelecido um ambicioso programa social: todas as crianças das escolas públicas da primeira à oitava série, recebem uma doação anual para sufragar o material escolar que beneficia a quase dois milhões de alunos. Mais de 700 mil pessoas maiores de 60 anos recebem um bônus equivalente a 342 dólares anuais. Todas as mulheres grávidas e as crianças menores de dois anos recebem uma ajuda de aproximadamente 257 dólares. Na Bolívia, um dos três países mais pobres do hemisfério, o Estado controla os principais recursos energéticos e minerais do país, respeitando e compensando cada um dos interesses afetados. Marcha com cuidado porque não deseja retroceder um passo. Suas reservas em divisas vão crescendo. Evo dispõe de não menos de três vezes mais do que dispunha ao início de seu governo. É dos países que melhor fazem uso da cooperação externa e defende com firmeza o meio ambiente. Em muito pouco tempo se conseguiu estabelecer o Padrão Eleitoral Biométrico e já estão registrados aproximadamente 4,8 milhões de eleitores, quase um milhão mais do que o último padrão eleitoral, que em janeiro de 2009 totalizava os 3,8 milhões. Em 6 de dezembro serão as eleições. Com certeza o apoio do povo a seu Presidente aumentará. Nada tem podido deter seu crescente prestígio e popularidade. Por que não lhe é conferido o Prêmio Nobel da Paz? Entendo sua grande desvantagem: ele não é presidente dos Estados Unidos, Fidel Castro Ruz Outubro 15 de 2009 4h25"

15 de outubro de 2009

Entrevista de Fidel Castro.

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Fidel Castro: Mais de 90 por cento dos que emigraram foi, como os mexicanos ou outros, por razões econômicas e não porque não tinham emprego, ou porque não tinham acesso à educação, ou porque não tinham serviços médicos, ou não tinham acesso a alimentos a preços justos.
Ignacio Ramonet: E por que emigraram então?
Fidel Castro: Emigraram porque queriam um automóvel; porque queriam viver em uma sociedade de consumo, muito divulgada. Seria possível perguntar também aos chineses: por que emigram? Todo mundo fala dos grandes avanços que têm a China, reais, objetivos, melhorias consideráveis, não só com a revolução tiveram terras e outros direitos e possibilidades; refiro-me à China que avança a um ritmo de crescimento de 10 por cento ao ano, e, no entanto, vez ou outra vem um navio carregado com oitocentos ou mil chineses que emigram clandestinos.
Há uma pressão migratória mundial, como a que vocês conhecem na Europa, para onde emigram da Argélia, emigram do Marrocos, de toda a África emigram. Segundo a Europa, o Marrocos é uma maravilha, um aliado; no entanto, os marroquinos atravessam o estreito de Gibraltar e há acidentes também, mesmo a distância sendo mais curta.
Ignacio Ramonet: Há muito acidentes.
Fidel Castro: Lá?
Ignacio Ramonet: Lá há dezenas de mortos a cada ano, que atravessam o estreito.
Fidel Castro: Mesmo?! Mais que aqui?
Ignácio Ramonet: Provavelmente mais.
(Uma nota explicativa de Ramonet diz: Estima-se que mais de 110 mil marroquinos e subsaarianos tentam, a cada ano, atravessar clandestinamente o estreito de Gibraltar. Poucos conseguem. Segundo dados das autoridades de Madri, nos nove primeiros meses de 2003 foram detidos 15.985 estrangeiros na costa espanhola, a bordo de balsas, procedentes do Marrocos. De acordo com a Associação de Amigos e Famílias de Vítimas da Imigração Clandestina ? Afvic ?, entre 1997 e 2001 cerca de 10 mil emigrantes clandestinos procedentes do Marrocos perderam a vida ao tentar atravessar o estreito.)
Fidel Castro: Mesmo estando tão perto?
Ignacio Ramonet: Mesmo assim.
Fidel Castro: E os mexicanos, apesar do Nafta? Na fronteira do México morrem já cerca de quinhentos por ano. Não só do México, mas também da América central, que resolvem ir para os Estados Unidos, mas a maioria são mexicanos; outros costumam ir por mar.
Da República Dominicana emigraram, nos últimos vinte anos, mais de 1 milhão de dominicanos, e atravessam o canal da Mona, que é muito perigoso, e onde muitos morrem. Percebe? E vão para Porto Rico. Desse modo, há mais de 1 milhão de dominicanos emigrantes. E a maior renda que tem esse país é a proveniente das remessas.
Ignacio Ramonet: Enviadas pelos emigrantes?
Fidel Castro: Sim. Mas é muito maior do qualquer outra renda, maior que os salários de muitas maquiladoras da República Dominicana.
Ignacio Ramonet: Vocês reivindicam a suspensão dessa Lei de Ajuste porque é desumana?
(Nota: A máxima expressão da política migratória criminosa, imoral e discriminatória dos Estados Unidos contra Cuba é a Lei de Ajuste Cubano, engendro legislativo adotado em 1966, com o deliberado propósito de incentivar as saídas ilegais de cidadãos cubanos para esse país. Única deste tipo no mundo, oferece aos cubanos que chegam aos Estados Unidos por vias ilegais privilégios que não recebem cidadãos de nenhuma outra nacionalidade nem país.)
Fidel Castro: A Lei de Ajuste ocasionou a perda nem sei de quantas vidas, milhares de vidas. Até mesmo nunca chegam a informar quem foi para lá, se alguém morreu ? nunca! É o único país no mundo?
Se fizessem isso com o México? Não peço a Lei de Ajuste para os demais países, porque essa é uma lei assassina; mas sustento que, se defendem, em virtude do neoliberalismo, o livre trânsito de capital e de mercadorias, deveriam permitir, como têm os europeus no espaço Schengen, o livre trânsito de pessoas. É o que eu defendo e defenderei, e não uma Lei de Ajuste que leve a vias ilegais e cause a morte de muitas pessoas.
Quanto estão morrendo nesse “muro”? Falava-se do Muro de Berlim, concordo, um acontecimento histórico. Todo mundo, se quiser, pode investigar quais foram as causas, em que condições, os perigos da Guerra Fria ali em Berlim, os tanques se enfrentando, a terrível guerra ideológica e de propaganda entre consumismo e os países da Europa industrialmente mais atrasados.
Não vou discutir as causas que levaram, em 1961, à construção do Muro de Berlim, mas posso perguntar: quais as causas desse “muro” de 3 mil quilômetros entre o México e os Estados Unidos? Estão morrendo umas quinhentas pessoas por ano na fronteira do México com os Estados Unidos, em terras que eram também território hispânico, e onde se sabe quem são os milhões de pessoas sem documento, milhões de ilegais! Muitos dos quais estão separados de suas famílias já há muito tempo.
(…)
Ignacio Ramonet: Você disse que os que vão embora de Cuba são emigrantes “econômicos”, assim como os mexicanos, os dominicanos e os argentinos?
Fidel Castro: Isso mesmo. Você me fez uma pergunta: por que emigravam? E eu disse que as nossas emigrações são como as dominicanas, as mexicanas, países que não estão bloqueados, que não são socialistas, em que há automóveis aos montes? Têm muitas dessas coisas das sociedades de consumo, e não existe uma Lei de Ajuste, que lhes dê direito a entrar legalmente nos Estados Unidos, ainda que tenham acabado de cometer um crime, como roubar um barco. Uma Lei de Ajuste, que é o estímulo fundamental a esses emigrantes que saem ilegalmente daqui.
No México não há uma Lei de Ajuste; se houvesse, uns 30 ou 40 por cento da população mexicana emigraria para os Estados Unidos. Com as milhares de fábricas que estão montando ali que pagam salários um pouco mais altos que o salário nacional, se tivessem uma Lei de Ajuste, em torno de 30 ou 40 milhões de mexicanos estariam do outro lado. Não posso fornecer um dado exato, mas sei que na Argentina, e antes da crise?
Ignacio Ramonet: A de dezembro de 2001?
Fidel Castro: Sim. Mas já desde antes, por problemas e dificuldades, e também porque aquela foi uma nação que se formou com muitos espanhóis que emigraram, e italianos que emigraram depois da Segunda Guerra Mundial. Na Argentina, trinta por cento!
Emigraram também muitos profissionais, cientistas, intelectuais, eminentes professores, porque os norte-americanos levam o que há de melhor. Mesmo que essas pessoas costumem ir pela via legal. O roubo de “mentes” não se faz com pessoas roubando barcos e correndo riscos, ou cruzando a fronteira arriscando a vida.
Eu acho que a Argentina está em melhor situação econômica que o México, com nível de vida melhor que o México, só que tanto os mexicanos como os argentinos que saem de seus países são chamados de emigrantes.
Ignácio Ramonet: E não de refugiados políticos, como os cubanos.
Fidel Castro: Sim todos que saem de Cuba são “exilados”. Há mais de quarenta anos, todos os que saem daqui são “exilados”, “inimigos do regime socialista”? E acontece que os cubanos têm os níveis mais altos de educação entre os latinos, e, portanto, nos Estados Unidos, têm os mais altos salários entre os latinos, porque muitos dos que chegam de outros lugares aos Estados Unidos são analfabetos, semi-analfabetos, gente que não tem profissão, e só vão para colher tomates, vegetais, uma força de trabalho mais barata. Na realidade, se houvesse uma Lei de Ajuste para a América Latina, acho que mais da metade dos residentes nos Estados Unidos seriam latino-americanos.
Agora, imagine uma Lei de Ajuste para a China, para os países da Ásia, até mesmo da Europa? Nem dá para imaginar quanta gente das regiões pobres da Europa ou desempregados emigrariam para os Estados Unidos. Para cada norte-americano nativo, dos nascidos ali, haveria, pelo menos, dois ou mais vindos de fora? Em resumo: invadiriam os Estados Unidos, ocupariam esse país se houvesse uma Lei de Ajuste mundial, como há uma Lei de Ajuste para Cuba. Essa Lei de Ajuste já tem 39 anos, e dá esses direitos aos que seqüestram um barco ou um navio. É um estímulo ao crime.
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Veja o que Fidel Castro diz sobre o internacionalismo cubano.
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Criamos uma cultura internacionalista diante do chauvinismo, e este é um país uma cultura internacionalista. Mas de meio milhão de cubanos cumpriram missões internacionalistas, como técnicos ou como combatentes.
Quem foi que enviou mais médicos, mais professores e prestou mais colaboração gratuita, sendo um país tão pobre? Que país pequeno como o nosso — e não fazemos isso por luxo, mas por sentimento — tem 10 mil estudantes de medicina da América Latina estudando em seu território gratuitamente?
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Veja o que Fidel fala sobre os “dissidentes”.
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Então esse ódio só pode ser uma coisa ideológica, veneno semeado que frutificou. Se pintam você pior do que Satanás, você vai odiar Satanás quando lhe mostrarem os motivos. Agora, eu sei que não há nenhum desses motivos. Como podem dizer que em Cuba torturam alguém? Ou que dei ordens para que torturassem alguém? Como podem dizer isso?
Aqui nunca alguém foi punido porque era dissidente ou porque tinha critérios diferentes dos da Revolução. Nossos tribunais condenam com base nas leis e punem os atos contra-revolucionários. Através de toda a história, em todas as épocas, os atos daqueles que agiram contra seu país “a serviço de uma potência estrangeira” sempre foram considerados terrivelmente graves.
É ridícula a idéia de que aqui alguém seja punido por ter uma convicção diferente das convicções da Revolução. Aqui se punem atos, não idéias. Há milhares de pessoas com convicções diferentes e com concepções diferentes das da Revolução e que desfrutam de todas as garantias e de todo o respeito.
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Veja de onde surgiu Yoani Sánchéz.
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Eles (os “dissidentes”) se reuniram também no dia 14 (de março de 2003) na casa de (James) Cason (chefe do Escritório de Interesses dos Estados Unidos) (…) Já era praticamente a cada dois dias (que ocorriam as reuniões). Tratava-se de uma “oficina de ética” sobre supostos jornalistas cubanos, e desses 34 só quatro chegaram a estudar algo; mas todos eram “jornalistas” diplomados por Cason e pela propaganda.
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Veja a situação dos direitos humanos em Cuba.
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O mundo não fica sabendo que 80 por cento das medidas em defesa dos direitos humanos que essa comissão (da ONU) aprova são propostas cubanas. (…) Propostas feitas por Cuba, apoiada às vezes por todos os países, menos os Estados Unidos, sempre por 30, 35, 40 votos. Apenas em relação a um tema os Estados Unidos se empenham, pressionam, ameaçam. (…). É o de Cuba. Para condenar Cuba por “violação dos direitos humanos”. Não há protesto de ninguém em relação a isso — ao contrário — que forneça argumentos para os Estados Unidos condenarem Cuba. E há uma batalha anual bem forte.
(…)
Veja, acredito que não haja um país com um histórico mais limpo em matéria de direitos humanos do que Cuba. O que a Revolução fez por nossa população pode ser expresso em números que nenhum outro Estado é capaz de expor. Nestes 46 anos desde a Revolução (a entrevista foi realizada em 2005), salvou-se a vida de não menos de 450 mil crianças, que teriam morrido aqui sem os progressos proporcionados pela Revolução. A expectativa de vida dos cidadãos em Cuba aumentou quinze anos em relação a 1959.
(…)
Há médicos cubanos em mais de trinta países trabalhando gratuitamente e que salvaram milhares de vidas humanas. Nós atendemos e oferecemos tratamento gratuito a milhares de crianças de Chernobyl, que nenhum país estrangeiro acolheu. Acredito que nenhum outro lugar do mundo se iguala a Cuba em generosidade com o ser humano. E este é o país que se pretende condenar por violação de direitos humanos? Só com a mentira e com a calúnia se podem formular acusações tão profundamente desonestas.
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Veja o que Fidel fala sobre a liberdade de expressão.
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Nesses meios “livres”, quem é que fala? De que se fala? Quem escreve? Fala-se sobre o que querem os donos dos periódicos ou das televisões. E escreve quem eles decidem. Você sabe bem disso. Fala-se da “liberdade de expressão”, mas na verdade o que se defende fundamentalmente é o direito de propriedade privada dos meios de comunicação de massa. Aqui em Cuba, e digo com franqueza, não existe a propriedade privada dos meios de comunicação de massa.
Mas as diferentes organizações de massa dispõem de seus próprios meios.; os estudantes têm o seu, os operários, os sindicatos, os camponeses, até os militares. Todo mundo têm o seu órgão de informação, e pode acreditar que publicam com muita liberdade tudo o que acham conveniente publicar. Em vez de questionar nossas maneiras, que são o resultado, a conseqüência de mais de quarenta anos de resistência ao nosso poderoso vizinho, valeria a pena perguntar a nossos cidadãos se se sentem livres.
(…)
Sonhamos com outra liberdade de imprensa, em um país culto, em um país que possua uma cultura geral integral e possa se comunicar com o mundo. Porque quem teme o pensamento livre não educa os povos, não os ajuda, não se esforça para que adquiram o máximo de cultura, de conhecimentos histórico e políticos os mais diversos , e para que apreciem as coisas pelo valor em si, e que as coisas saiam de suas próprias cabeças. Porque precisam aprender a julgar para que sejam capazes de pensar com a própria cabeça.
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Veja o que Fidel fala sobre presos políticos.
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Quem foi que pôs em liberdade, antes de cumprir a pena, milhares e milhares de contra-revolucionários? O governo de Cuba. Não foi o governo dos Estados Unidos. Os Estados Unidos se valem de qualquer detenção que se faça aqui no cumprimento das leis, simplesmente, para promover campanhas de propaganda contra nós.
Veja, vocês na Europa têm leis muito severas, muito mais severas que as nossas, contra os crimes políticos. Na Inglaterra, as prisões estavam cheias de condenados irlandeses que tinham motivação política e patriótica. Houve uma vez uma greve de fome, eu me lembro, em que os ingleses deixaram morrer vários presos irlandeses.
Os espanhóis aplicam leis muito severas contra os presos bascos que lutam ali por razões políticas. O governo italiano ainda mantém presos os membros das Brigadas Vermelhas que atuaram nos anos 1970… Sabemos como o governo alemão foi severo com os membros do grupo de Baader, que morreram quase todos na prisão. Na França, quantas dezenas de prisioneiros corsos não lutam por razões políticas?
E os Estados Unidos, por que não concedem liberdade aos porto-riquenhos que lutam pela independência de Porto Rico? Por que não libertam o jornalista Múmia Abu-Jamal, que está há mais de 23 anos preso? Por que não libertam o líder indígena Leonard Peltier, que está na prisão há mais de 25 anos?
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"No começo do ano passado, a mídia pró-Estados Unidos fez um carnaval sobre um suposto bloqueio, pelas autoridades cubanas, do blog de Yaoni Sánchez a partir de Cuba.
A informação foi divulgada pela própria Yoani Sánchez, que volta à mesma falsidade nas entrevistas que pululam na mídia atualmente.
Ela diz que os cubanos não podem mais visitar a página e a de outros dois blogueiros do país hospedados em um servidor alemão.
No texto, Yoani Sánchez, que faz campanha cerrada contra as instituições cubanas, não apresenta uma única prova das suas afirmações repletas de aspas — indicação de pura provocação.
É fato que o país ainda passa por uma grave crise econômica, decorrente do brusco rompimento de seu campo comercial.
Os problemas com a tecnologia da internet, por conta do bloqueio, ainda são graves.
E isso gera um intenso debate no país.
Os cubanos querem rapidez na solução do problema e debatem isso abertamente.
Num país sob forte cerco econômico, político e ideológico pela maior potência bélica da história é natural este tipo de manifestação de Yoani Sánchez, rapidamente amplificada pela propaganda anticubana.
Vale a versão, e danem-se os fatos.
Como se diz, na guerra a primeira vítima é a verdade.
Altamiro Borges escreveu um artigo no Portal Vermelho (Jovens cubanos e mentiras da Globo, publicado nos dia 19 de fevereiro de 2008) explicando que em fevereiro do ano passado os vários telejornais da Globo fizeram alarde com um vídeo em que alunos da Universidade de Ciências Informáticas (UCI) de Havana aparentemente criticam duramente o governo cubano.
Reproduzindo acriticamente o noticiário norte-americano, a Globo informou que dois universitários teriam sido presos logo após a difusão do “incidente”.
No seu afã anticubano, ela sequer conferiu as fontes.
“O vídeo, de quase uma hora de duração, mostra o desencanto da juventude”, decretou.
Na verdade, o episódio ocorreu no dia 19 de janeiro e só um mês depois foi amplificado e manipulado pela mídia.
Tratou-se de uma reunião do presidente do Assembléia Nacional, Ricardo Alarcón, com os alunos da UCI, um projeto avançado de informatização do país.
O vídeo não foi feito às escondidas, como insinuou a Globo, mas sim transmitido livremente para os dez mil estudantes da escola. Ele retrata um debate natural, democrático, entre os jovens e o deputado, no qual são feitas críticas às dificuldades de Cuba ? coisa comum de se ouvir nas ruas cubanas.
Não há qualquer repressão ou demonstração de “desencanto da juventude”.
A mentira da Globo é tão grotesca que ela nem divulgou a entrevista de Eliécer Ávila, o tal universitário preso, que apareceu logo depois, livre e faceiro, zombando das manipulações da mídia.
Num outro vídeo, que a Globo não transmitiu em horário nobre, o aluno afirma que o encontro com Alarcón tratou dos problemas da juventude e que as críticas foram no sentido de”fortalecer a construção do socialismo cubano”.
Segundo a Agência Reuters, Eliécer se mostrou indignado com as intrigas divulgadas, inclusive sobre a sua prisão.
“Tudo o que estão dizendo é uma mentira total, que desvirtua o que opinamos. Agora me dei conta da maquinaria da mídia”, disse ele.
A Globo também não repercutiu o protesto público dos alunos da UCI contra o “terrorismo midiático”.
Também não registrou para os seus incautos telespectadores um manifesto assinado pelos estudantes, professores e demais trabalhadores da universidade que condena ?a grosseira e mal-intencionada manipulação dos principais meios de comunicação do imperialismo e de seus lacaios?.
O documento informa que 99% dos alunos e funcionários da universidade votaram na eleição cubana de janeiro.
“Ratificamos a nossa inquebrantável disposição de cumprir qualquer tarefa da revolução e de continuar lutando para integrar a sua tropa do futuro”, diz o texto."
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13 de outubro de 2009

Golpistas de Honduras são acusados.

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Segundo o Blog Arlequín, golpistas de Honduras são acusados de violação dos Direitos Humanos.
"Por Alejandro Casco
FRP
Cuatro generales de las Fuerzas Armadas y el usurpador de la Jefatura del Estado, Roberto Micheletti Baín, están entre los acusados ya ante la Corte Penal Internacional, con sede en Holanda, por la violación de los Derechos Humanos, entre los que destaca delitos de lesa humanidad y por crimen de violación política.
Los acusados ante ese Tribunal de Justicia destacan el general Romeo Vásquez Velásquez, jefe del Estado Mayor Conjunto; el general Miguel Ángel García Padgett, jefe del Ejército; el general Luis Javier Prince Suazo, jefe de la Fuerza Aérea; el contra Almirante Juan Pablo Rodríguez Rodríguez, jefe de la Fuerza Naval; y Daniel López Carballo, ex jefe del Estado Mayor Conjunto.
También aparecen en el listado -para que respondan por los crímenes cometidos contra la población indefensa por oponerse al Golpe de Estado perpetrado el 28 de junio-, Salomón de Jesús Escoto Salinas, director general de Policía; Billy Joya Améndola, asesor de seguridad del gobierno de facto y ex paramilitar sindicado de violaciones de Derechos Humanos en la década de 1980.
Además, figuran en la acusación en la Audiencia Penal Internacional, Luis Alberto Rivera Avilez, Fiscal General del Estado; José Alfredo Saavedra, presidente del Congreso Nacional y diputados y diputadas que impulsaron al golpe de Estado.
A su vez, en esta denuncia como actores principales del Golpe de Estado aparecen Carlos Roberto Flores Facussé, ex Presidente de la República de Honduras, Jorge Canahuati Larach, propietario de los diarios El Heraldo y La Prensa, y José Rafael Ferrari, propietario de Emisoras Unidas y Televicentro.
La acusación fue presentada, según documento de 26 páginas, el 23 de septiembre de 2009, ante el Sr. Luis Moreno Ocampo, Fiscal General de la Corte General de la Corte Penal Internacional. La querella es presentada por Manuel Olle Sesé, presidente de la Asamblea Pro Derechos Humanos de España, y Luis Guillermo Pérez Casas, Secretario General de Derechos Humanos de la Federación Internacional de Derechos Humanos (FIDH).
En la imputación establece que "el golpe de Estado, no se ha perpetrado en particular en particular contra el Presidente José Manuel Zelaya, al que le quedaban pocos meses de gobierno, sin posibilidad ninguna de presentarse como candidato a su sucesión presidencial, sino para impedir que el pueblo hondureño pudiera decidir democráticamente si quería o no que se convocara a una Asamblea Nacional Constituyente para lo cual más del 60 por ciento de la población habría manifestado su apoyo en encuestas de opinión".
Según la demanda, los golpistas al perpetrar el cuartelazo el 28 de junio anterior han incurrido en lo siguiente:
1.- Delito contra la forma de gobierno;
2.- Delito de traición a la patria;
3.-Delito de abuso de autoridad y
4.- Delito de usurpación de funciones en perjuicio de la administración pública y el Estado de Honduras.
Estarán pendientes de más violaciones, muertos y atrocidades que el gobierno de facto siga cometiendo."

12 de outubro de 2009

Cruzadas tucanas

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Se você quiser conhecer melhor o jeito tucano de governar, acesse o blog da Tia Carmela:
Lá tem tudo sobre o jeitão deles.
E mais, tem uma brincadeira excelente para você exercitar a memória. São as palavras cruzadas tucanas:
Vale a pena.

Cenas do capitalismo brasileiro

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Não foi um ataque terrorista. Nem um terremoto. Nem uma invasão de um exército de outro país. É o capitalismo brasileiro. E ainda tem proletário que defende esse sistema.

10 de outubro de 2009

A opção pelo socialismo.

2 comentários:
Outro dia estava dando a minha aula de História Econômica Geral. O assunto era o Modo de Produção Capitalista. O texto base para a discussão era de um livro de Sir Maurice Dobb, "A Evolução do Capitalismo", mais especificamente o capítulo I, intitulado "O Capitalismo". Maurice Dobb foi professor emérito de Economia na Universidade de Cambridge e seu texto é um clássico. Pois bem, discutíamos, eu e meus alunos, as características apontadas por Dobb sobre o capitalismo. Em certo momento, uma estudante me perguntou porque eu era "crítico" do sistema capitalista se eu usava as "coisas" do sistema, tipo, tomar uma coca-cola. Sim amigos, estava eu no curso de História, na cadeira de História Econômica Geral. Expliquei à aluna que a crítica ao sistema não implica numa vida de eremita. Que os que defendem uma nova formação social, por exemplo, a socialista, não desejam a socialização da miséria. A aluna então me pediu um exemplo mais simples... Dei o exemplo do pão. Nada poderia ser mais simples. Disse a ela que o socialista não defende que se tire o pedaço de pão da casa dela para dividir com os outros mais pobres do que a sua família, mas sim a socialização da padaria.
Minha aluna então retrucou, dizendo-me que ao mostrar as mazelas do sistema capitalista, eu estava estragando o sonho de muita gente como o dela própria, e que um dia ela iria "chegar lá", ou seja, ia se tornar um empresária rica. Se ela vai "chegar lá" eu não sei, mas a questão não era bem essa. Por enquanto ela é uma estudante de História e trabalha no comércio.
Mas tudo bem, de certa forma foi discutida a opção de alguns pelo socialismo. Sei que existem inúmeras definições, modelos, explicações, caminhos, enfim, concepções do que é o "socialismo". A minha opção foi então questionada. Me perguntaram um "porquê" de eu defender uma sociedade socialista. Disse então aos meus alunos que em primeiro lugar era uma questão de identificação. Eu, uma pessoa que vivo do meu trabalho, recebendo "vencimentos" como professor de uma universidade pública, fiz uma opção. Ficar ao lado dos trabalhadores, dos assalariados. Era uma opção consciente, de classe.
Não há luxo aqui. Nem conforto. Esses pés não podem usar um "Nike".
Eis aí uma característica da opção pelo socialismo. Não ser indiferente. Acho que essa é uma característica fundamental, seja você um marxista, um socialista "reformista", um "socialista cristão", seja lá qual for a sua idéia de socialismo. Uma premissa é não ser indiferente! Isso me lembra um trecho do livro de Eduardo Galeano que se chama "Nós dizemos não!".
"Nós dizemos não ao medo. Não ao medo de dizer, ao medo de fazer, ao medo de ser. O colonialismo visível proíbe dizer, proíbe fazer, proíbe ser. O colonialismo invisível, mais eficaz, nos convence de que não se pode dizer, não se pode fazer, não se pode ser. O medo se disfarça em realismo: para que a realidade não seja irreal, dizem os ideólogos da impotência, a moral haverá de ser imoral. Frente à indignidade, frente à miséria, frente à mentira, não temos outro remédio além da resignação.
(...)
E neste estado de coisas, nós dizemos não à neutralidade da palavra humana. Dizemos não aos que nos convidam a lavar as mãos perante as cotidianas crucificações que ocorrem ao nosso redor.
(...)
Seria bela a beleza, se não fosse justa? Seria justa a justiça, se não fosse bela? Nós dizemos não ao divórcio entre a beleza e a justiça, porque dizemos sim ao seu abraço poderoso e fecundo. Acontece que nós dizemos não, e dizendo não estamos dizendo sim.
Dizendo não às ditaduras, e não às ditaduras disfarçadas de democracias, nós estamos dizendo sim à luta pela democracia verdadeira, que a ninguem negará o pão e a palavra, e que será bela e perigosa como um poema de Neruda ou uma canção de Violeta Parra.
(...)
Dizendo não à paz sem dignidade, nós estamos dizendo sim ao sagrado direito de rebelião contra a injustiça e contra sua longa história, longa como a história da resistência popular no longo mapa do Chile."
Essa é uma postura socialista. Além de não ser indiferente, ser lutador. Sim, pois o socialismo não cairá do céu, ou virá inevitavelmente. Karl Marx e Friedrich Engels alertavam sobre isso. Tá lá no "Manifesto do Partido Comunista":
"Qual partido de oposição não foi acusado de comunista pelos seus adversários no poder? Qual partido de oposição por sua vez, não lançou contra os oposicionistas mais à esquerda ou contra seus adversários mais à direita a pecha infamante de comunista? (...) Já vimos que o primeiro passo na revolução operária é a passagem do proletariado a classe dominante, a conquista da democracia pela luta. (...) Podem as classes dominantes tremer ante uma revolução comunista! Nela, os proletários nada têm a perder - exceto seus grilhões. Têm um mundo a ganhar. PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNI-VOS."
Che
Ernesto "Che" Guevara, que teve sua imagem transformada em ícone da esquerda e que teve essa mesma imagem atacada constantemente pela direita, que tenta distorcê-la e até sequestrá-la, nunca teve dúvidas em sua opção. Não só ele, inúmeros outros revolucionários. Mas aproveitando o mês de outubro e a latinidade de Che, faço uma homenagem ao valoroso combatente por uma nova sociedade. Em uma carta aos jovens comunistas cubanos, Che disse em certo momento:
"Estar sempre atento a toda massa humana que o rodeia.
Quer dizer: propõe-se a todo jovem comunista ser essencialmente humano. Ser tão humano que se acerque do melhor do humano. Purificar o melhor do homem por meio do trabalho, do estudo, do exercício contínuo da solidariedade com o povo e com todos os povos do mundo.
Desenvolver ao máximo a sensibilidade até sentir-se angustiado quando se assassina uma pessoa em qualquer lugar do mundo e para sentir-se entusiasmado quando em algum lugar do mundo, se alça uma nova bandeira de liberdade. (...)
Isto é o que pensamos sobre como deve ser um jovem comunista. E se nos disserem que somos quase uns românticos, que somos idealistas inveterados, que pensamos em coisas impossíveis, e que não se pode conseguir que a massa de um povo o que seja um arquétipo humano, nós temos de contestar, uma e mil vezes que sim, que se pode, que estamos no caminho certo, que todo o povo pode avançar, liquidar as pequenezes humanas, como foram sendo liquidadas em Cuba nestes quatro anos de Revolução."
Uma opção sempre trás consequências. Boas e outras não tão boas. O que importa mesmo é fazer a sua parte. Eu tento fazer a minha. E você?
REFERÊNCIAS
DOBB, Maurice. A Evolução do Capitalismo; nona edição. Rio de Janeiro: LTC, 1987.
GUEVARA, Ernesto. Socialismo e Juventude - textos e fotos. Tradução e seleção de textos: Sandra Luiz Alves. São Paulo: Editora e Livraria Anita, 2002.
MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista; prólogo de José Paulo Netto. São Paulo: Cortez, 1998.