14 de dezembro de 2012

Em breve.

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Estive muito tempo fora desse espaço, me dedicando à tese. Mas em breve, voltarei a escrever e divulgar o que acho relevante ser compartilhado. Abraço a todos.

31 de julho de 2012

"Coronelismo"

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Clássicos não perdem a atualidade. Mesmo quando as condições históricas mudam, os clássicos são capazes de deixar marcas indeléveis na formação de um povo. No caso do livro Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil, de Victor Nunes Leal, muitas questões ali colocadas persistem na realidade política brasileira. 
Um livro que eu aconselho a leitura. 

Um trecho:


"O fenômeno de imediata observação para quem procure conhecer a vida política no interior do Brasil é o malsinado 'coronelismo'. [...]
Como indicação introdutória, devemos notar, desde logo, que concebemos o 'coronelismo' como resultado da superposição de formas desenvolvidas do regime representativo a uma estrutura econômica e social inadequada.
[...] Por isso mesmo, o 'coronelismo' é sobretudo um compromisso, uma troca de proveitos entre o poder público, progressivamente fortalecido, e a decadente influência social dos chefes locais, notadamente dos senhores de terra. 
[...] Desse compromisso fundamental resultam as características secundárias do sistema 'coronelista', como sejam, entre outras, o mandonismo, o filhotismo, o falseamento do voto, a desorganização dos serviços públicos locais. 
[...] Os chefes políticos municipais nem sempre são autênticos 'coronéis'. A maior difusão do ensino superior no Brasil espalhou por toda a parte médicos e advogados, cuja ilustração relativa, se reunida a qualidades de comando e dedicação, os habilita à chefia. Mas esses mesmo doutores, ou são parentes, ou afins, ou aliados políticos dos 'coronéis'."

 LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. - 7ª edição - São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 43-45.

Mandonismo, falseamento do voto, "doutores" servindo aos "coronéis", serviços públicos ruins, favorecimentos, voto de cabresto...Tudo o que vemos em muitas cidades brasileiras, em pleno século XXI. Somados ao financiamento privado das campanhas, corrupção, "caixa dois", o papel da grande mídia a favorecer os candidatos que defendem seus interesses. 




2 de abril de 2012

"A era das revoltas burguesas", Slavoj Zizek

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(Fonte: Blog do Luis Nassif) 

Por Slavoj Žižek
Fonte: internazionale.it n. 937, de 24 de fevereiro de 2012
Tradução: Mario S. Mieli


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Grosz
Como Bill Gates conseguiu tornar-se o homem mais rico da América? Sua riqueza não tem nada a ver com a produção de software de qualidade a preços inferiores aos da concorrência ou com a “exploração” mais eficaz de seus funcionários (a Microsoft paga salários relativamente altos aos trabalhadores intelectuais).
O software da Microsoft continua a ser comprado por milhões de pessoas porque conseguiu impor-se como um padrão quase universal monopolizando, na prática, o setor, quase uma personificação daquilo que Marx chamava de “intelecto geral”, referindo-se ao saber coletivo em todas as suas formas, da ciência ao know-how prático. Bill Gates efetivamente privatizou o intelecto geral e enriqueceu embolsando os lucros.
A possibilidade de privatizar o intelecto geral não tinha sido prevista por Marx em seus escritos sobre o capitalismo (sobretudo porque tinha negligenciado a dimensão social). Mas é justamente esse o núcleo das disputas contemporâneas sobre propriedade intelectual: à medida que, no capitalismo pós-industrial, o papel do intelecto geral – baseado no saber coletivo e na cooperação social – continua a crescer, a riqueza se acumula de modo totalmente desproporcional respeito ao trabalho despendido para a sua produção. O resultado não é, como parecia esperar Marx, a autodissolução do capitalismo, mas a gradual transformação do lucro gerado pela exploração do trabalho em uma renda obtida graças à privatização do conhecimento.
O mesmo é verdade para os recursos naturais, cuja exploração é uma das maiores fontes de renda do mundo. Há uma luta permanente a respeito de quem teria o direito de auferir essa renda, se os cidadãos do terceiro mundo ou as grandes multinacionais ocidentais. Paradoxalmente, explicando a diferença entre o trabalho (que no uso produz mais-valia) e outras mercadorias (que consomem o seu valor no uso), Marx fala justamente do petróleo como exemplo de uma mercadoria “ordinária”, cujo consumo diminui ao se elevar o preço. Hoje qualquer tentativa de conectar o aumento e a diminuição do preço do petróleo ao crescimento ou à queda dos custos de produção ou ao custo da mão-de-obra utilizada não teria sentido: os custos de produção são insignificantes respeito ao preço que pagamos pelo petróleo, um preço que, na realidade, é a renda de que os proprietários do recurso podem dispor graças à sua limitada disponibilidade.
Uma das consequências do aumento causado pelo impacto, em crescimento exponencial, do conhecimento coletivo, é a mudança do papel do desemprego. É o sucesso do capitalismo em si (maior eficiência, crescimento da produtividade) a gerar desemprego, tornando inútil um número sempre maior de trabalhadores: aquilo que deveria ser uma bênção – ser preciso menos trabalho árduo – vira uma maldição. Ou, para dizê-lo em outros termos, a oportunidade de ser explorado em um trabalho a longo prazo é hoje percebida como um privilégio.
O mercado mundial, como observou Fredric Jameson, é “um espaço no qual todos foram, numa determinada época, trabalhadores produtivos, e no qual o trabalho começou, em toda parte, a ser demasiadamente custoso para o sistema”. No processo de globalização capitalista que estamos vivendo, a categoria dos desempregados não está mais limitada àquilo que Marx chamava de “exército industrial de reserva”. Inclui também, como observa Jameson, “aquelas exterminadas populações de todo o mundo que foram deliberadamente excluídas dos projetos modernizadores do capitalismo do mundo desenvolvido e postas de lado como casos desesperados”: os chamados estados falidos (Congo, Somália), vítimas das carestias ou dos desastres ecológicos, aqueles presos nas armadilhas de lutas étnicas pseudo-arcaicas, no centro das atenções dos filantropos e das ongs, ou alvos da guerra contra o terror.
Desse modo, a categoria dos desempregados foi ampliada até abranger uma gama enorme de pessoas, dos temporariamente desempregados aos não mais empregáveis e aos permanentemente desempregados, até os moradores dos guetos e favelas (todos aqueles que Marx tendia a liquidar, definindo-os “lumpenproletariat”) e a inteiras populações excluídas do processo capitalista global, como os espaços vazios nos mapas antigos.
Alguns creem que esta nova forma de capitalismo ofereça novas possibilidades de emancipação. Pelo menos essa é a tese de Multidões, de Michael Hardt e Antonio Negri, que procuram radicalizar a tese de Marx segundo a qual bastaria cortar a cabeça do capitalismo para se obter o socialismo. Marx, segundo eles, era vítima de um condicionamento histórico: pensava em termos de trabalho industrial centralizado, automatizado e hierarquicamente organizado, de modo que para ele o intelecto geral era algo parecido com uma agência central de planejamento.
Segundo os autores, somente hoje, com a consolidação do “trabalho imaterial”, tornou-se “objetivamente possível” uma reversão revolucionária. Esse trabalho imaterial estende-se entre dois polos, do trabalho intelectual (a produção de ideias, textos, programas para computador, etc.) ao trabalho de cura (como aquele desempenhado por médicos, baby-sitters e assistentes de voo). Hoje o trabalho imaterial é hegemônico, no sentido em que Marx afirmava que, no capitalismo do século XIX, era hegemônica a grande produção industrial: não se impõe com a força dos números, mas desempenhando o papel central, estrutural e emblemático. O que emerge é um domínio amplo e novo, definido “comum”: o saber compartilhado e novas formas de comunicação e cooperação. Os produtos do trabalho imaterial não são objetos, mas novas relações sociais ou interpessoais; a produção imaterial é biopolítica, é a produção da vida social.
Hardt e Negri descrevem o processo que os ideólogos do atual capitalismo pós-moderno celebram como a passagem da produção material àquela simbólica, da lógica centralista-hierárquica àquela da auto-organização e da cooperação multicêntrica. A diferença é que Hardt e Negri são fiéis a Marx: procuram demonstrar que ele tinha razão, que o emergir do intelecto geral é incompatível a longo prazo com o capitalismo. Os ideólogos do capitalismo moderno sustentam exatamente o oposto: a teoria (e a prática) marxista, afirmam, permanece nos limites da lógica hierárquica do controle estatal centralizado, portanto, não pode ser medida com os efeitos sociais da revolução da informação.
Há boas razões empíricas para sustentar-se essas tese: o que, de fato, condenou os regimes comunistas foi a sua incapacidade de adaptar-se à nova lógica social. Tentaram governá-la, fazer inúmeros projetos de planificação estatal centralizada em ampla escala. O paradoxo é que aquilo que Hardt e Negri celebram como uma oportunidade para superar o capitalismo é celebrado pelos ideólogos da revolução da informação como a ascensão de um novo tipo de capitalismo “sem atritos”. A análise de Hardt e Negri tem alguns pontos fracos que nos ajudam a compreender como o capitalismo tenha conseguido sobreviver àquela que (nos clássicos termos marxistas) teria podido ser uma nova organização da produção que o rendia obsoleto. Os dois estudiosos subestimam a dimensão do sucesso do capitalismo de hoje na privatização do intelecto geral, assim como o fato de que os próprios operários, mais que a burguesia, estejam se tornando supérfluos (são cada vez mais os trabalhadores que passam a se encontrar não só temporariamente desempregados, mas estruturalmente não empregáveis).
Se idealmente o velho capitalismo pressupunha um empreendedor pronto a investir dinheiro (seu ou emprestado) na produção que ele mesmo organizava e dirigia para embolsar um lucro, hoje um novo modelo está se afirmando: não mais o empreendedor que possui uma empresa, mas o gerente ou manager especialista (ou um conselho de gerentes presidido por um CEO) que dirige uma empresa que está nas mãos de bancos (por sua vez, guiados por um gerente que não é proprietário do mesmo) ou a investidores individuais. Nesse novo tipo ideal de capitalismo, a velha burguesia, tornada não funcional, adquire uma nova funcionalidade nas condições de gerência ou management assalariado: os exponentes da nova burguesia recebem um salário, e ainda que possuam parte da própria empresa, recebem ações a título de integração de sua compensação (”prêmios” para o respectivo “sucesso”).
Essa nova burguesia continua a se apropriar da mais-valia, mas na forma (mistificada) daquilo que foi definido como “mais-salário”: são pagos muito mais que o salário mínimo proletário (um ponto de referência puramente mítico, cujo único exemplo real na atual economia global é o salário dos operários explorados nas fábricas da China ou da Indonésia), e é essa diferença com relação aos proletários comuns a determinar o status deles. A burguesia em sentido clássico tende, portanto, a desaparecer: os capitalistas reaparecem como um subconjunto de trabalhadores assalariados, managers habilitados a ganhar mais em virtude de sua competência (e é por esse motivo que a “avaliação” pseudocientífica se torna crucial”, ela legitima as disparidades). A categoria dos trabalhadores que ganham um “mais-salário” não se limita, obviamente, aos gerentes, mas se estende a todos os tipos de especialistas, administradores, funcionários públicos, médicos, advogados, jornalistas, intelectuais e artistas. O “mais” ou “plus” assume duas formas: mais dinheiro (para os gerentes e similares), mas também menos trabalho e mais tempo livre (para alguns intelectuais, mas também para os administradores públicos, etc.).
O processo de avaliação usado para decidir quais trabalhadores tenham que receber um mais-salário é um mecanismo arbitrário do poder e da ideologia, sem qualquer relação séria com a verdadeira capacidade do sujeito. O mais-salário não existe por motivos econômicos, mas por motivos políticos: serve para manter uma “classe média” em função da estabilidade social. A arbitrariedade da hierarquia social não é um erro, mas o verdadeiro xis da questão, e a arbitrariedade da avaliação desempenha um papel análogo à arbitrariedade do sucesso de mercado. A violência ameaça explodir não quando há demais contingência no espaço social, mas quando se procura eliminá-la.
Em “La marque du sacré” Jean-Pierre Dupuy define a hierarquia como um dos quatro procedimentos (“dispositivos simbólicos”) utilizados para tornar não humilhante a relação de superioridade: a hierarquia (uma ordem imposta a partir do exterior que me consente de perceber a minha condição social inferior como independente do meu valor pessoal); a desmistificação (o procedimento ideológico que demonstra como a sociedade não é uma meritocracia mas o produto de objetivas lutas sociais, consentindo-me assim de evitar a dolorosa conclusão de que a superioridade de alguém seja o resultado de seu mérito e de seus resultados); a contingência (um mecanismo parecido, que nos consente de entender como a nossa posição na escala social depende de uma loteria natural e social: os felizardos são aqueles nascidos com os genes certos em famílias ricas); e a complexidade (forças incontroláveis têm consequências imprevisíveis: por exemplo, a mão invisível do mercado pode levar à minha falência e ao sucesso do meu vizinho, ainda que eu trabalhe muito mais e seja muito mais inteligente).
Apesar das aparências, esses mecanismos não contestam ou ameaçam a hierarquia, mas a tornam aceitável, pois “o que faz desencadear a inveja é a ideia de que o outro mereça a sua sorte e não a ideia oposta, a única que pode ser expressa abertamente”. A partir dessa premissa, Dupuy chega à conclusão que é profundamente errado acreditar que uma sociedade razoavelmente justa, possa ser isenta de rancor: ao contrário, é próprio de uma sociedade desse tipo que quem ocupa posições inferiores dará vazão ao seu orgulho ferido com violentas explosões de ressentimento.
A este fenômeno está associado o impasse em que se encontra a China de hoje: o objetivo ideal das reformas de Deng Xiaoping era introduzir o capitalismo sem a burguesia (porque se teria tornado a nova classe dirigente). Mas agora os líderes chineses têm que lidar com a dolorosa descoberta de que o capitalismo sem a sólida hierarquia tornada possível pela existência de uma burguesia gera uma instabilidade permanente. E então que caminho tomará a China? Os ex-comunistas estão demonstrando ser os gerentes mais eficientes do capitalismo porque sua inimizade histórica com relação à burguesia enquanto classe se adapta perfeitamente com a tendência do capitalismo atual de se tornar um capitalismo gerencial sem burguesia – em ambos os casos, como disse Stalin há muito tempo, “os quadros decidem tudo” (uma diferença interessante entre a China e a Rússia de hoje: na Rússia, os professores universitários são ridiculamente mal pagos – na realidade, já fazem parte do proletariado – ao passo que na China eles têm um confortável mais-salário, o que garante a docilidade dos mesmos).
A ideia do mais-salário lança nova luz também sobre os persistentes protestos “anticapitalistas”. Em tempos de crise, os primeiros candidatos a apertar o cinto são os níveis mais baixos da burguesia assalariada: o protesto político é o único caminho possível se quiserem evitar de se unir ao proletariado. Mesmo que seus protestos com palavras sejam dirigidos contra a lógica brutal do mercado, estão de fato protestando contra a gradual erosão de sua posição econômica politicamente privilegiada.
Na “Revolta de Atlante”, Ayn Rand imagina uma greve de capitalistas “criativos”, uma fantasia que encontra a sua realização perversa nas greves atuais, muitas das quais têm como protagonista uma burguesia assalariada movida pelo medo de perder os seus mais-salários. Esses não são protestos proletários, mas contra a ameaça de se verem reduzidos ao status de proletários. Quem ousa fazer greve, hoje, quando ter um trabalho estável é por si só um privilégio? Não os operários mal pagos naquilo que sobra das fábricas têxteis ou lugares similares, mas aqueles trabalhadores privilegiados que têm lugar garantido: professores, operadores do sistema de transporte público, policiais. Isso explica também a onda de protestos dos estudantes: sua motivação principal é presumivelmente o medo de que no futuro a instrução superior não garanta mais um mais-salário.
Ao mesmo tempo, é claro que a enorme onda de protestos do ano passado, da primavera árabe à Europa ocidental, de Occupy Wall Street à China, da Espanha à Grécia, não deveria ser qualificada simplesmente como uma revolta da burguesia assalariada. Cada caso deve ser considerado individualmente. Os protestos estudantis contra a reforma universitária na Grã-Bretanha eram claramente diferentes dos choques de agosto, que foram um festival consumista de destruição, uma verdadeira explosão dos excluídos.
Poderíamos argumentar que a sublevação no Egito tenha começado em parte como uma revolta da burguesia assalariada (com os jovens com educação formal que se manifestavam devido à falta de perspectivas), mas esse foi só um aspecto de uma rebelião mais ampla contra um regime opressor. Por outro lado, o protesto não envolveu uma verdadeira mobilização dos operários e dos camponeses pobres, e a vitória eleitoral dos islamistas deixa evidente a limitada base social da origem do protesto laico. A Grécia é um caso especial: nos últimos decênios foi criada uma nova burguesia assalariada (especialmente na paquidérmica administração estatal), graças aos auxílios financeiros da União Europeia, e os protestos foram motivados em grande parte pela ameaça de que tudo isso possa acabar.
Paralelamente à proletarização da pequena burguesia assalariada, ocorre no extremo oposto a remuneração irracionalmente alta dos top managers e dos grandes banqueiros (irracional porque ela tende a ser inversamente proporcional ao sucesso de uma empresa). Em vez de submeter essas tendências a uma crítica moralista, deveríamos lê-las como sinais do fato de que o sistema capitalista não é mais capaz de garantir uma estabilidade auto regulamentada. Em outras palavras, ele corre o risco de escapar ao controle.

26 de março de 2012

Aconteceu no Ceará: manifestação é atacada, mas prossegue

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Deu no site Viomundo:


"A juventude cearense realizou uma ação de “esculacho”, neste dia 26, no escritório de advocacia do ex-delegado da Polícia Federal em Fortaleza (CE), José Armando Costa, localizado no bairro da Aldeota, na rua João Carvalho, 310. Foram cerca de 80 pessoas do Levante Popular da Juventude no ato, iniciado às 10h da manhã, que levaram cartazes, faixas e materiais de agitação e propaganda para denunciar o “Dr. Armando”, como era conhecido durante a ditadura civil-militar brasileira.
Durante a ação, saíram de dentro do escritório Armando Costa Advogados Associados os filhos e funcionários do ex-torturador para tentar impedir a colagem de cartazes e as denúncias dos manifestantes. Os advogados do “Dr. Armando” entraram em conflito com os jovens, tentando impedi-los de continuar a ação, mas não houve feridos. A Polícia foi acionada, porém, vendo que se tratava de um ato pacífico, não abordou as pessoas na manifestação. O próprio José Armando Costa encontrava-se no local, mas não teve coragem de sair.
Um carro de som estava na região para divulgar à população do entorno quem era Armando Costa. A primeira reação dos vizinhos e operários que trabalham em obras próximas ao escritório foi de surpresa, pois o ex-delegado hoje em dia é dono de um dos escritórios de direito de maior prestígio em Fortaleza. De acordo com Paulo Henrique Lima, integrante do Levante Popular da Juventude, foram feitas panfletagens no bairro e os moradores e trabalhadores demonstraram apoio aos manifestantes.
Entre os jovens que participaram da ação estavam alguns ex-presos políticos, o Coletivo Aparecidos Políticos (de agitação e propaganda no Ceará), da União Nacional dos Estudantes e o Sindicato dos Gráficos do estado.
QUEM É O DR. ARMANDO
José Armando Costa foi delegado da Polícia Federal em Fortaleza (CE) no início da década de 1970. À época, presos políticos relataram à Justiça Militar que a tarefa do delegado era fazer interrogatórios logo após as sessões de tortura e também os coagia a assinar falsos depoimentos sob ameaça.
Costa aparece nos depoimentos de ao menos cinco ex-presos políticos torturados no Ceará, contidos no projeto Brasil Nunca Mais, da Arquidiocese de São Paulo. “Olha, rapaz, se você não concordar com isso que eu mandei colocar, você pode entrar numa faixa pesada”, teria dito ao engenheiro Lavoisier Alves Cavalcante, com 28 anos em 1973, conforme depoimento da vítima.
No depoimento de Ricardo de Matos Esmeraldo, estudante de 24 anos em 1973, teria desdenhado das torturas sofridas pela vítima quando levado à sua presença para interrogatório. “Dr. Armando, então, disse que aquilo era tolice e que em matéria de surra, até ele, Dr. Armando, havia apanhado de seus pais, motivo por que o interrogando não devia dar muita atenção àquele tratamento”.
José Armando Costa também é citado nos depoimentos, todos coletados em 1973, de Geraldo Majela Lins Guedes, comerciante, 24 anos, José Auri Pinheiro, estudante, 22 anos, e Vicente Walmick Almeida Vieira, físico, 31 anos. Em todos os casos, as vítimas sofreram tortura e foram levadas à presença de Costa, frequentemente identificado como “Dr. Armando”, para interrogatório.
De acordo com uma matéria do jornal universitário Campus, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, que o entrevistou na edição 336, de 25 de Maio de 2009, José Armando Costa cursou direito na Universidade Federal do Ceará e, assim que se formou, ingressou na Polícia Federal como delegado. Além do Ceará, onde chegou a ser superintendente da PF, atuou em Brasília, Bahia, Rio de Janeiro, Piauí, Rio Grande do Norte e Pernambuco.  Ao se aposentar da polícia, em 1993, Costa abriu um escritório de advocacia em Aldeota, bairro nobre de Fortaleza. Publicou seis livros sobre direito.
Também foi corregedor-geral dos Órgãos de Segurança Pública do Ceará. A associação 64/68 Anistia pediu sua exoneração em 2009 devido a seu envolvimento com torturas. Na ocasião, entrevistado pelo jornal “O Povo” (edição 24 de julho de 2009) afirmou: “Vamos admitir que eu torturei. Se meu único erro foi esse e de lá pra cá os meus detratores não encontram mais nenhum motivo pra me execrar, então respeite que este homem tem muita dignidade”."

16 de janeiro de 2012

Povos isolados localizados no Amazonas

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Do blog da redação do Repórter Brasil:


"Índios isolados foram localizados pela Fundação Nacional do Índio  (FUNAI) em uma área próxima dos canteiros de obras das hidrelétricas de Jirau e de Santo Antônio, na região Norte do país. O grupo vive na Terra Indígena Katauixi/Jacareúba, no Amazonas, entre os municípios de Lábrea e Canutama, perto da divisa com Rondônia. A informação foi inicialmente anunciada no blog da Cordenação Regional do Madeira, da Funai, mas acabou sendo retirada do ar. O texto chegou a ser divulgado no twitter oficial da C.R. Madeira. A Repórter Brasil tentou ouvir o coordenador de índios isolados da Funai, Leonardo Lenin dos Santos, sobre a suspensão da publicação, mas ele não respondeu os recados deixados em seu celular.
Quando foi despublicado, porém, o artigo já havia circulado na internet e reproduzido em outras páginas. O assunto causou preocupação entre indigenistas, entre eles Pedro Portella, da ONG Vídeo nas Aldeias, que escreveu para a redação chamando atenção para a gravidade do caso. O jornal A Crítica publicou reportagem sobre a expedição que identificou os povos indígenas isolados.
Em 2008, Rogério Vargas Motta, cordenador da Frente de Proteção Etnoambiental do Madeira, grupo da Funai que fez a localização dos índios, já chamava a atenção para o risco de grandes obras em áreas tão próximas a terras indígenas. Como parte do relatório “O fim da floresta? A Devastação das Unidades de Conservação e Terras Indígenas no Estado de Rondônia”, do Grupo de Trabalho Amazônico, ele escreveu que “existem ainda referências de oito grupos indígenas isolados em Rondônia” e que “dois desses grupos estão seriamente ameaçados pela construção das hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau no rio Madeira”.
As terras indígenas em questão começam a cerca de 30 km da área das construções, mas, devido à presença e ação do homem, os indígenas isolados já se afastaram, avançando para dentro da mata. Não é a primeira notícia sobre impacto social e ambiental da construção das usinas hidrelétricas na Amazônia. Na construção de Jirau, um flagrante de trabalho escravo fez com que a Construtora BS, contratada pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil (Enersus), fosse incluída na última atualização da “lista suja” do trabalho escravo, publicada em 30 de dezembro de 2011."

12 de janeiro de 2012

Em janeiro

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Dicas de leitura para o restante do mês de janeiro:

1) "A Piedade e a Forca". 
Livro de Bronislaw Geremek. Sobre as ações e atitudes para com os pobres e miseráveis, nas Idades Média e Moderna, caridade e repressão. Da pobreza admirada, a dos ricos que renegam sua riqueza e buscam uma suposta "santidade", à pobreza real, daqueles que sofreram as consequências das desigualdades e a repressão de várias formas. 

2) "A grande transformação: as origens de nossa época". 
Livro de Karl Polany. Sobre o sistema econômico que surgiu no século XIX, em que ao invés da economia estar embutida nas relações sociais, são estas que passam a ficar embutidas no sistema econômico. Mostra como a tese de um mercado autorregulado é uma utopia e os problemas dessa prática política. 

3) "Cultura e Sociedade: de Coleridge a Orwell". 
Livro de Raymond Williams. Sobre como o conceito predominante de cultura foi desenvolvido a partir da Revolução Industrial. Palavras como cultura, democracia, classe social, arte, entre outras, ganharam significado e usos que predominam até hoje, tanto no discurso acadêmico bem como na mídia.