29 de julho de 2009

O dragão que não existe.

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Trecho do livro de Carl Sagan, intitulado O mundo assombrado por demônios - a ciência como uma vela no escuro. Minha homenagem a todos os pesquisadores e pesquisadoras!
"10
O DRAGÃO NA MINHA GARAGEM
[A] mágica, devemos lembrar, é uma arte que requer colaboração entre o artista e seu público. E.M. Butler, The myth of the magus (1948)
- Um dragão que cospe fogo pelas ventas vive na minha garagem. Suponhamos (estou seguindo uma abordagem de terapia de grupo proposta pelo psicólogo Richard Franklin) que eu lhe faça seriamente essa afirmação. Com certeza você iria querer verificá-la, ver por si mesmo. São inumeráveis as histórias de dragões no decorrer dos séculos, mas não há evidências reais. Que oportunidade! - Mostre-me - você diz. Eu o levo até a minha garagem. Você olha para dentro e vê uma escada de mão, latas de tintas vazias, um velho triciclo, mas nada de dragão. - Onde está o dragão? - você pergunta. - Oh, está ali - respondo, acenando vagamente. - Esqueci de lhe dizer que é um dragão invisível. Você propõe espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão. - Boa idéia - digo eu - , mas esse dragão flutua no ar. Então você quer usar um sensor infravermelho para detectar o fogo invisível. - Boa idéia, mas o fogo invisível é também desprovido de calor. Você quer borrifar o dragão com tinta para torná-lo visível. - Boa idéia, só que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir. E assim por diante. Eu me oponho a todo teste físico que você propõe com uma explicação especial de por que não vai funcionar. Ora, qual é a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, e um dragão existente? Se não há como refutar minha afirmação, se nenhum experimento concebível vale contra ela, o que significa dizer que o meu dragão existe? A sua incapacidade de invalidar minha hipótese não é absolutamente a mesma coisa de provar a veracidade dela. Alegações que não podem ser testadas, afirmações imunes a refutações não possuem caráter verídico, seja qual for o valor que possam ter por nos inspirar ou estimular nosso sentimento de admiração. O que estou pedindo a você é tão-somente que, em face da ausência de evidências, acredite na minha palavra.
(...) Manter a menta aberta é uma virtude - mas, como o engenheiro espacial James Oberg disse certa vez, ela não pode ficar tão aberta a ponto de o cérebro cair para fora. Sem dúvida, devemos estar dispostos a mudar de opinão, quando autorizados por novas evidências. Mas estas devem ser fortes. Nem todas as afirmações tem igual mérito. Na maioria de casos de raptos por alienígenas, o padrão de evidências é o mesmo dos casos de aparição da Virgem Maria na Espanha Medieval. "
SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro / Carl Sagan; tradução Rosaura Eischemberg - São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pág. 170-188.

26 de julho de 2009

A China Medieval - instituições.

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Segundo o historiador Delgado de Carvalho, na obra "História Geral - Idade Média , tomo 2", a China passara por um período feudal que a dinastia Han conseguiu suprimir.
A China então era dividida entre príncipes independentes que prestavam homenagens ao imperador eleito, com uma autoridade téorica, superficial, com um papel ritual de manutenção das tradições seculares.
Parece-me que Carvalho identifica o feudalismo com a descentralização política. Desconsidera também o conceito de Modo de Produção Asiático, que me parece o mais indicado para caracterizar a formação social chinesa.
De qualquer maneira, algumas informações sobre as instituições do governo tradicional na China nos são explicadas em seu livro:
"1) Das Comendadorias, divisões territoriais administrativas, dirigidas por funcionários imperiais mais obedientes às ordens do governo, que procurava centralizar todas as atividades políticas do extenso império.
2) Emissários imperiais percorriam as províncias para relatar as condições locais e visitar os distritos estrategicamente localizados entre as possessões senhoriais e suficientemente próximos uns dos outros, para serem, entre si, como 'dentes de um cão'.
3) O Nuiko ou grande secretariado, instituído no tempo dos Ming. Era chancelaria e depósito de arquivos. " CARVALHO, Delgado. História Geral - Idade Média, Vol.2º. Rio de Janeiro: INEP, 1959, p. 38-39.
Nas formações sociais que tiveram por base o modo de produção asiático, uma característica central é a presença do Estado que extrai o excedente das comunidades aldeãs. Não há forma de exploração independente do Estado. Bem, mas isso é mais para uma discussão em sala de aula ou através de artigos, não em um blog.

25 de julho de 2009

História do Brasil- os Saquaremas.

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Em seu premiado livro, "O Tempo Saquarema - A formação do Estado Imperial", Ilmar Rohloff de Mattos faz uma análise acurada da construção da ordem imperial brasileira. Conceitos de Estado Imperial e classe senhorial são discutidos e explicados de forma acurada, além da relação entre os mesmos. Importante obra da historiografia brasileira que recomendo a todos os leitores do blog.
Na segunda parte do livro, Rohloff apresenta as diferenças entre os Liberais (Luzias) e os Saquaremas (Conservadores) e demonstra que a explicação de que eram todos "farinha do mesmo saco" pode ser revisada. Recupera as circunstâncias em que as denominações surgiram e como se impuseram.
Os conservadores brasileiros também ficaram conhecidos durante um período como "Regressistas" , defensores do slogan "Regresso à ordem".
Vamos abordar brevemente o grupo dos Saquaremas.
O termo Saquarema passou a ser utilizado de forma mais frequente a partir de 1845, para designar os chefes conservadores daquela localidade (situada na então província do Rio de Janeiro). Apesar disso, o termo foi estendido a outros conservadores.
O espaço é curto e em outro momento, apresentarei alguns líderes conservadores do Império do Brasil, tomando por referência a obra de Ilmar Rohloff. Por ora, vejamos algumas ideias dos conservadores.
- Enquanto os Liberais defendiam a ideia de que os representantes da nação é que deveriam escolher a política a ser seguida, os conservadores se opunham afirmando que isso tornaria o poder executivo apenas uma comissão do poder legislativo. Além disso, o poder Moderador ficaria prejudicado.
- Tinham um conceito qualitativo sobre a "liberdade". Na dimensão privada, afirmavam serem os homens desiguais em seus dotes naturais e habilidades. A desigualdade natural entre os homens se desdobraria em desigualdade na sociedade. Cada indivíduo teria um lugar distinto. Além disso, consideravam que havia outra diferença importante: a entre os homens livres e os escravos. Na dimensão pública, o conceito de liberdade cruzaria com o de responsabilidade. Defendiam a distinção entre os "cidadãos ativos" e os "cidadãos inativos" , aqueles que não possuiriam o direito de atuar politicamente. Mesmo no interior do mundo dos "cidadãos ativos" , havia a defesa da distinção entre votantes e eleitores.
- Acima de todos, o poder Executivo, na figura do Imperador. Defendiam a importância do soberano e da instituição monárquica, vista como elemento de coesão do corpo político e da sociedade. Para os conservadores, a sociedade não era vista como uma associação voluntária ou por um contrato de indivíduos para formar as leis para todos. Construir a nação, preservar as diferenças, promover a restauração (ordem). Entendiam o passado como um espécie de lição para o futuro.
- Divulgavam suas idéias em jornais como "O Brasil" , de 1837, onde defendiam um "guerra" sem tréguas contra os liberais e a defesa dos valores da "boa sociedade". Apresentavam-se como os defensores de um "poder administrativo", desqualificando o exercício da política, ao afirmarem a neutralidade nas questões do Estado na busca da "harmonia" e da "ordem".
- Dessa maneira, tornavam-se dirigentes mas não se diziam "políticos". Se apresentavam como diferentes dos elementos dos demais mundos (livres comuns e pobres, escravos). O tom hiperbólico, a tendência à oratória, a linguagem grandiloquente e o transboramento emocional eram marcas de sua passagem nos cargos públicos.
Em outro momento, apresentaremos mais características dos conservadores do Império para compormos o nosso quadro. Suas origens e composição social.
Referência
MATTOS, Ilmar Rohloff. O tempo saquarema - a formação do Estado Imperial. São Paulo: Hucitec, 1990.
(Obra vencedora do Prêmio Literário Nacional, 1986, Gênero História, Instituto Nacional do Livro, MinC)

Ato falho contra o Nordeste.

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Leia nessa matéria de Rodrigo Vianna, o que a Revista Veja - a pior revista do Brasil - fez em uma matéria. Imagine o que eles fazem com os adversários...
"Quem notou o erro grotesco foi o blogueiro Nivaldo Ribeiro - http://colonline.blogueisso.com/?p=10302. Numa matéria sobre a cantora Stefhany, o site da "Veja" publicou o mapa que reproduzo abaixo, para mostrar onde nasceu a garota.

O Ceará sumiu, tragado pelo Maranhão. O Pará avançou sobre território maranhense. Depois, a "Veja" tirou o mapa do ar. Mas o Nivaldo foi mais rápido: fez uma cópia da lambança e espalhou pela internet.

Na elite branca paulista, muita gente não gosta do Norte/Nordeste. A não ser que seja pra passar férias em "resort" à beira mar.

É uma turma que pensa assim: "o problema do Brasil são os nordestinos, analfabetos, que insistem em votar no Lula". É uma turma que se informa pela "Veja". Por isso, não me surpreende que o site da "Veja" não conheça muito bem a geografia do Nordeste. O público da "Veja" não liga muito pra isso. Eles querem é saber onde estão as melhores promoções da rua Oscar Freire.

Maranhão? Ceará? Ah, pra eles isso não tem a menor importância. É tudo a mesma coisa...

Print screen de um trecho da página onde o mapa foi publicado

E o Serra ainda manda comprar revista da editora Abril para distribuir pros alunos da rede estadual paulista. Faz sentido, afinal a turma do Serra também não é muito boa de geografia. Não sabem nem onde fica o Paraguai - http://www.rodrigovianna.com.br/vasto-mundo/perdido-na-america-apostila-de-serra-tem-dois-paraguais.

Lembram do mapa, que saiu numa apostila enviada aos alunos da rede pública em São Paulo?

Voces acham que o Serra aprendeu geografia com a turma da Abril? "
E assim o PIG - Partido da Imprensa Golpista demonstra todo o seu "conhecimento" sobre o Brasil.

22 de julho de 2009

Jô Soares e o 'caçador de marajás'.

Um comentário:

"Nos momentos mais deprimentes das “baixarias na política”, como na atual crise do Senado, Jô Soares sempre leva ao seu programa da TV Globo várias comentaristas globais para espinafrar os políticos e desqualificar a política. São as tais “meninas do Jô”, sempre tão venenosas e cheias de certezas.

No programa desta quarta-feira (15), as jornalistas Cristiana Lobo, Lúcio Hippolito, Lilian Witte Fibe, Flávia Oliveira e Ana Maria Tahan concentraram seus ataques no recente aperto de mão do presidente Lula ao senador Collor de Mello, numa solenidade pública em Alagoas. Para elas, travestidas de vestais da ética, este gesto seria a prova definitiva de que política não presta.

As “meninas do Jô” só deixaram da lembrar aos telespectadores sem memória que a candidatura de Collor de Mello, em 1989, foi fabricada nos sinistros laboratórios da própria TV Globo. Elas inclusive evitaram utilizar a expressão “caçador de marajás”, cunhada na época para alavancar o político alagoano e evitar a vitória de Lula, o temido líder grevista daquele período.

Elas também nada falaram sobre a manipulação grosseira feita pelo Jornal Nacional da edição do debate entre os dois candidatos, nas vésperas daquele pleito. E ainda omitiram a informação de que a família de Collor de Mello ainda é proprietária da empresa afiliada da TV Globo em Alagoas.

Anarquista ao gosto do patrão

Diante das baixarias da famíglia Marinho, o recente aperto de mão é apenas um gesto protocolar! Com seu humor tendencioso, Jô Soares nunca cobrou qualquer autocrítica de seus patrões.

Além das “meninas do Jô”, ele poderia ouvir o professor Venício de Lima, que no livro Mídia — Crise Política e Poder no Brasildesmascara as manipulações da TV Globo na eleição do “caçador de marajás” e em outros episódios lamentáveis da nossa história recente. Também poderia convidar o professor Bernardo Kucinski, que no livro A Síndrome da Antena Parabólica denuncia o total colapso da ética na mídia brasileira e o papel nefasto da famíglia Marinho na política nacional.

Até algum tempo atrás, Jô Soares ainda seduzia muita gente. Na época da ditadura, que contou com o apoio ativo da TV Globo até a reta final da campanha das “Diretas-Já”, ele fez um humor corajoso de denúncia da censura e dos militares. Após a conquista da democracia liberal, ele se deu por satisfeito e nunca mais incomodou os poderosos e os barões da mídia.

Maroto, ele vestiu a oportuna fantasia do “anarquista”. O falecido professor Maurício Tragtemberg, um intelectual anarquista autêntico, costumava zombar destes anarquistas “riquinhos”, que fazem suas críticas comportamentais, mas não tem qualquer compromisso com a justiça social."

Fonte: Portal Vermelho, a partir do Blog do Altamiro Borges.

13 de julho de 2009

A palavra e a publicidade.

2 comentários:
Da Agência Carta Maior.
"Se você busca a verdade, beba a cerveja Heineken. Quer autenticidade? Fume cigarros Winston. Busca a rebeldia? Compre uma máquina Canon. Está inconformado com a situação do mundo? Coma um hambúrguer da Burger King. Deseja afirmar sua personalidade? Use um cartão Visa. Quer defender o meio ambiente? Espelhe-se no exemplo da Shell. Hoje em dia, a publicidade tem a seu cargo o dicionário da linguagem universal. Se ela, a publicidade, fosse Pinóquio, seu nariz daria várias voltas ao mundo. O texto é de Eduardo Galeano."

"Hoje em dia, a publicidade tem a seu cargo o dicionário da linguagem universal. Se ela, a publicidade, fosse Pinóquio, seu nariz daria várias voltas ao mundo. “Busque a verdade”: a verdade está na cerveja Heineken. “Você deve apreciar a autenticidade em todas suas formas”: a autenticidade fumega nos cigarros Winston. Os tênis Converse são solidários e a nova câmara fotográfica da Canon se chama Rebelde: “Para que você mostre do que é capaz”. No novo universo da computação, a empresa Oracle proclama a revolução: “A revolução está em nosso destino”. A Microsoft convida ao heroísmo: “Podemos ser heróis”. A Apple propõe a liberdade: “Pense diferente”. Comendo hambúrgueres Burger King, você pode manifestar seu inconformismo: “Às vezes é preciso rasgar as regras”. Contra a inibição, Kodak, que “fotografa sem limites”. A resposta está nos cartões de crédito Diner's: “A resposta correta em qualquer idioma”. Os cartões Visa afirmam a personalidade: “Eu posso”. Os automóveis Rover permitem que “você expresse sua potência”, e a empresa Ford gostaria que “a vida estivesse tão bem feita” quanto seu último modelo. Não há melhor amiga da natureza do que a empresa petrolífera Shell: “Nossa prioridade é a proteção do meio ambiente”. Os perfumes Givenchy dão eternidade; os perfumes dão eternidade; os perfumes Dior, evasão; os lenços Hermès, sonhos e lendas. Que não sabe que a chispa da vida se acende para quem bebe Coca-Cola? Se você quer saber, fotocópias Xerox, “para compartilhar o conhecimento”. Contra a dúvida, os desodorantes Gillette: “Para você se sentir seguro de si mesmo”. "

10 de julho de 2009

Fim da angústia.

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Matéria do Portal Vermelho.
"9 DE JULHO DE 2009 - 21h46
Para irmã do guerrilheiro Bergson, "acabou a angústia"
Nesta semana, Tânia Gurjão Farias teve a certeza que a sigla X-2 foi, na verdade, o nome de seu irmão por cerca de 13 anos. Ou melhor, seus restos resgatados em 1996 no cemitério de Xambioá (TO). A ossada de Bergson Gurjão Farias foi identificada por um exame de DNA, confirmado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH). Ele foi morto em 1972, na Guerrilha do Araguaia. O portal Terra Magazine ouviu Tânia sobre a revelação.
Bergson Gurjão, estudante em Fortaleza
Após a notícia da identificação do militante, Terra Magazine procurou a mãe de Bergson para falar. Dona Laura, aos 94 anos, prefere se resguardar. A filha Tânia, que atendeu o pedido de entrevista, diz que a mãe prefere chorar sozinha a confirmação da morte do filho.
"Nos primeiros anos era sério; e triste"
A enviada da SEDH a Fortaleza (CE), onde mora a família do militante, foi a jornalista Vera Rotta. Ela deu pessoalmente a notícia à família. "Dona Laura chorou muito, claro, mas sozinha em seu canto", disse. Era o choro de 37 anos.
A filha Tânia atendeu o telefonema com uma forte amidalite, voz rouca, tosse seca. Mas bem humorada, apesar da resignação.
"Nos últimos 20 anos, lidar com a situação era mais tranquilo. Nos primeiros anos, ao contrário, era sério. E triste. Ninguém podia falar no telefone com ninguém sobre isso. Até vizinho insistia em fofocar e apontar: 'ali é a casa de um comunista do Araguaia'. Era assim."
"Terminou a nossa angústia de 37 anos"
Aos 64 anos, Tânia sabe que o hábito faz o monge. Ainda mais para os familiares de desaparecidos políticos no Brasil.
"Nós não tínhamos a simplicidade de falar desses assuntos. Sempre fomos induzidos a esquecer o que a gente sabia. Mas depois disso melhorou bastante. Morei 23 anos em Brasília e participei da comissão de familiares."
A sensação da notícia da identificação do corpo foi, para a irmã, um vazio completo. "A cabeça ficou 'oca'. Não se sei se todo mundo se sente assim. Fiquei vazia, no vácuo. Mas aí eu disse: se é, então graças a Deus, terminou a nossa angústia de 37 anos", disse. Pior para ela, que reafirmava para si e confiava que o irmão estava vivo.
"E eu não acreditava que ele estivesse morto, isso foi o pior para mim. Eu sempre acreditei que ele tinha escapado, porque outros escaparam. A gente sabe. E ele não."
Bergson foi o 1º a ser morto no Araguaia
Bergson não contava à família sua militância política. Para esconder sua ida ao Congresso da UNE em Ibiúna, interior de São Paulo (em 1968), o garoto disse que iria estudar na Tchecoslováquia, onde ele tinha ganhado uma bolsa. Mentira. Em nome da política.
"Tudo começou como se fosse briga estudantil para melhorar a universidade, aí no Congresso de Ibiúna. Depois dali, tudo aconteceu."
Dentre os quadros do PCdoB, Bergson Farias foi o primeiro a ser morto no Araguaia. A data 8 de maio sempre constou nas listas de mortos e desaparecidos políticos. Segundo testemunhas, ele morreu em um enfrentamento contra paraquedistas do Exército.
Condenado a dois anos de reclusão pela Justiça Militar por participar do movimento estudantil, Bergson passou a atuar na clandestinidade e mudou-se para a região do Araguaia, na área de Caianos. Até que foi delatado por um camponês que deveria entregar-lhe um rolo de fumo.
O camponês avisou o Exército sobre a transação e que cinco "paulistas" iriam para as proximidades do lugar onde deveria ser deixada a encomenda. Bergson aproximou-se e foi alvejado por três rajadas de metralhadora às vésperas de completar 25 anos.
"O ministro garantiu que é; então é"
"Falei para minha mãe que os exames deram 99,9% de certeza. Então a gente não pode deixar de aceitar uma coisa dessa. Refizeram todos os exames, com DNA, novas tecnologias. Quando o ministro (Paulo Vannuchi) disse: 'eu lhe garanto que é'. Então é."
Por último, uma pergunta política para a irmã de Bergson. Nos bastidores de mais uma força-tarefa para buscar restos mortais dos desaparecidos políticos no Araguaia - agora comandada pelo Ministério da Defesa e Exército -, qual a expectativa dela sobre o momento atual em que a identificação da ossada do irmão acontece enquanto há uma disputa entre os ministros Paulo Vannuchi e o Nelson Jobim.
E principalmente com claras e públicas demonstrações das Forças Armadas que discordam das buscas no Araguaia, além da interpretação da Lei de Anistia que permitiria a punição de torturadores.
"Eu não conheço o ministro Jobim. Sou uma pessoa que é franco atiradora. Não sou do lado de fulano, nem cicrano. Não sou partidária. Opino pelo mérito, pelo objetivo, pelo bom senso. Mas não é todo assim. O Bergson era filiado ao PCdoB, coisa que fiquei sabendo só depois. Eu creio piamente que o ministro Jobim não tem razão para atrapalhar as buscas. Mas eu gostaria muito de que isso melhorasse a situação."
Lúcia Petit foi a primeira identificada
Em três expedições ao Araguaia - em 1991, 1996 e 2001 - foram localizados 12 conjuntos de ossadas. Bergson é a segunda pessoa identificada. A primeira havia sido a professora Maria Lúcia Petit da Silva, também desaparecida em 1972 e sepultada em 1996.
Ambos eram ativistas do PCdoB, então na ilegalidade. Ambos também de uma primeira fase da repressão no Araguaia, período, segundo os familiares, em que a identificação seria, em tese, mais fácil, pois há mais relatos e evidências.
Fonte: Terra Magazine; intertítulos do Vermelho"