29 de maio de 2010

"Bancada ruralista não deixa votar a abolição da escravatura"

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Por Paulo Henrique Amorim
Do Conversa Afiada
Por que a senadora Katia Abreu não mobiliza sua base para abolir a escravatura?
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"O Conversa Afiada chama a atenção do amigo navegante para a importante entrevista de Leonardo Sakamoto na CBN, onde denuncia: a bancada ruralista não deixa a Câmara votar a abolição da escravatura no Brasil.
Parece brincadeira.
Pense nisso com seriredade.
Sakamoto é do Movimento pela Abolição da Escravidão no Brasil.
leia aqui um resumo da entrevista que fiz na Record News com o professor Marcelo Paixão, que trata dos escravos negros no Brasil, HOJE.
E deseje os melhores votos ao Ali Kamel, que diz que nós (nós quem ?) não somos racistas."
Paulo Henrique Amorim 
Fonte: Conversa Afiada (Matéria copiada do site do MST)  

22 de maio de 2010

Capitalismo na antiga Iugoslávia

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"Ex-iugoslavos ainda esperam bondades do capitalismo"
"Após as guerras de secessão dos Bálcãs na década de 90, a região, que se dividiu em Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Kosovo, Macedônia, Montenegro e Sérvia, sofreu uma “dolorosa transição” para uma economia de mercado. Segundo estudo do Pnud, privatizações foram pouco transparentes. Em vários casos, empresas foram vendidas por cifras nominais de poucos euros e os novos proprietários não fizeram nada com elas. Sérvia, Croácia e Bósnia-Herzegovina se converteram em “Estados reféns”, nos quais os governantes permitiram com que delinqüentes ou “redes mafiosas” violassem a lei de forma flagrante e tirassem proveito “de transações nebulosas com funcionários e autoridades.”
"A população da desintegrada Iugoslávia ainda espera a chegada do prometido grande crescimento econômico e rápido desenvolvimento que viriam com o capitalismo. Há milhões de pessoas pobres e entre 2 e 3% de ricos, segundo estatísticas oficiais. Após as guerras de secessão dos Bálcãs na década de 90, a região, que se dividiu em Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Kosovo, Macedônia, Montenegro e Sérvia, sofreu uma “dolorosa transição” para uma economia de mercado, indicam analistas. A situação começou a se deteriorar entre 1991 e 1995, quando terminou o regime socialista liberal que caracterizou a Iugoslávia desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A economia regional está em um estado lamentável, se comparado ao de 1989, quando estava especialmente bem. O caso da Eslovênia é diferente porque era uma das regiões mais desenvolvidas da Iugoslávia e ingressou na União Européia em 2004. O processo de privatização e a transição para uma economia de mercado foi totalmente distinto ao de outros países da Europa oriental, após a queda do muro de Berlim, em 1989, segundo especialistas. “Não se viram gerentes comunistas espertalhões ou empresários internacionais de duvidosa reputação envolvidos nas privatizações”, diz o analista Misa Brkic, em entrevista a IPS. A pobreza que existe hoje nesta região não é um fato repentino causado pela atual crise econômica mundial. “As elites locais aproveitaram as devastadoras guerras para ficar com o poder e colocar sua gente na frente da economia. Não puderam nem souberam jogar em função das regras de mercado”, acrescenta.

A guerra causou mais de 120 mil mortes. As perdas econômicas foram de bilhões de dólares com a destruição de fábricas, empresas, edifícios privados e públicos, aniquilação da produção e a falta de exportações para o desaparecido mercado comum. O custo da destruição na Sérvia chegou a mais de 17 bilhões de dólares, após o bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em 1999, com o objetivo de terminar com a repressão do regime do ex-presidente Slobodan Milosevic (1941-2006) contra os albaneses de Kosovo. A situação dissuadiu as empresas internacionais de realizar investimentos importantes na região, assinalou Brkic. O que ocorre desde 2008 “não é mais que o resultado inevitável da combinação da situação local deteriorada e da recessão mundial”.

A falta de atividade econômica é típica. As pessoas querem cada vez mais ajuda do Estado. O desemprego afeta cerca de 20% da população ativa da Sérvia e da Croácia e mais de 45% na Bósnia-Herzegovina. “A mentalidade socialista custa a morrer”, comenta Brkic. “Nunca adotamos a crença de que há uma relação entre quantidade de trabalho e qualidade de vida. Por isso, há protestos diários frente aos edifícios governamentais. Os trabalhadores reclamam salários e empregos ao Estado”.

Os aposentados dependem de pensões, cujo valor caiu a umas poucas centenas de dólares por mês. Os cofres do Estado minguam pela baixa arrecadação de uma economia estagnada e de poucos recursos deixados pelas privatizações. “A indústria e o comércio croata foram vítimas da louca idéia de Franjo Tudjman (líder independentista e ex-presidente já falecido) que criou 200 famílias muito ricas para lançar uma economia bem sucedida”, disse Zarko Modric à IPS. “Mas só a sua turma ficou com os recursos da privatização. As outrora pujantes indústrias e empresas exportadoras foram vendidas por pouco dinheiro a pessoas que não souberam administrá-las”, assinala.

A solução mais fácil para o Estado ao término da guerra de 1995 foi aposentar centenas de milhares de veteranos empresários, cujas empresas tinham sido destruídas pelo bombardeio em zonas de combate ou pelas privatizações, explica Modric. “A quantidade de aposentados é apenas um pouco menor que a de empregados na Croácia. As pensões e outras categorias sociais consomem boa parte do orçamento estatal. O governo pede empréstimos, mas sob condições cada vez mais severas”, adverte. “A dívida externa desse país equivale hoje ao seu Produto Interno Bruto, algo em torno de 55 bilhões de dólares. O Estado é prisioneiro dessa dívida”.

Em 2003, a Croácia, com 4,3 milhões de habitantes, alcançou 69% do PIB que tinha em 1989; enquanto a Sérvia, com 7,3 milhões de pessoas, o fez somente em 2009. A situação é ainda pior na Bósnia-Herzegovina, um país de 3,5 milhões de habitantes, que após a guerra ficou conformada por duas entidades: a República dos sérvio-bósnios, e a Federação Croata-Muçulmana. A corrupção, a violação das leis, a fuga de cérebros, as divisões étnicas entre bósnios muçulmanos, croatas e sérvios, “arraigados a suas entidades”, são apontadas como as principais razões da estagnação econômica do país, segundo um estudo realizado em 2009 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

Uma investigação aprofundada, “Privatização do capital estatal na Bósnia-Herzegovina”, descreve o processo de reconstrução entre 1995 e 2000, a privatização e a transição para uma economia de mercado até 2009. Do mesmo modo que a Sérvia e a Croácia, a Bósnia-Herzegovina se converteu em um “Estado refém”, no qual os governantes permitiram com que delinqüentes ou “redes mafiosas” violassem a lei de forma flagrante e tirassem proveito “de transações nebulosas com funcionários e autoridades”, segundo o Pnud. As privatizações foram pouco transparentes. As empresas foram vendidas por cifras nominais de poucos euros e os novos proprietários não fizeram nada com elas.

Os cofres do Estado ficaram sem o dinheiro das privatizações, o que fez cair as já magras aposentadorias e a assistência social. “Quando a população da desintegrada Iugoslávia se queixa de que nunca foi tão pobre, eu explico que não podem compreender o que ocorreu, apesar de terem sido testemunhas de tudo”, sustenta Brkic. “Muita gente acredita que não é preciso trabalhar para viver bem. Mas a realidade é dolorosa e ninguém escapa dela. A transição é dura, mas deve ser feita rapidamente para que o dano seja menor”, sustenta. “Há 20 anos que vivemos nesta situação, mas os governantes, os especialistas e os acadêmicos devem alcançar um consenso para acelerar o processo”, conclui."

Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Agência Carta Maior

20 de maio de 2010

O imperialismo é um tigre de papel?

Um comentário:

No atual cenário internacional, os Estados Unidos da América continuam sua política com dois pesos e duas medidas. Complacência e parceria com Israel e seu arsenal atômico irregular. Cumplicidade com a política de exploração e massacre do povo palestino realizada por Israel. Ao mesmo tempo, ignoram os esforços do Brasil e da Turquia no acordo sobre o enriquecimento de urânio com o Irã. Chamam a essa política de "opinião da comunidade internacional". Parecem desejar a guerra a todo custo e a mídia empresarial brasileira  faz coro com eles.  

Hiroshima - 1945

O único país do mundo a usar uma arma nuclear contra duas cidades (Hiroshima e Nagasaki), matando milhares de pessoas e deixando um rastro de destruição e vergonha para toda a humanidade, tem a petulância de falar em segurança mundial. É a velha paz dos cemitérios. 
  
Lógico, essa política tem aliados tradicionais e eventuais. Mas é firme, consistente, permanente. 


Apoio a golpes de estado, apoio a regimes ditatoriais. Ditaduras para os governos dos Estados Unidos são os regimes que não os apóiam. Dessa forma, Arábia Saudita, o atual governo golpista da Tailândia, e outros exemplos da  mais escancarada ditadura, para os Estados Unidos são aliados, democracias, o "mundo ocidental" (nesse sentido até o Japão é "ocidental"). 
O líder dessa política imperialista continua agindo conforme seus interesses imediatos e também a longo prazo. Na verdade, a lógica segue aos interesses eonômicos e militares do conglomerado financeiro da "comunidade internacional" que necessita do aparato dos estados-nações para executar a face mais agressiva dessa política, a guerra, seja a de quartel, seja a militar ou  a  midiática e financeira. 


Será que Mao Tse-Tung (Mao Zedong) estava errado quando disse que o Imperialismo norte-americano é um tigre de papel?  Na verdade, não. Se lermos o texto completo de Mao, entendemos o que ele quis dizer com essa frase-título de um texto seu, de 14 de julho de 1954. Nesse texto, Mao contextualiza a história da China e a forma de agir dos Estados Unidos, até chegar ao ponto em que afirma na célebre frase que o imperialismo norte-americano é um "tigre de papel".  Alguns trechos:

" (...)
Agora  o imperialismo norte-americano parece bem poderoso, mas na realidade não é. É muito fraco politicamente porque está divorciado das massas do povo e é antipatizado por todos, e até pelo povo norte-americano. Na aparência é muito poderoso, mas na realidade não é nada a se temer: é um tigre de papel. 
(...)
Quando dizemos que o imperialismo norte-americano é um tigre de papel, estamos falando em termos de estratégia. Considerado em seu todo, devemos desprezá-lo, mas considerando cada parte, devemos tomá-lo seriamente. Ele tem presas e garras. Devemos destruí-lo gradualmente. Por exemplo, se tiver dez presas, quebre uma da primeira vez, e restarão nove; acabe com a outra, e restarão oito. Quando todas as presas estiverem destruídas, ele ainda terá as garras. Se tratarmos disso passo a passo e com seriedade, certamente venceremos no final. 
Estrategicamente, devemos desprezar por completo o imperialismo norte-americano. Taticamente, devemos levá-lo a sério. Lutando contra ele, devemos encarar cada batalha, cada encontro, com seriedade. Atualmente, os Estados Unidos são poderosos, mas quando examinados em perspectiva mais ampla, como um todo e do ponto de vista de longo prazo, eles não tem apoio popular, suas políticas não são simpáticas ao povo, que eles oprimem e exploram. 
(...)
TSE-TUNG, Mao. Sobre a prática e a contradição. Mao Tse-Tung; apresentação por Slavoj Zizek; tradução José Maurício Gradel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008, p. 137.  
      

11 de maio de 2010

Ritos, trabalho e cerimônias de uma pequena universidade

2 comentários:


Trabalhar numa pequena universidade localizada no sertão nordestino é uma tarefa surpreendente. Alguns problemas são estruturais. Outros, são políticos. Como problemas estruturais aponto a falta de condições para o pleno exercício das atividades de ensino, pesquisa e extensão.  Simplesmente não existem condições dignas de trabalho. Na Universidade Regional do Cariri nunca houve concurso para o quadro de servidores técnicos e administrativos. Nunca. O que temos são os valorosos servidores que foram transferidos de outros órgãos, já extintos, ou funcionários terceirizados, que sofrem toda sorte de problemas e opressão, além da óbvia precariedade na relação trabalho-capital. Fico apenas nesse exemplo sobre a falta de estrutura. Sim, porque os seres humanos fazem parte, constroem essa estrutura, estabelecem relações, aquilo que Edward Thompson chamou de processos estruturados.  

Dos problemas políticos, vemos a postura de seguidos governos que além de não permitirem a autonomia real para a pequena universidade, deixam bem claro o discurso de que o ensino superior não é de responsabilidade deles, ou seja, dos governos estaduais. Se as elites paulistanas pensassem assim, não existira a Universidade de São Paulo, a USP, não é mesmo? Assim sendo, a URCA tem um déficit de 213 professores, segundo o sindicato docente, o SINDURCA. Faltam 213 professores! E para "tapar o sol com a peneira" fazem seleções simplificadas para professor substituto que não substitui ninguém. E pior, inventam a figura do "professor colaborador", que nem contratado do Estado é. Menos do que um substituto, o "professor colaborador" é um funcionário contratado por uma fundação da universidade para dar aulas como que em um colégio particular. O coitado sofre as agruras, é terceirizado e a universidade como um todo sofre com isso. E a perspectiva de concurso? Nenhuma... afinal, ensino superior não é problema dos governos estaduais... Fora os prefeitos, deputados e outros que acham que uma universidade é o palco para suas clientelas e local de empregar pessoas   que Fico nesse exemplo. Evidentemente existem inúmeros outros problemas que envolvem a universidade. 

Vejo que os estudantes estão indo à luta e se mobilizando para que haja concurso entre outras reivindicações. Pena que os professores e os servidores não estejam mobilizados. Mas isso faz parte da nossa característica atual como categoria. Apenas lutas economicistas, quando existe, no mais, indiferença, insensibilidade e individualismo. Afinal, ganhamos 100% de aumento salarial nos últimos anos. 
Como as coisas estão ligadas e muito pouco há de pesquisa científica, de avanço no conhecimento, de propostas inovadoras para a sociedade que nos sustenta, acabamos sendo apenas um local, digo, na maior parte dos casos (mas há exceções), mas acabamos sendo um local onde as pessoas colam grau. Sabe-se lá em quais condições. E passamos a dar mais valor a certos eventos, solenidades e cerimônias. Um discurso antigo, surrado, do velho bacharelismo. 

Nada contra os bacharéis, os cursos de bacharelado. Mas o bacharelismo é outra coisa que se tornou uma das forças geradoras do discurso vazio, da retórica e do patrimonialismo brasileiros. E a nossa pequena universidade vive isso. Com todas as suas mazelas. O aspecto exterior mais evidente é o quase desesperado apego às formas, aos rituais que muitas vezes são destituídos de sentido para quem os pratica. Quase irracionais, servem apenas para contentar-nos em alguns momentos difíceis. Quase uma catarse, ou melhor dizendo, uma estranha comemoração diante do que virá muitas vezes: o desemprego, os baixos salários e a falta de pelo menos, um pensamento original e avançado, que colabore para o desenvolvimento social de nosso povo. Ao ler o texto do reitor da Universidade Federal da Bahia - UFBA, sobre certas "tradições"  e o apego aos formalismos, lembrei-me da nossa triste situação. Nada contra o festejar. Mas que as pessoas pelo menos entendam o que estão vivendo. 




Leia o texto do Reitor da UFBA, Naomar de Almeida Filho: 
Becas, borlas e jabôs não garantem a excelência que justifica nossa existência. É preciso talento e produção acadêmica competente

"NO INTRIGANTE ensaio "A Invenção das Tradições", Eric Hobsbawm mostra como se inventam tradições a partir de raízes históricas fictícias. Irônico, analisa rituais, brasões, corporações e até o saiote escocês. Curiosamente, esquece a mais legitimada matriz contemporânea de símbolos e signos culturais: a universidade.
Tradições universitárias têm sido inventadas e cultivadas no correr de quase dez séculos. Em se tratando de vestes rituais, são quatro linhagens.

A universidade escolástica mantém-se viva nas tradições clericais das universidades italianas e ibéricas. As vestes solenes das universidades ibéricas são ainda hoje negras e soturnas, recriando trajes das cortes mediterrâneas do século 17. Acompanham adornos indicadores de segmentos, nunca da universidade como um todo. Assim são as samarras, capuzes estilizados que não mais recobrem cabeças, que ostentam cores definidas para cada uma das faculdades.

A universidade britânica surgiu para a formação teológica da Igreja Anglicana. Chapéus ornamentados, capuchos, túnicas e capas coloridas são elementos identificadores de cada casa de ensino, mas não de escolas ou faculdades. Uma procissão acadêmica numa universidade anglo-saxã revela profusão de cores e formas, pois os docentes terão feito seu doutorado em diferentes instituições.

A universidade humboldtiana nasceu sob forte influência protestante, com raízes luteranas ou metodistas, sub-rogada pelo disciplinarismo prussiano. Nos seus trajes rituais, variados por universidades, e não por faculdades, predomina a cor cinza ou marrom. Agregam-se signos remanescentes do barroco alemão, introduzindo elementos como o arminho em semicapas que evocam uniformes militares.

A tradição francesa pouco valoriza a instituição universitária. A reforma bonapartista da educação concedeu às "grandes écoles" hierarquia mais elevada que à universidade. Por isso, na França, vestes talares levam ao extremo o domínio simbólico das faculdades, sob a forma de faixas, sobrepelizes, pelerines e adornos sobre uma beca negra, lisa ou plissada. O "jabeau", peitilho com rendas e brocados, encimado por gravatinha borboleta branca, moda entre os gentis-homens da "belle époque", completa o vestuário de gala acadêmica.

No Brasil, quando faculdades e escolas politécnicas foram fundadas no século 19, a influência francesa predominou como horizonte intelectual e estético. As primeiras instituições promovidas ao regime de universidade foram formadas pela unificação de faculdades.

Hoje, nas instituições universitárias brasileiras, a beca negra e lisa, com um tipo padrão de casquete quadrado com borla e jabô de renda bordada, predomina como veste talar para graduações, simulacro da tradição francesa.

Diferenciando os docentes, faixas, sobrepelizes e capinhas, estilizadas dos capuzes doutorais lusitanos, seguem a gramática de cores do contexto francês. Para distinguir o reitor, universidades brasileiras adotam uma cópia exata da samarra das faculdades conimbricenses, reinventada na cor branca. Com o branco, síntese de todas as cores, talvez se pretenda simbolizar o poder maior da reitoria sobre as faculdades e suas cores.

Recentemente, no Salão de Atos de Coimbra, os reitores das universidades brasileiras reuniram-se para fundar o Grupo Coimbra Brasil. Quase todos em suas becas pretas e samarras brancas, muitos com sobrepeliz de arminho, jabô, faixa, capelo ou borla. Aí descobriram que os reitores da Universidade de Coimbra, fonte de nossa tradição universitária, usam somente um conjunto de calças e jaqueta, negras e justas, pois despojam-se dos signos de suas faculdades ao assumir o cargo maior da instituição.
Temos aqui uma questão de duplo sentido: político e antropológico. A universidade brasileira continuará a se reconstruir como instituição de conhecimento. Para tanto, reforçaremos vínculos com universidades de outras linhagens que conosco compartilham os valores da civilização.

Mas isso não nos obriga a imitar suas tradições nem a criar, a partir delas, simulacros. Os que escolhem fazê-lo precisam saber a que remontam e o significado de rituais e vestes, sobretudo por seu impacto no imaginário social.

Becas, borlas e jabôs são apenas roupas que, em eventos solenes, representam pompa e tradição. Sozinhos, não garantem a excelência que justifica, à sociedade, nossa existência. Isso se conquista com talento, trabalho cotidiano e produção acadêmica competente."

NAOMAR DE ALMEIDA FILHO, 57, doutor em epidemiologia, pesquisador 1-A do CNPq, é reitor da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e autor, com Boaventura de Sousa Santos, de "A Universidade do Século XXI: Para uma Universidade Nova" (Almedina, 2009).
 Publicado na Folha de São Paulo – 24.01.10


    

4 de maio de 2010

Deu na Agência Carta Maior: "Lula, as elites e o vira-latas"

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(Acho que as elites tem saudades daqueles tempos)

"É extremamente interessante que o brasileiro de maior destaque no mundo hoje seja um mestiço, nordestino, de origens paupérrimas e com déficit de educação formal. Para todos os segmentos das elites nacionais, nostálgicas de uma Europa que as rejeita, é como uma bofetada! E assim foi compreendida a lista do Time. Daí a resposta das elites: o silêncio!"
"Seguindo outros grandes meios de comunicação globais, a revista Time escolheu – na semana passada - o presidente Lula como o líder mais influente do mundo. A notícia repercutiu em todo o mundo, sendo matéria de primeira página, no jornalão El País. 

Elite e preconceito
Na verdade a matéria o apontava como o homem mais influente do mundo, posto que nem só políticos fossem alinhados na larga lista composta pelo Time. Esta não é a primeira vez que Lula merece amplo destaque na imprensa mundial. Os jornais Le Monde, de Paris, e o El País, o mais importante meio de comunicação em língua espanhola (e muito atento aos temas latino-americanos) já haviam, na virada de 2009, destacado Lula como o “homem do ano”. O inédito desta feita, com a revista Time, foi fazer uma lista, incluindo aí homens de negócios, cientistas e artistas mundialmente conhecidos. Entre os quais está o brasileiro Luis Inácio da Silva, nascido pobre e humilde em Caetés, no interior de Pernambuco, em 1945, o presidente do Brasil aparece como o mais influente de todas as personalidades globais. Por si só, dado o ponto de partida da trajetória de Lula e as deficiências de formação notórias é um fato que merece toda a atenção. No Brasil a trajetória de Lula tornou-se um símbolo contra toda a forma de exclusão e um cabal desmentido aos preconceitos culturalistas que pouco se esforçam para disfarçar o preconceito social e de classe.

É extremamente interessante, inclusive para uma sociologia das elites nacionais, que o brasileiro de maior destaque no mundo hoje seja um mestiço, nordestino, de origens paupérrimas e com grande déficit de educação formal. Para todos os segmentos das elites nacionais, nostálgicas de uma Europa que as rejeita, é como uma bofetada! E assim foi compreendida a lista do Time. Daí a resposta das elites: o silêncio sepulcral!

Lula Líder Mundial
Desde 2007 a imprensa mundial, depois de colocá-lo ao lado de líderes cubanos e nicaraguenhos num pretenso “eixinho do mal”, teve que aceitar a importância da presença de Lula nas relações internacionais e reconhecer a existência de uma personalidade original, complexa e desprovida de complexos neocoloniais. Em 2008 a Newsweek, seguida pela Forbes, admitiam Lula como um personagem de alcance mundial. O conservador Financial Times declarava, em 2009, que Lula, “com charme e habilidade política” era um dos homens que haviam moldado a primeira década do século XXI. Suas ações, em prol da paz, das negociações e dos programas de combate à pobreza eram responsáveis pela melhor atenção dada, globalmente, aos pobres e desprovidos do mundo.

Mesmo no momento da invasão do Iraque, em busca das propaladas “armas de destruição em massa”, Lula havia proposto a continuidade das negociações e declarado que a guerra contra a fome era mais importante que sustentar o complexo industrial-militar norte-americano. 

Em 2010, em meio a uma polêmica bastante desinformada no Brasil – quando alguns meios de comunicação nacionais ridicularizaram as propostas de negociação para a contínua crise no Oriente Médio – o jornal israelense Haaretz – um importante meio de comunicação marcado por sua independência – denominou Lula de “profeta da paz”, destacando sua insistência em buscar soluções negociadas para a paz. Enquanto isso, boa parte da mídia brasileira, fazendo eco à extrema-direita israelense, procurava diminuir o papel do Brasil na nova ordem mundial.

Lula, talvez mesmo sem saber, utilizando-se de sua habilidade política e de seu incrível sentido de negociações, repetia, nos mais graves dossiês internacionais, a máxima de Raymond Aron: a paz se negocia com inimigos. As exigências, descabidas e mal camufladas de recusa ás negociações, sempre baseadas em imposições, foram denunciadas pelo presidente brasileiro. Idéias pré-concebidas estabelecendo a necessidade de mudar regimes para se ter a paz ou usar as baionetas para garantir a democracia foram consideradas, como sempre, desculpas para novas guerras. Lula mostrou-se, em várias das mais espinhosas crises internacionais, um negociador permanente. Foi assim na crise do golpe de Estado na Venezuela em 2002 (quando ainda era candidato) e nas demais crises sul-americanas, como na Bolívia, com o Equador e como mediador em crises entre outros países.

Lula negociador
O mais surpreendente é que o reconhecimento internacional do presidente brasileiro não traz qualquer orgulho para a elite brasileira. Ao contrário. Lula foi ridicularizado por sua política no Oriente Médio. Enquanto isso o presidente de Israel, Shimon Perez ou o Grande-Rabino daquele país solicitavam o uso do livre trânsito do presidente para intervir junto ao irascível presidente do Irã. Dizia-se aqui que Lula ofendera Israel, enquanto o Haaretz o chamava de “profeta da paz” e a Knesset (o parlamento de Israel) o aplaudia em pé. No mesmo momento o Brasil assinava importantes acordos comerciais com Israel.

Ridicularizou-se ao extremo a atuação brasileira em Honduras, sem perceber a terrível porta que se abria com um golpe militar no continente. Lula teve a firmeza e a coragem, contra a opinião pública pessimamente informada, de dizer e que “... a época de se arrancar presidentes de pijama” do palácio do governo e expulsá-los do país pertencia, definitivamente, a noite dos tempos. 

Honduras teve que arcar com o peso, e os prejuízos, de sustentar uma elite empedernida, que escrevera na constituição, após anos de domínio ditatorial, que as leis, o mundo e a vida não podem ser mudados. Nem mesmo através da expressa vontade do povo! E a elite brasileira preferiu ficar ao lado dos golpistas hondurenhos e aceitar um precedente tenebroso para todo o continente.

Brasil, país no mundo!
Também se ridicularizou a abertura das relações do Brasil com o conjunto do planeta. Em oito anos abriu-se mais de sessenta novas representações no exterior, tornando o Brasil um país global. Os nostálgicos do “circuito Helena Rubinstein” – relações privilegiadas com Nova York, Londres e Paris – choraram a “proletarização” de nossas relações. Com a crise econômica global – que desmentiu os credos fundamentalistas neoliberais – a expansão do Brasil pelo mundo, os novos acordos comerciais (ao lado de um mercado interno robusto) impediram o Brasil de cair de joelhos. Outros países, atrelados ao eixo norte-atlântico e aqueles que aceitaram uma “pequena Alca”, como o México, debatem-se no fundo de suas infelicidades. Lula foi ridicularizado quando falou em “marolhinha”. Em seguida o ex-poderoso e o ex-centro anti-povos chamado FMI, declarou as medidas do governo Lula como as mais acertadas no conjunto do arsenal anti-crise.

Mais uma vez silêncio das elites brasileiras!

Lula foi considerado fomentador da preguiça e da miséria ao ampliar, recriar, e expandir ações de redistribuição de renda no país. A miséria encolheu e mais de 91 milhões de brasileiros ascenderam para vivenciar novos patamares de dignidade social... A elite disse que era apoiar o vício da preguiça, ecoando, desta feita sabendo, as ofensas coloniais sobre “nativos” preguiçosos. Era a retro-alimentação do mito da “pereza ibérica”. Uma ajuda de meio salário, temporária, merece por parte da elite um bombardeio constante. A corrupção em larga escala, dez vezes mais cara e improdutiva ao país que o Bolsa Família, e da qual a elite nacional não é estranha, nunca foi alvo de tantos ataques.

A ONU acabou escolhendo o Programa Bolsa Família como símbolo mundial do resgate dos desfavorecidos. O ultra-conservador jornal britânico The Economist o considerou um modelo de ação para todos os países tocados pela pobreza e o Le Monde como ação modelar de inclusão social.

Mais uma vez a elite nacional manteve-se em silêncio!

Em suma, quando a influente revista, sem anúncios do governo brasileiro, Time escolhe Lula como o líder mais influente do mundo, a mídia brasileira “esquece” de noticiar. Nas páginas internas, tão encolhidas como um vira-lata em dia de chuva noticia-se que Lula “... está entre os 25 lideres mais influentes do mundo”. Errado! A lista colocava Lula como “o mais” influente do mundo.

Agora se espera o silêncio da elite brasileira!"


*Francisco Carlos Teixeira é professor Titular de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).