30 de janeiro de 2010

Classes sociais na História

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As sociedades classistas não são uma exclusividade das formações sociais capitalistas. Na verdade, a existência de classes sociais pressupõe a desigualdade social, ou seja, a exploração entre seres humanos como lastro dessas formações. Se numa formação social os homens estabelecem relações sociais de produção e estas se baseiam numa apropriação dos meios de produção e do produto social por parte de um grupo, esta formação social está cindida em classes sociais.
O Materialismo Histórico (marxismo) considera as sociedades como constituídas historicamente, em movimento. As condições materiais da existência humana são imprescindíveis nessa compreensão da História. Como demonstra Hobsbawm[1], a influência marxista mais eficaz foi a de transformar a História em uma das ciências sociais, implicando no reconhecimento de que as sociedades constituem-se de sistemas de relações entre os seres humanos, na existência de tensões nas mesmas, na existência de uma estrutura social e de sua historicidade. A explicação levando em conta as classes sociais é central.  

 Para Ellen Wood[2] existem duas formas de pensar em classe social: como um local estrutural ou como uma relação social. Quando pensamos em classe como um local na estrutura a vemos como uma forma de estratificação, ou seja, a partir de critérios como renda, oportunidades de mercado, ocupação profissional. Essa maneira de entender “classe social” é muito presente em nossa sociedade e mascara os conflitos de classe, transformando-os em problemas individuais quando os mesmos são relativos à luta de classes.
Assim o faz a grande imprensa quando fala de uma categoria profissional, referindo-se à mesma como uma classe social. Exemplo: a categoria dos médicos chamada de “classe  médica”. E por aí vai. A “classe dos motoristas”, a “classe dos artistas”, a “classe dos professores”. Haja classe social!


Outra maneira de expressar como se fosse classe social é quando nos referimos às diferenças na renda das pessoas. Então a nomenclatura pode usar as letras do alfabeto: classes A, B, C, D, E...   Parece até uma divisão de tipo de leite: A, B, C.
Trata-se na verdade, de uma divisão pela renda, que não é capaz de revelar a dinâmica interna de uma formação social.  Dessa forma de entender as classes sociais, surgem subdivisões:


  •         “classe alta”
  •         “classe média alta”, “classe média média” (sic), “classe média baixa”
  •         “classe baixa”.

Eis uma forma de entender o conceito a partir de uma estrutura que não reflete a desigualdade social, ou melhor, que enxerga a desigualdade social apenas como mais uma diferença entre as pessoas. E venhamos e convenhamos, falar em “classe média” tem muito mais a ver com uma posição política muitas vezes reacionária, um modo de consumir e um desejo de ser como os ricos do que uma verdadeira classe social.     

A segunda maneira de pensar sobre “classe social” é entendê-la como uma relação entre pessoas. Nesse entendimento, o foco está na relação social em si, nas contradições e conflitos dos processos históricos e sociais. Edward Thompson[3] via que as relações sociais de produção distribuíam as pessoas em situações de classe, ou seja, viviam e trabalhavam nas condições de classe, o que chamou de “experiência social”.


A classe social é uma força histórica, e que se estabelece a partir das relações sociais de produção, vinculadas às forças produtivas. Sendo uma força histórica, é transitória.
Um exemplo. O que te faz ser da classe social dos escravos, ou melhor, dizendo, o que te torna um escravo? É o fato de você ser escravizado por alguém. Não existe escravo sem senhor ou vice-versa. Entre o senhor de escravos e o escravizado, existe uma relação, a escravidão. No Brasil, durante o período colonial e também no imperial,  os escravos e seu trabalho constituíam a trave mestra da estrutura, a engrenagem central do sistema. No dizer de Emília Viotti da Costa,

A existência de dominadores e dominados numa relação de senhores e escravos propiciou situações particulares, específicas, marcando a mentalidade nacional. Um dos efeitos mais típicos dessa situação foi a desmoralização do trabalho. O trabalho que se dignifica à medida que se resumo no esforço do homem para dominar a natureza na luta pela sobrevivência corrompe-se com o regime da escravidão, quando se torna o resultado de opressão, exploração. Nesse caso, ele degrada aos olhos dos homens. O trabalho que deveria ser o elemento de distinção e diferenciação na sociedade, embora unindo os homens na colaboração, na ação comum, torna-se no sistema escravista, dissociador e aviltante. A sociedade não se organiza em termos de cooperação, mas de espoliação. [4]

O que Marx e Engels afirmaram na publicação do Manifesto do Partido Comunista faz todo o sentido:
A história de todas as sociedades até hoje é a história das lutas de classe.
Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e companheiro, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travando uma luta ininterrupta, umas vezes oculta, outras aberta – uma guerra que sempre terminou ou com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com a destruição das classes em luta. [5]

Basta olhar para as desigualdades que encaramos todos os dias e perceberemos como a existência das classes sociais é algo que se comprova. Mesmo que tentem refutar a teoria marxista, não há como negar o evidente antagonismo quando em uma sociedade há exploração do trabalho humano.    



[1] HOBSBAWM, Eric. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

[2] WOOD, Ellen Meiksins. Democracia contra Capitalismo – a renovação do materialismo histórico. São Paulo: Boitempo, 2003.

[3] THOMPSON, Edward P. . A formação da classe operária inglesa. V1. A árvore da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.  

[4]  COSTA, Emília Viotti da. Da senzala à colônia. São Paulo: Unesp, 1998, p. 15-16.  

[5] ENGELS, Friedrich & MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Cortez, 1998, p.4.

28 de janeiro de 2010

Saramago vai ajudar os haitianos

2 comentários:
 

O escritor José Saramago decidiu doar todo os recursos da venda de seu livro Uma jangada de pedra a caminho do Haiti, para as vítimas do terremoto naquele país.

Eis o que declarou Saramago em seu blog:

"As minhas palavras são de agradecimento. A Fundação José Saramago teve uma ideia, louvável por definição, mas que poderia ter entrado na história como uma simples boa intenção, mais uma das muitas com que dizem estar calcetado o caminho para o inferno. Era a ideia editar um livro. Como se vê, nada de original, pelo menos em princípio, livros é o que não falta. A diferença estaria em que o produto da venda deste se destinaria a ajudar as vítimas sobreviventes do sismo do Haiti. Quantificar tal ajuda, por exemplo, na renúncia do autor aos seus direitos e numa redução do lucro normal da editora, teria o grave inconveniente de converter em mero gesto simbólico o que deveria ser, tanto quanto fosse possível, proveitoso e substancial. Foi possível. Graças à imediata e generosa colaboração das editoras Caminho e Alfaguara e das entidades que participam na feitura e difusão de um livro, desde a fábrica de papel à tipografia, desde o distribuidor ao comércio livreiro, os 15 euros que o comprador gastará serão integralmente entregues à Cruz Vermelha para que os faça seguir ao seu destino. Se chegássemos a um milhão de exemplares (o sonho é livre) seriam 15 milhões de euros de ajuda. Para a calamidade que caiu sobre o Haiti 15 milhões de euros não passam de uma gota de água, mas A Jangada de Pedra (foi este o livro escolhido) será também publicada em Espanha e no mundo hispânico da América Latina – quem sabe então o que poderá suceder? A todos os que nos acompanharam na concretização da ideia primeira, tornando-a mais rica e efectiva, a nossa gratidão, o nosso reconhecimento para sempre."

27 de janeiro de 2010

O dia do historiador - 19 de Agosto

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"LEI N 12.130, DE 17 DE DEZEMBRO DE 2009
Institui o Dia Nacional do Historiador, a ser celebrado anualmente no dia 19 de agosto.
O VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA , no exercício do cargo de PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1 É instituído o Dia Nacional do Historiador, a ser celebrado anualmente no dia 19 de agosto.
Art. 2 Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 17 de dezembro de 2009; 188 da Independência e 121 da República.
JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA
João Luiz Silva Ferreira"




26 de janeiro de 2010

Estados Unidos, paguem sua dívida com o Haiti.

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Porque os EUA devem bilhões de dólares ao Haiti

Por Bill Quigley, no site Pátria Latina. 

"Porque é que os EUA devem bilhões de dólares ao Haiti? Colin Powell, antigo secretário de Estado dos EUA, definiu a sua política externa como a "regra do Pottery Barn". Ou seja – "quem parte, paga".
Durante 200 anos os EUA fizeram tudo para "partir" o Haiti. Estamos em dívida para com o Haiti. Não é uma questão de caridade. Estamos em dívida para com o Haiti por uma questão de justiça. Indenizações. E não apenas os 100 milhões de dólares prometidos pelo presidente Obama – isso são trocos. Os EUA devem ao Haiti bilhões de dólares – com Bs maiúsculos.
Há séculos que os EUA têm feito tudo para dar cabo do Haiti. Os EUA usaram o Haiti como uma plantação. Os EUA ajudaram a sangrar o país economicamente desde que ele se tornou independente, invadiu várias vezes o país com forças militarizadas, apoiou ditadores que violentaram a população, utilizaram o país como caixote do lixo para nossa conveniência econômica, arruinaram as suas estradas e a sua agricultura, e derrubaram os eleitos pela população. Os EUA até usaram o Haiti como os antigos proprietários de plantações e esgueiravam-se para ali freqüentemente para recreação sexual.
Eis a história mais resumida de algumas das principais tentativas dos EUA para dar cabo do Haiti.
Em 1804, quando o Haiti conquistou a sua independência da França na primeira revolução de escravos bem sucedida a nível mundial, os Estados Unidos recusaram-se a reconhecer o país. Os EUA continuaram a recusar o reconhecimento do Haiti durante mais 60 anos. Por quê? Porque os EUA continuavam a escravizar milhões dos seus próprios cidadãos e receavam que o reconhecimento do Haiti encorajasse a revolução dos escravos nos EUA.
Depois da revolução de 1804, o Haiti foi sujeito a um debilitante embargo econômico pela França e pelos EUA. As sanções americanas duraram até 1863. A França acabou por usar o seu poderio militar para forçar o Haiti a pagar indenizações pelos escravos que foram libertados. As indenizações foram de 150 milhões de francos. (A França vendeu todo o território da Louisiana aos EUA por 80 milhões de francos!).
O Haiti foi forçado a pedir dinheiro emprestado aos bancos da França e dos EUA para pagar as indenizações à França. Por fim, em 1947, foi finalmente feito um enorme empréstimo aos EUA para liquidar a dívida aos franceses. Qual o valor atual do dinheiro que o Haiti foi forçado a pagar aos bancos franceses e americanos? Mais de 20 mil milhões de dólares – com Bs maiúsculos.
Os EUA ocuparam e governaram o Haiti pela força de 1915 a 1934. O presidente Woodrow Wilson enviou tropas para o invadir em 1915. As revoltas dos haitianos foram dominadas pelos militares americanos – que mataram mais de 2000 num só confronto. Durante os dezenove anos que se seguiram, os EUA controlaram as alfândegas no Haiti, cobraram impostos e dirigiram muitas instituições governamentais. Quantos milhares de milhões foram aspirados pelos EUA durante esses 19 anos?
De 1957 a 1986, o Haiti foi forçado a viver sob as ditaduras de "Papa Doc" e de "Baby Doc" Duvalier, apoiados pelos americanos. Os EUA apoiaram esses ditadores econômica e militarmente porque eles faziam o que os EUA queriam e eram politicamente "anticomunistas" – ou seja, como se traduz hoje, eram contra os direitos humanos das suas populações. Duvalier roubou milhões ao Haiti e contraiu uma dívida de centenas de milhões que o Haiti ainda continua a dever. Dez mil haitianos perderam a vida. As estimativas revelam que o Haiti tem uma dívida externa de 1,3 mil milhões de dólares e que 40% dessa dívida foi contraídas pelos Duvaliers apoiados pelos EUA.
Há trinta anos o Haiti não importava arroz. Hoje o Haiti importa quase todo o seu arroz. Embora o Haiti fosse à capital do açúcar das Caraíbas, hoje também importa açúcar. Por quê? Os EUA e as instituições financeiras mundiais dominadas pelos EUA – o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial – forçaram o Haiti a abrir os seus mercados ao mundo. Depois os EUA despejaram no Haiti milhões de toneladas de arroz e açúcar subsidiados pelos EUA – arruinando os seus agricultores e arruinando a agricultura haitiana. Ao arruinar a agricultura haitiana, os EUA forçaram o Haiti a passar a ser o terceiro maior mercado mundial do arroz americano. Foi bom para os lavradores americanos, mau para o Haiti.
Em 2002, os EUA suspenderam centenas de milhões de dólares de empréstimos ao Haiti que deviam ser utilizados, entre outros projetos públicos, como a educação, para estradas. São essas as mesmas estradas que as equipas de salvamento têm tido tanta dificuldade em percorrer atualmente!
Em 2004, os EUA voltaram a destruir a democracia no Haiti quando apoiou o golpe contra o presidente eleito do Haiti, Aristides.
O Haiti até é usado para recreação sexual tal como no tempo das antigas plantações. Analisem cuidadosamente as notícias e encontrarão inúmeras histórias de abuso de menores por missionários, soldados e trabalhadores caritativos. Mais ainda, há as freqüentes férias sexuais que americanos e outros estrangeiros passam no Haiti. Quanto se deve por isso? Qual o valor que lhe atribuiriam se fossem os vossos irmãos e irmãs?
Há anos que empresas americanas têm vindo a conluiar-se com a elite haitiana para dirigir oficinas escravizantes enxameadas de milhares de haitianos que ganham menos de dois dólares por dia.
O povo haitiano tem resistido ao poder econômico e militar dos EUA e de outros desde a sua independência. Tal como todos nós, os haitianos também cometem os seus erros. Mas o poder americano tem forçado os haitianos a pagar um preço enorme – mortes, dívida e abusos.
É tempo de a população americana se juntar aos haitianos e inverter o curso das relações EUA-Haiti.
Esta breve história mostra porque é que os EUA devem ao Haiti milhares de milhões – com Bs maiúsculos. Isto não é uma questão de caridade. É uma questão de justiça. É uma indenização. A atual crise é uma oportunidade para a população americana tomar consciência da história do nosso país no que se refere ao domínio do Haiti e dar uma resposta deveras justa."


"Para saber mais sobre a história da exploração do Haiti pelos EUA ver:
 Paul Farmer, The Uses of Haitihttp://www.assoc-amazon.fr/e/ir?t=resistirinfo-21&l=ur2&o=8
 Peter Hallward, Damming the Floodhttp://www.assoc-amazon.fr/e/ir?t=resistirinfo-21&l=ur2&o=8
O original encontra-se em http://www.countercurrents.org/quigley170110.htm . Tradução de Margarida Ferreira."

25 de janeiro de 2010

Brasiliana da USP com novo site.

Um comentário:
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O site da Brasiliana, criado pela área de História da USP, está com cara nova. Recebi mensagem do Prof. Dr. Pedro Puntoni anunciando que nesse dia 25, a partir das 14 horas, o site da Brasiliana vai poder ser acessado com as inovações. 
Segundo a mensagem,  


"Está mais fácil acessar os livros digitais e o visual do site foi alterado.




A nova versão, que chamamos de 1.1, ainda é uma versão de testes. Ela oferece ao usuário um acesso mais fácil ao conteúdo da Brasiliana Digital.


Antes, era possível baixar cada livro em duas versões: alta resolução ou baixa resolução. Os arquivos em alta resolução (300 dpi) eram maiores, por isso o tempo de download era longo. Entretanto, eram arquivos melhores para impressão. Os arquivos em baixa resolução (100 dpi) eram mais leves e adequados para serem lidos na tela do computador. Utilizando um novo software de compressão dos dados, foi possível diminuir incrivelmente o tamanho destes arquivos (95% em média), mantendo-os todos em alta resolução (300 dpi). Agora você não terá mais de escolher – terá a melhor qualidade de imagem e mais rápido.


Além disso, alteramos o visual do site. Agora ficará mais fácil navegar pelo conteúdo da Brasiliana Digital (apresentações críticas e blog da brasiliana) e também conhecer o projeto Brasiliana USP. O campo de busca está sempre presente. Os novos lançamentos estão anunciados e os comentários e sugestões continuam bem-vindos. Se você quiser, poderá seguir nosso twitter e estar sempre ligado nas novidades da Brasiliana Digital"





19 de janeiro de 2010

Os pecados do Haiti - Por Eduardo Galeano

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"A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.


O voto e o veto


Para apagar as pegadas da participação estado-unidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.


Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.


 O álibi demográfico


Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual é o problema:
– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.
E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.


Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.
Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.


A tradição racista


Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objectivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".


 O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".


Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".


A humilhação imperdoável


Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.


A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.


O delito da dignidade


Nem sequer Simón Bolíver, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.


Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pénis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.


A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental."




15 de janeiro de 2010

As razões do Le Monde em escolher o presidente Lula, "a personalidade de 2009"

3 comentários:
Como já disse o ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, quando da paranóia histérica da mídia brasileira sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos,  o melhor a fazer é ir à fonte. Em vez de ouvir a opinião dos "Bóris Casoy , Alexandre Garcia" e outros "especialistas", o correto era ir ler o tão falado plano para que se pudesse ter a real dimensão do mesmo.  


No caso da escolha do presidente Lula como a "personalidade do ano de 2009" pelo jornal francês Le Monde, a chamada "grande mídia brasileira informou com sua constante má-vontade, essa escolha. Mais uma vez estava furado o cerco da mídia empresarial brasileira. Como será possível que o Lula pode ser reconhecido pela imprensa lá fora e ser tão duramente combatido pela mídia brasileira. No caso, a mídia das grandes organizações empresarias como as Organizações Globo, Abril, Veja, Folha, Estadão e suas sócias menores? O melhor a fazer para que se possa avaliar é ir direto a quem deu o prêmio simbólico. Definitivamente ler o PIG - Partido da Imprensa Golpista em assuntos da política brasileira  é um exercício de paciência e de decifrar a parcialidade. Então, façamos como disse Cláudio Lembro. Eis a explicação do Le Monde. A matéria é da Comunidade França-Brasil:


"LE JOURNAL LE MONDE DÉSIGNE “SA” PERSONALITÉ DE L’ANNÉE


Pour la première fois dans son histoire, Le Monde a décidé de désigner “Sa” personnalité de l’année. Eric Fottorino nous explique le choix du Président Lula pour 2009:"


“Nous avons choisi une personnalité dont l’action et la notoriété ont pris une dimension internationale. Soucieux de sortir des choix obligés qui auraient pu nous porter vers le président des Etats-Unis, Barack Obama (mais il fut davantage l’homme de 2008 que celui de 2009), nous avons aussi écarté les personnalités “négatives”, encore que leur action soit déterminante dans la nouvelle configuration mondiale : Vladimir Poutine et sa tentation-tentative de reconstituer l’empire soviétique; Mahmoud Ahmadinejad, dont chaque parole et chaque acte sont un défi à l’Occident. Depuis sa création, Le Monde, marqué par l’esprit d’analyse de son fondateur, Hubert Beuve-Méry, se veut un journal de (re)construction, sinon d’espoir; il véhicule à sa manière une part du positivisme d’Auguste Comte, prend fait et cause pour les hommes de bonne volonté. C’est pourquoi, plus connu sous le simple nom de Lula. Il nous a paru que par son parcours singulier d’ancien syndicaliste, par sa réussite à la tête d’un pays aussi complexe que le Brésil, par son souci du développement économique, de la lutte contre les inégalités et de la défense de l’environnement, Lula avait bien mérité… du monde.”


Fiz uma tradução livre do texto. Eis: 


"Jornal Le Monde escolhe "sua" personalidade do ano


Pela primeira vez na  sua história, Le Monde decidiu escolher  "sua" personalidade do ano. Eric Fottorino explica a escolha do presidente Lula em 2009:"


"Escolhemos uma pessoa cujo trabalho e reputação tomaram uma dimensão internacional. Ansiosos para escaparmos de escolhas forçadas que poderiam trazer-nos para o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama (mas era mais humana, em 2008 do que em 2009), nós também excluímos os valores "negativos", embora suas ações foram fundamentais na nova configuração mundial: Vladimir Putin e a sua tentação-tentativa de reconstituir o império soviético; Mahmoud Ahmadinejad, em que cada palavra e cada ação é um desafio para o Ocidente. Desde a sua criação, o Le Monde, marcado pela mente analítica de seu fundador, Hubert Beuve-Méry, queria ser um jornal de (re) construção, senão  da esperança, um veículo à sua maneira, parte do positivismo de Auguste Comte, que assume a causa dos homens de boa vontade . Portanto, nossa escolha da razão e do coração estava voltada para o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, mais conhecido sob o simples nome de Lula. Sentimos que por sua carreira singular de antigo sindicalista, por seu sucesso na condução de um país tão complexo como o Brasil, com sua preocupação com o desenvolvimento econômico, a luta contra as desigualdades e a defesa do ambiente, Lula  bem mereceu ...Le Monde."


Fonte: Comunidade França-Brasil   http://www.comunidadefb.com.br/noticias/?p=3043

14 de janeiro de 2010

Biblioteca Digital Mundial

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A UNESCO oferece um site com a Biblioteca Digital Mundial. Um site bem interessante e que disponibiliza documentos, imagens e outros materiais a partir do acervo de bibliotecas e arquivos do mundo inteiro. 
Segundo o site, a missão da biblioteca 

"A Biblioteca Digital Mundial disponibiliza na Internet, gratuitamente e em formato multilíngue, importantes fontes provenientes de países e culturas de todo o mundo.

Os principais objetivos da Biblioteca Digital Mundial são:
  • Promover a compreensão internacional e intercultural;
  • Expandir o volume e a variedade de conteúdo cultural na Internet;
  • Fornecer recursos para educadores, acadêmicos e o público em geral;
  • Desenvolver capacidades em instituições parceiras, a fim de reduzir a lacuna digital dentro dos e entre os países."
 


Vale a pena conferir e acessar. 





9 de janeiro de 2010

Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da URCA.

Um comentário:







O Centro de Documentação e Pesquisa Histórica (CDPH) da Universidade Regional do Cariri, criado no ano de 2004, por iniciativa dos professores do Departamento de História da URCA  e implantado no ano de 2007,  tem como objetivos a realização de pesquisas históricas, a preservação de documentos e sua difusão entre a comunidade acadêmica e a população em geral.













Entre suas missões estão reunir, sistematizar, preservar e difundir fontes documentais para a pesquisa histórica. Para tanto, recebe a doação ou a custódia de fundos documentais, tendo como primeiro acervo custodiado, a documentação que se encontrava no Fórum da Cidade do Crato – CE, compreendendo inventários post-mortem, testamentos, autos de partilha, petições, processos criminais, hipotecas e outros documentos referentes aos séculos XIX e XX.





O acervo recebido está em fase de identificação e catalogação. Para a realização de tal tarefa, a coordenação do CDPH conta com o auxílio dos estudantes do curso de História da URCA que complementam suas atividades acadêmicas nas atividades de identificação, limpeza, catalogação e pesquisa e colaboram para a constituição de um catálogo que permitirá aos interessados na história da região do Cariri ter mais uma fonte para suas consultas e pesquisas.








7 de janeiro de 2010

A estudante e a empregada doméstica: preconceito de classe.

4 comentários:
Sempre parcial, sempre classista.

Já escrevemos e muitos já escreveram sobre o papel da mídia corporativa brasileira que age como um partido político, o Partido da Imprensa Golpista - PIG. E não é de hoje que o PIG age em nosso país. Se buscarmos tempos mais remotos, veremos que o PIG agiu para desestabilizar governos considerados "esquerdistas" como no caso do governo João Goulart.
Que a mídia corporativa é classista, despudorada e defende de forma escancarada seus interesses, todo mundo está cansado de saber. E que pratica o mais deslavado corporativismo como no caso do jornalista Boris Casoy e seu preconceito contra os garis, idem. A mídia que julga a todos se calou no caso do Bóris. Apenas um ou outro jornalista o criticou em seus sites e blogs.
 
Mesmo assim não é possível ficar calado. Agora com essa cobertura sobre as tragédias das chuvas. Vários brasileiros morrem ou se ficam vivos, perdem tudo o que trabalharam a vida inteira para conseguir. No entanto, as Organizações Globo como sempre demonstraram seu caráter de classe, de elitismo e de preconceito na cobertura de duas mortes por causa das chuvas.

Duas coberturas distintas sobre duas mortes. De duas brasileiras. 

A primeira, a da estudante de classe media alta, Yumi Faraci. Morta num deslizamento de terras em Angra dos Reis, na madrugada do dia 1º de janeiro de 2010. A Rede Globo se superou: matérias no Fantástico, vídeos da jovem, sua história de vida nesses 18 anos, seus gostos, seus amigos, até a família enlutada deu entrevista no horário nobre, em pleno Jornal Nacional. Seus amigos deram entrevistas e falaram que Yumi adorava cantar e que gostava à noite de ir olhar os planctons no mar.  No dia seguinte, no outro jornal global, aquele da manhã, apresentados pelo "Renato e pela Renata", a apresentadora Renata fez o discurso de que a morte de Yumi comovera todo o país. Sem dúvida, a morte de uma pessoa é algo que nos faz refletir a fragilidade da vida humana e lamentar tal perda. Mas a cobertura é diferenciada conforme a posição social.

O que a Rede Globo fez em outro caso é de arrepiar. No dia 05 de janeiro de 2010, a empregada doméstica     Shirley da Cruz Silva deu o "azar" de cair em uma galeria pluvial em Perus, Zona Norte da cidade de São Paulo. No caso da TV, foi divulgada pelo Jornal Hoje, a foto da empregada doméstica e foi citado o que aconteceu com ela. Eu sei, não há vídeo da empregada, afinal, ela é uma empregada doméstica e provavelmente não gravava vídeos de suas canções e viagens etc etc. Mas, e a cobertura da televisão? Expuseram a foto 3X4 da moça e só. Nenhuma reportagem com a sua família, nenhum amigo dizendo os seus gostos, sonhos, planos. Nada. Nenhuma cobertura especial. Nadinha de nada. Não dá para saber pela mídia. O que a Rede Globo concedeu à memória da vítima do bueiro foi mostrar no dia 06, no jornal local de São Paulo, em uma matéria de 44 segundos, o que aconteceu com a moça. E nenhum comentário comovido das apresentadoras, sobre mais essa perda humana.
Como a família se revoltou com a prefeitura, alegando que a boca de lobo, no site G1, também das Organizações Globo, foi divulgado em uma nota, um trecho de 5 linhas que diz:  "Segundo tios e um primo da vítima contaram ao G1 nesta quarta (6), o acesso a essa galeria está aberto há mais de um ano. Procurada, a Secretaria das Subprefeituras informou que apurava o caso." 


Assim ficamos sabendo da morte da estudante e da morte da empregada doméstica. Ainda não entenderam que a diferença entre a casa grande e a senzala não pode mais existir. 



4 de janeiro de 2010

Preconceito de classe: o jornalista e os garis.

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Que o Boris Casoy é um jornalista conservador e defensor da direita brasileira, todo mundo sabe. Que ele adora dizer "Isso é uma vergonha", também. E que o preconceito de classe que ele destilou ao comentar de forma irônica a participação de dois garis, no Jornal da Bandeirantes (que emissora é essa que tem um nome mas usa um apelido, "Band"???) não é de surpreender ninguém. Só surpreende quem é ingênuo ou quem é mal intencionado. E não surpreenda quem compartilha dos mesmos ideais do jornalista Boris Casoy, mas talvez os irrite a divulgação tão clara desse tipo de postura.  

Antes de assistir ao vídeo, leia o comentário de um jornalista que tem visão oposta a de Boris Casoy. É o jornalista Miro Borges (Fonte, Portal Vermelho):



Miro Borges: Boris Casoy é “uma vergonha”


"Primeiro vídeo: ao encerrar o Jornal da Band da noite de 31 de dezembro de 2009, dois garis de São Paulo aparecem desejando feliz ano novo ao povo brasileiro. Na sequência, sem perceber o vazamento de áudio, o fascistóide Boris Casoy, âncora da TV Bandeirantes, faz um comentário asqueroso: “Que merda... Dois lixeiros desejando felicidades... do alto de suas vassouras... Dois lixeiros... O mais baixo da escala do trabalho”.

Segundo vídeo: na noite seguinte, o jornalista preconceituoso pede desculpas meio a contragosto: “Ontem durante o programa eu disse uma frase infeliz que ofendeu os garis. Eu peço profundas desculpas aos garis e a todos os telespectadores”. Numa entrevista à Folha, porém, Boris Casoy mostra que não se arrependeu da frase e do seu pensamento elitista, mas sim do vazamento. “Foi um erro. Vazou, era intervalo e supostamente os microfones estavam desligados”.


Do CCC à assessoria dos golpistas


Este fato lastimável, que lembra a antena parabólica do ex-ministro de FHC, Rubens Ricupero – outras centenas de comentários de colunistas elitistas da mídia hegemônica infelizmente nunca vieram ao ar –, revela como a imprensa brasileira “é uma vergonha”, para citar o bordão de Boris Casoy, com seu biquinho e seus cacoetes. O episódio também serve para desmascarar de vez este repugnante apresentador, que gosta de posar de jornalista crítico e independente.

A história de Boris Casoy é das mais sombrias. Ele sempre esteve vinculado a grupos de direita e manteve relações com políticos reacionários. Segundo artigo bombástico da revista Cruzeiro, em 1968, o então estudante do Mackenzie teria sido membro do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), o grupo fascista que promoveu inúmeros atos terroristas durante a ditadura militar. Casoy nega a sua militância, mas vários historiadores e personagens do período confirmam a denúncia.


Âncora da oposição de direita


Ainda de 1968, o direitista foi nomeado secretário de imprensa de Herbert Levy, então secretário de Agricultura do governo biônico de Abreu Sodré – em plena ditadura. Também foi assessor do ministro da Agricultura do general Garrastazu Médici na fase mais dura das torturas e mortes do regime militar. Em 1974, Casoy ingressou na Folha de S.Paulo e, numa ascensão meteórica, foi promovido a editor-chefe do jornal de Octávio Frias, outro partidário do setor “linha dura” dos generais golpistas. Como âncora de televisão, a sua carreira teve início no SBT, em 1988.

Na seqüência, Casoy foi apresentador do Jornal da Record durante oito anos, até ser demitido em dezembro de 2005. Ressentido, ele declarou à revista IstoÉ que “o governo pressionou a Record [para me demitir]... Foram várias pressões e a final foi do Zé Dirceu”. Na prática, a emissora não teve como sustentar seu discurso raivoso, que transformou o telejornal em palanque da oposição de direita, bombardeando sem piedade o presidente Lula no chamado “escândalo do mensalão”.


Nos bastidores da TV Bandeirantes


Em 2008, Casoy foi contratado pela TV Bandeirantes e manteve suas posições direitistas. Ele é um inimigo declarado dos movimentos grevistas e detesta o MST. Não esconde sua visão elitista contra as políticas sociais do governo Lula e alinha-se sempre com as posições imperialistas dos EUA nas questões da política externa. O vazamento do vídeo em que ofende os garis confirma seu arraigado preconceito contra os trabalhadores e tumultuou os bastidores da TV Bandeirantes.

Entidades sindicais e populares já analisam a possibilidade de ingressar com representação junto à Procuradoria Geral da República. Como ironiza Beto Almeida, presidente da TV Cidade Livre de Brasília, seria saudável o “Boris prestar serviços comunitários por um tempo, varrendo ruas, para ter a oportunidade de fazer algo de útil aos seus semelhantes”. Também é possível acionar o Ministério Público Federal, que tem a função de defender os direitos constitucionais do cidadão junto “aos concessionários e permissionários de serviço público” – como é o caso das TVs.

Na 1ª Conferência Nacional de Comunicação, realizada em dezembro, Walter Ceneviva, Antonio Teles e Frederico Nogueira, entre outros dirigentes da Rede Bandeirantes, participaram de forma democrática dos debates. Bem diferente da postura autoritária das emissoras afiliadas à Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), teleguiadas pela Rede Globo. Apesar das divergências, essa participação foi saudada pelos outros setores sociais presentes ao evento. Um dos pontos polêmicos foi sobre a chamada “liberdade de expressão”. A pergunta que fica é se a deprimente declaração de Boris Casoy faz parte deste “direito absoluto”, quase divino."




Assista ao famoso vídeo.